29 de maio de 2016

Jejum Intermitente - mais uma dieta da moda?


Uma das maiores tendências do fitness e saúde do momento é o Jejum Intermitente, um padrão alimentar em que a ingestão de alimentos fica circunscrita a um período de tempo definido e relativamente curto no dia. Não se trata de uma dieta em sentido estrito pois nada nos diz sobre que alimentos ingerir, mas apenas quando os ingerir. Na verdade, o Jejum Intermitente "cabe" em qualquer dieta, e é comum dentro dos modelos Low-Carb e Paleo. Como qualquer tendência, várias celebridades aderiram e impulsionaram o Jejum Intermitente, embora muito se debata ainda entre a comunidade científica se de facto nos traz alguma vantagem comparativamente aos padrões alimentares convencionais. Será apenas mais uma moda?

27 de maio de 2016

O que é isto do Bulletproof Coffee ou café turbinado?


Um novo culto agita este Mundo peculiar em que vivemos, onde o inverosímil de repente se torna a nova tendência. Falo-vos do Bulletproof Coffee, ou café turbinado como também lhe chamam, e se ainda não ouviram falar disto é porque andam totalmente desconectados do Mundo Global. O que não é necessariamente mau... No fundo, trata-se de café com manteiga e MCTs (ou óleo de coco nas versões genéricas) que, segundo se alega, nos irá dar uma energia inesgotável durante o dia, capacidade mental de super-herói, e nos tornar uma máquina de queimar gordura. Mas para perceber este novo culto temos de ir às suas origens.

O Bulletproof Coffee começou pelo génio do "Bulletproof Executive", Dave Asprey, um investidor Norte-Americano muito viajado por esse Mundo. E uma dessas viagens terá sido ao Tibete, onde o chá de manteiga de Yak é tradicional. É servido aos viajantes que, como devem imaginar, procuram uma bebida que os aqueça e dê energia para enfrentar as condições extremas dos Himalaias. Além disso, Asprey era também um gordinho falhado que um dia viu a luz e desvendou os segredos escondidos da saúde e do sucesso. A cena do costume...

E quanto a alegações, Dave e seus discípulos têm muito a provar. Transforma o nosso corpo numa máquina de queimar gordura? Ajuda a manter o foco e dá energia duradoura? Tudo isto é possível, e com um suporte incontestável em "broscience". Para quem não conhece o termo, aqui fica a definição do Urban Dictionary:

"Broscience" é um termo com as suas origens no Culturismo, onde relatos anedóticos de indivíduos "grandes" são considerados mais credíveis do que a investigação científica.

E os tentáculos do Bulletproof Coffee vão mesmo ao Culturismo, onde até "Olimpianos" entraram no culto.

Mas há um pequeno problema com este Bulletproof Coffee. Não há investigação científica alguma a suportar as alegações feitas, e os poucos estudos citados pelos seus sacerdotes são trabalhos com modelos animais, ou totalmente fora do contexto. Aquilo que em "real science" se chama de viés de confirmação, ou seja, escolher estudos que suportam a nossa tese esquecendo o resto da evidência e se de facto esses estudos podem dar suporte à hipótese. Mas quando falamos de culto, a ciência é irrelevante e o ónus da prova inverte. Em vez de provar que funciona temos nós, os cépticos, de mostrar que não serve para nada. Um trabalho muito ingrato.

Na verdade, o Bulletproof Coffee está muito ligado ao jejum intermitente, um modelo alimentar também ele em voga actualmente, e com muitas celebridades como seus advogados. Incluindo o Dave com a sua "Bulletproof Diet". Todo o suporte que alguns precisam. Prometo-vos para breve um artigo sobre o jejum intermitente, já era tempo, e um café de 400 kcal parece-me uma boa forma de o quebrar. Embora possamos pensar de alguns benefícios de um jejum periódico, a verdade é que muitas peças faltam ainda neste puzzle para podermos pensar numa vantagem para nós. Na verdade, a minha experiência e noções de fisiologia deixam-me com um pé atrás quanto às vantagens a longo-prazo deste modelo alimentar em base diária na composição corporal, mas não totalmente contra em determinadas condições. Cenas de um próximo episódio.

Os MCTs, ou triglicéridos de cadeia média, não são recentes no mercado. No fundo o que difere estes ácidos gordos dos seus pares de cadeia longa, mais presentes na nossa deita, é a absorção e metabolização. Ou seja, tudo. Ao contrário dos ácidos gordos de cadeia longa, que são absorvidos e distribuídos através do sistema linfático, os de cadeia média são absorvidos directamente para a corrente sanguínea e primeiramente captados pelo fígado. A sua oxidação neste orgão não depende de mecanismos reguladores de transporte, como a Carnitina Palmitoil-Transferase, uma vez que se difundem livremente pela membrana da mitocondria. A sua oxidação gera uma grande quantidade de Acetil-CoA, em que parte é canalizado para a produção de corpos cetónicos. Estes podem ser usados como fonte de energia pelo músculo, e também pelo cérebro.

Dito isto, parte dos efeitos alegados ao Bulletproof Coffee podem ser explicados pelas propriedades dos MCTs, embora faltem estudos conclusivos a esse respeito. Estes ácidos gordos são uma parte incipiente da dieta Ocidental, onde a fonte mais comum é o óleo de coco. Também ele é uma introdução recente na nossa alimentação, embora faça parte da dieta convencional no Pacífico e América do Sul. Cerca de metade dos ácidos gordos presentes no óleo de coco são Ácido Láurico, "o mais longo dos médios" e que se pensa ter transporte misto (linfático e portal).

A gordura da manteiga e dos MCTs ou óleo de coco faria com que a cafeína fosse absorvida de uma forma gradual, mantendo o seu efeito estimulante durante mais tempo, sem oscilações, garantido todo o foco e energia que precisamos para ser "Bulletproof" como o Dave. Este é o tipo de argumentos que deve vir com uma referência no final, mas não vem.

Quando falamos em milagres e tendências, é importante também procurar se existem interesses comerciais por detrás. E claro que sim, para mais quando a mente por detrás é um investidor de sucesso. Dave Asprey criou toda uma linha Bulltetproof, com café milagroso, MCTs especiais, canecas, t-shirts... No fundo, criou mais um negócio pois é o que sabe fazer bem.

A receita deste milagre é simples. Café, manteiga, e MCTs que se podem comprar relativamente barato numa loja de suplementos alimentares. Ou como vos disse, substituir por óleo de coco. Uma espécie de genérico do Bulletproof Coffee. Ora, isto não é nada rentável. É como se agora a Bayer dissesse que a casca de salgueiro trata as dores de cabeça em vez de criar a Aspirina. E para vender um produto, temos de criar uma necessidade, algo que Asprey fez de uma forma genial. Primeiro com uma história de sucesso e motivação, a sua, e depois com uma série de falácias românticas fáceis de nos levar.

Vender super grãos de café não é fácil, mas Asprey consegue. Os seus grãos têm um efeito mais potente do que quaisquer outros. Uma espécie de café tunning. São também livres de pesticidas e micotoxinas, algo que nunca foi provado. Mas não precisa. Também criou o seu "Brain Octane" e o "XCT oil" que não é mais do que uma mistura cara de MCTs, que conseguimos encontrar em lojas de suplementos a metade do preço. Podem fazer um Bulletproof Coffee com café regular e óleo de coco? Sim, mas não é a mesma coisa.

Encontramos várias receitas para o melhor café turbinado, como por exemplo:

  • 2 colheres de sopa de manteiga de pasto sem sal
  • 2 colheres de sopa de óleo de coco (que é 1,6 vezes menos potente do que o XTC, seja lá como isto foi medido)
  • 500 ml de café filtrado acabado de fazer

O procedimento é simples. Aquecer um blender com água quente, descartar a água, colocar o café e o resto dos ingredientes. Misturar até ficar com uma espuma cremosa. Podem servir com canela e cacau a gosto, stevia ou qualquer coisa para ficar mais fancy. Se fizermos assim uma análise nutricional muito grosseira, temos cerca de 50 g de gordura, o que são 450 kcal. Nada tenho contra a gordura e fico muito contente pela mudança de paradigma a que assistimos hoje. Nem todas as gorduras são iguais, e devem fazer parte de uma dieta saudável. O óleo de coco até tem propriedades interessantes. Mas se pensarmos bem, este "não pequeno-almoço" em jejum é mais calórico do que o pequeno-almoço de muita gente. Nada contra, estou apenas a constatar um facto.

A verdade é que o Bulletproof Coffee nunca foi testado, provavelmente porque nenhum cientista decidiu ainda perder tempo com isto. Mas se a moda continuar, é provável que apareça por aí um estudo ou outro, e cá estaremos para o analisar. Talvez tenha de recuar na minha opinião, que para já é a única coisa que vos posso dar.



Para concluir, se gostam de manteiga e óleo de coco no café, tudo bem. Eu pessoalmente não sou fã, mas se gostasse colocava sem problema algum. E acredito em quem diz que sente os efeitos no corpo, o nosso laboratório privado. Mas não existe nenhum suporte científico por detrás deste culto, e sim muito interesse comercial e a perpetuação da moda volátil que se espalha neste Mundo Global como um vírus. É uma Era peculiar esta em que vivemos hoje, e nunca antes o espirito critico foi tão necessário. E talvez nunca antes tivemos tão pouco. 

22 de maio de 2016

O problema dos jornalistas e da comunicação em saúde


Os jornalistas têm um papel importante, se não fulcral, na ponte entre a ciência e o público. Papel este que nem sempre é desempenhado da melhor forma, ou pelos melhores motivos, mas ingrato pela dificuldade que eles próprios têm em filtrar essa informação que supostamente provém de especialistas, em tempo record. Este foi um dos temas em discussão no último Congresso de Nutrição e Alimentação, com toda a pertinência e actualidade. Na sociedade da informação reina a desinformação em prol de interesses, e tanto os jornalistas como o público são permeáveis a ela. Estive uma hora em conversa descontraída com a jornalista Vera Novais sobre esta questão.

Pelo XV Congresso de Nutrição e Alimentação...


No passado dia 20 de Maio tive a oportunidade de ser um dos prelectores no XV Congresso de Nutrição e Alimentação, o maior a nível Nacional dedicado a esta temática. Foi uma honra e um privilégio ser orador para centenas (ou milhares?) de nutricionistas que dedicaram a sua tarde de 6ª feira a um debate sobre "Novas Dietas", com a "Dieta Paleo e Low-Carb" à minha responsabilidade, e o Jejum Intermitente com o Dr. Nuno Borges. Um fardo pesado e ingrato, mas que tentei carregar com o maior rigor e isenção possível num tema tão polémico.

Percebi cedo em conversa com a jornalista Vera Novais do Observador que muitos estariam à espera que eu saísse em defesa deste modelo alimentar Paleo. Mas quem conhece a fundo o meu trabalho e priva comigo sabe bem o quanto sou crítico e céptico em relação às "dietas com nome". E assim comecei a minha palestra: "Não gosto de dietas com nome". E não gosto mesmo! Paleo, low-carb, da Lua ou dos signos. Seja qual for o seu batismo, carrega-a de ideologia que entra em conflito com a análise científica com que deve ser escrutinada. E mais do que isso, com a personalização que se deseja em qualquer regime alimentar.

Em breve resumo, passámos por um enquadramento histórico da dieta Paleo Moderna e os pilares em que assenta. Vimos que não existe uma dieta Paleolítica, mas sim várias consoante a região do globo, sazonalidade, e disponibilidade de alimentos. Existem vários modelos, e a melhor forma que temos de os inferir é olhar para populações actuais que mantêm hábitos mais próximos dos ancestrais - as populações "não-Ocidentalizadas". E aí encontramos uma variedade enorme de alimentos, mas uma coisa não encontramos em nenhuma - alimentos processados e "artificializados". Além disso, não encontramos um estilo de vida corrosivo como o Ocidental, marcado por stress crónico, má higiene de sono, excesso de higiene por outro lado, exposição a xenobióticos, sedentarismo, enfim... Uma panóplia de factores que sobrecarregam o nosso sistema - carga alostática. Olhar para a dieta apenas é demasiado redutor para esta teia de inter-relações que afeta insustentavelmente a nossa saúde. 

Uma ideia que tentei manter sólida em toda a apresentação é que uma matriz alimentar Paleo pode ser saudável de acordo com a evidência que dispomos, mas não necessariamente o único caminho a seguir. Além disso, Paleo não é necessariamente low-carb, e esta é uma linha divisória muito importante de traçar. A necessidade de hidratos de carbono não é igual para todos. Em alguns casos pode ser interessante restringi-los, noutros não. Tal como fechei a intervenção:

"O que precisamos é de menos livros de dietas e mais personalização. E acima de tudo, muito bom senso"

Devo também dizer que é com muito bons olhos que vejo temas tão polémicos como o glúten, lacticínios e jejum intermitente a serem discutidos entre profissionais. Opiniões diferentes só são problema quando existe ego envolvido. De resto são a força motriz que faz avançar o conhecimento. Também houve espaço para uma excelente matéria sobre a exposição a disruptores endócrinos [LINK]. Um problema sério de saúde pública para o qual há cada vez mais consciência [LINK]. Tive também o prazer de almoçar e conversar com Kevin Tipton, um dos investigadores mais proeminentes na área da Nutrição Desportiva e que deixou um conselho a todos: "Be skeptical but open minded". Uma mensagem importante a reter...

Espero que o meu contributo tenha sido uma mais valia, e para o ano lá estaremos, seja no palco ou na plateia. Resta apenas agradecer à Associação Portuguesa de Nutricionistas pelo convite.


14 de maio de 2016

A experiência do Peso Pesado e uma nova perspectiva da obesidade


Entre a comunidade científica ligada ao controlo de peso e obesidade, o nome Kevin Hall, PhD, anda na baila. Depois do seu estudo em internato, raro nos dias que correm e que ainda irá dar que falar, contrariando a hipótese insulínica da obesidade e a "vantagem metabólica" das dietas cetogénicas, a sua equipa publicou também recentemente os resultados do acompanhamento aos participantes do concurso televisivo Peso Pesado ("Biggest Loser") [LINK]. Apesar de toda a controvérsia relativamente ao programa, é uma população de estudo bem interessante no que toca às adaptações metabólicas que decorrem da perda de peso extrema e rápida, e também de factores externos que condicionam a manutenção do peso perdido.

2 de maio de 2016

Um tiro pela culatra na hipótese insulínica de Gary Taubes (video)



Um verdadeiro tiro pela culatra. Um estudo de Kevin Hall para provar a hipótese insulínica para a obesidade, financiado pela NuSi de Gary Taubes e companhia prova (ou sugere) precisamente o contrário. Em internato ("Metabolic Ward"), com controlo apertado das variáveis de estudo e secundárias, a mudança para uma dieta cetogénica atenuou (desacelerou) a perda de massa gorda (avaliada por DEXA), e a maior magnitude de peso total perdido em dieta cetogénica deveu-se sobretudo a água, e provavelmente de músculo pelo aumento significativo da perda de azoto na urina, resultado provavelmente de um maior catabolismo muscular, e também certamente da oxidação dos aminoácidos ingeridos.

Aguarda-se mais informação sobre o estudo, apenas apresentado em poster ainda, mas por agora nada abonatório à teoria fabulástica e best-seller de Taubes, que, a meu ver, de ciência tem muito pouco até pela postura que tem assumido. Estou ansioso pela reação de alguém que já confessou não mudar de posição por todo investimento que já fez na sua hipótese, independentemente da evidência. Não será certamente o prego no caixão, até porque muitos egos estão agora em jogo...


7 de abril de 2016

"Nutrição e Gestão do Peso" - 4 de Junho, Ourém

No próximo dia 4 de Junho estarei em Ourém para um pequeno curso/workshop sobre Nutrição e Gestão de Peso. Para os potenciais interessados, deixo-vos aqui o cartaz :)