28 de junho de 2016

O que o açúcar tem de semelhante à cocaína?


Há alguns dias atrás escrevi um artigo que descrevia o açúcar como uma espécie de droga aditiva cuja resposta cerebral se assemelhava à cocaína [LINK]. Como podem ver na imagem acima, as áreas cerebrais activadas com o açúcar e com a cocaína em modelos experimentais são semelhantes, com acção no núcleo accumbens, região responsável pelo prazer e gratificação. Não é por acaso que a naltrexona parece ter um efeito inibitório dos cravings por doces, um fármaco utilizado na reabilitação de toxicodependentes. Os efeitos dopaminérgicos e colinérgicos são em tudo aparentados a drogas recreativas, muito provavelmente por um mecanismo conservado para que alguns alimentos altamente energéticos, raros na nossa história evolutiva, tenham um efeito aditivo que nos levaria a comer demais, e reservar essa energia para períodos de escassez.

É obvio que não estamos aqui a comparar o açúcar à cocaína, mesmo quando o seu efeito na neuroquímica e actividade cerebral é semelhante. Trata-se da estimulação de um mecanismo fisiológico conservado na nossa espécie para obter prazer de certos alimentos raros, mas de grande densidade energética. O problema é que eles deixaram de ser raros, e em muitos casos o açúcar é hoje também uma dependência. O vício em comida é uma realidade e deve ser tratado como tal.

25 de junho de 2016

Cereais integrais, risco cardiovascular e mortalidade


Muito se tem falado de um estudo recentemente publicado no British Medical Journal que mostra uma redução da mortalidade com o consumo frequente de cereais integrais [LINK]. Trata-se na verdade de uma meta-análise que integra resultados de vários estudos efectuados sobre a associação do consumo de cereais com a incidência e risco de mortalidade por várias causas, como doença cardiovascular, cancro, e diabetes. Os resultados são favoráveis aos cereais integrais que parecem associados a uma redução de 22% no risco relativo de doença cardiovascular, e 17% de mortalidade por qualquer causa. Dados animadores, mas convém perguntar:

1. Redução de risco, comparativamente com o quê?

Tendo em conta que os estudos prospectivos são maioritariamente com populações (coortes) ocidentais modernizadas, cujos hábitos alimentares são a desgraça que sabemos, estamos na verdade a comparar o consumo de cereais integrais com farinhas refinadas e açúcar, não com outras fontes de hidratos de carbono como os tubérculos e frutas. E se os cereais refinados e açucares estão associados a maior risco de tudo e mais alguma coisa, é natural que o consumo de cereais integrais se associe a menor risco.

2. Será apenas o consumo de cereais integrais?

Num estudo epidemiológico não é possível isolar totalmente as variáveis em estudo, pelo que outros comportamentos associados ao consumo de cereais integrais podem contribuir para a redução de risco. E todos sabemos que quem procura este tipo de soluções é normalmente mais consciente no que respeita à alimentação e saúde, pratica mais exercício físico, não fuma, tem maior grau de escolaridade e estatuto social... Enfim, uma série de comportamentos também eles associados a menor incidência de doenças cardiometabólicas, cancro, e mortalidade em geral.

3. A associação implica causalidade?

Uma associação encontrada entre duas variáveis num estudo epidemiológico não implica que ambas tenham uma relação causal. Como vimos, mesmo não se tratando de um mero artefacto da análise, a multiplicidade de factores associados ao consumo de cereais integrais dificulta a inferência de uma implicação directa. Segundo os critérios de Bradford-Hill, apenas associações muito robustas podem ser tidas como causais, o que não é o caso.

4. O que é o risco relativo?

Quando dizemos que o consumo de cereais integrais está associado a uma redução de 22% do risco cardiovascular parece um grande feito, e é à escala da epidemiologia. Mas isto não significa que quem consume as 90 g por dia de cereais integrais vai reduzir o seu risco em 22%, nem que se salvam 22 pessoas em cada 100. Nada disso. É uma redução sobre o risco de quem não consome. Ora vejamos, fazendo o cálculo do risco absoluto pelas directrizes da DGS:

Um homem de 55 anos, não-fumador, com uma tensão arterial sistólica de 120 mmHg, e com um colesterol total entre 200 e 250 mg/dL, tem um risco absoluto de desenvolver uma doença do foro cardiovascular nos próximos 10 anos de 1 %. Vamos considerar este o risco de quem não ingere cereais integrais. Se com este perfil comer 90 g por dia, verá esse risco baixar em 22%, passando a 0,78 %. Reduziu 0,22 %.

Por outro lado, um homem também de 55 anos, mas fumador, com uma tensão arterial sistólica de 160 mmHg, e com um colesterol total entre 200 e 250 mg/dL, tem um risco absoluto de desenvolver uma doença do foro cardiovascular nos próximos 10 anos de 6 %. Se comer 90 g por dia de cereais integrais verá esse risco baixar em 22%, passando a 4,68 %. Reduziu 1,32 %.

Pondo os números em perspectiva, o risco relativo pode magnificar o real impacto para um indivíduo.  Para um homem abaixo dos 40 anos, que não fume e faça exercício, o consumo de cereais integrais tem um impacto insignificante num risco que já de si é muito baixo, bem inferior a 1 %.

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Concluindo, este novo estudo publicado pouco ou nada vem acrescentar ao que já se sabe. De facto o consumo de cereais integrais está associado a um menor risco de doença e mortalidade, mas isso não implica que sejam eles por si os responsáveis por essa redução. É possível e provável que outros factores com um peso bem maior estejam envolvidos, e que simplesmente as pessoas que os ingerem comam menos porcaria em geral. Numa perspectiva de nutrição comunitária poderá suportar a recomendação de substituir cereais refinados por integrais, mas em clínica, momento em que só o paciente conta, esta meta-análise não mudará certamente nada.

Os estudos epidemiológicos são valiosos em nutrição pelos constrangimentos inerentes à criação de ensaios clínicos com a dimensão e duração necessárias. Mas mesmo assim não nos podemos resumir ao reducionismo da associação de variáveis, sem perguntar primeiro a plausibilidade biológica, direccionalidade e consistência da relação. E aqui muitas dúvidas ficam ainda no ar. Os cereais integrais são melhores, comparativamente a quê?

21 de junho de 2016

A novela dos cereais de pequeno-almoço


A indústria alimentar evoluiu drasticamente nas últimas décadas e se existe um produto que define essa evolução são os cereais de pequeno-almoço, um dos primeiros alimentos processados introduzidos no mercado de conveniência. A sua história, que mais parece uma novela digna de Hollywood, com enredo de traições e conspiração, ilustra na perfeição o equilíbrio de forças que orientou o caminho da indústria alimentar ao longo do tempo. O lucro e a consciência.

Tudo começou nas últimas décadas de 1800, numa época em o pequeno-almoço das famílias Americanas era bem distinto do actual, com ovos, bacon, salsichas e outras indulgências que para muitos estava bem longe de ser saudável. Entre os que partilhavam esta opinião estava um jovem médico, John Harvey Kellogg, que associava a alimentação dessa época com o aumento drástico da prevalência de distúrbios gástricos. Kellogg defendia que a alimentação era o alicerce de uma saúde robusta, e pioneiro na associação entre os nossos hábitos e a doença. Abre um sanatório em Battle Creek, uma espécie de SPA a que chamou "The Battle Creek Sanitarium March". Aqui promovia uma alimentação diferenciada em que os cereais foram introduzidos, e o sal e açúcar totalmente abolidos. Em 1894, John Kellogg conheceu um empresário em Denver que tinha inventado um cereal crocante à base de trigo, inspiração para uma versão de pequeno-almoço no seu sanatório. Flocos de cereais de trigo tostados, sem adição de açúcar, aos quais chamou de "granola".

John era médico e dedicava-se à saúde dos seus pacientes, com pouco tempo para gerir um negócio de cereais em crescendo, expandido para além do seu pequeno SPA. O seu irmão Will ficou à frente do negócio e da produção da granola, fiel aos princípios que John Kellogg defendia - o mais natural possível, e sem açúcar. Por sugestão de Will foi criada uma versão à base de milho com grande sucesso, registada mais tarde como "Sanitas Tosted Corn Flakes". O "avô" dos Corn Flakes.

Um dos clientes do sanatório Kellogg's foi C. Post, que experimentou a tal granola e ficou fascinado com o conceito e sabor. Post era um homem de negócios e sabia que o açúcar ia melhorar o produto. Iniciou a sua própria produção, criando uma empresa com o seu nome, Post, e que viria a ser o principal rival de Kellogg nos anos seguintes. Will viu a concorrência a ganhar terreno e não cruzou os braços. Durante uma ida do irmão à Europa no âmbito de um congresso científico, Will Kellogg comprou quilos de açúcar e adicionou aos seus cereais. Os clientes do sanatório gostaram, e muito.

Quem não gostou foi o John quando regressou e viu o seu conceito pervertido pelo próprio irmão. Separaram-se, e Will Kellogg abre a sua empresa de processamento de cereais, a nossa conhecida Kellogg's. Pelo menos duas disputas em tribunal tiverem lugar, com Will a sair sempre por cima no litígio. Daí foi uma caminhada galopante até à posição que ocupa hoje como um dos maiores produtores de cereais processados do Mundo, dominando uma fatia significativa do mercado. Nos anos 70 a Kellogg's representava 45% do total de vendas dos EUA, perdendo cota à medida que outras marcas mais baratas e as linhas brancas dos retalhistas iam surgindo.

Produzir cereais de pequeno-almoço é barato e as margens são grandes, em particular para gigantes como a Kellogg's, Nestle, ou a General Mills. O verdadeiro custo está no marketing necessário para convencer o consumidor a preferir o seu produto ao da concorrência. O branding e a luta pelo espaço de prateleira nos supermercados é a verdadeira batalha, para destacar um produto doutras dezenas, que no fundo em muito pouco diferem. O marketing passou a ditar as regras dentro da indústria, adaptando as fórmulas ao conceito, e não a publicidade ao produto. Primeiro seleciona-se o alvo, depois a estratégia. O produto é apenas um meio para o fim. E como alvo dos cereais de pequeno-almoço, nenhum é mais apetecível do que as crianças, e já aqui vimos porquê [LINK].

E assim começa a história dos cereais de pequeno-almoço, envolta em intriga e espelho deste braço de ferro entre o saudável e o saboroso. A indústria alimentar está hoje sobre a pressão de consumidores cada vez mais conscientes, mas que ao mesmo tempo não abdicam de alimentos altamente prazerosos e convenientes. Uma postura quase esquizofrénica, mas que na verdade levou à redução significativa do teor de açúcar a partir de 1985. O problema era de tal maneira grande que Jean Mayer, reconhecido especialista em Nutrição de Harvard, recomendou que os cereais de pequeno-almoço fossem vendidos em confeitarias e nas zonas destinadas aos doces nos supermercados. Eram produtos que apresentavam mais de 50% de teor de açúcar. Para além de Meyer, também os dentistas se revoltaram pelas cáries dentárias que cada vez mais encontravam nas crianças, chegando mesmo a enviar dentes podres a quem podia fazer a diferença - os políticos. 

Hoje o teor de açúcar na maioria dos cereais de pequeno-almoço destinados a crianças situa-se na faixa dos 25 a 35%, menor mas ainda assim demais. Fruto não de um esforço político mas sim de uma maior consciência da opinião pública. Porque no fundo a indústria alimentar responde ao que o mercado pede, mais do que a qualquer tentativa de constranger as suas formulações minuciosamente estudadas para a experiência mais gratificante possível de quem compra, para que compre outra vez. Se educarmos os consumidores, a indústria responde. Educar a indústria não funciona quando é o dinheiro que dita as regras. E esta é também a razão da existência do Fat New World. Consumidores mais conscientes conseguem mudar o mercado.

20 de junho de 2016

Açúcar: uma espécie de "droga" de pequeno-almoço das nossas crianças?


É consensual que o combate à obesidade deve-se focar na prevenção, incutindo desde cedo hábitos alimentares saudáveis nos mais novos. Algo pouco compatível com a oferta que encontramos nos supermercados, em particular nos cereais de pequeno-almoço que inocentemente damos às nossas crianças, ignorando o absurdo de açúcar que contêm. Aliado à textura crocante e a um teor minuciosamente afinado de sal, estes cereais são um fogo de artificio viciante para os centros cerebrais de recompensa e prazer que respondem como se de uma droga se tratasse. Na verdade, as zonas do cérebro activadas com o consumo de açúcar são as mesmas do que com a cocaína, não querendo fazer comparações desmedidas. O prazer é grande, e isso tem uma razão de ser.

A percepção sensorial ao doce nasce com o bebé, ao contrário de outros sabores que só mais tarde são adquiridos, como o salgado por exemplo. Do ponto de vista evolutivo deverá estar relacionado com a percepção de alimentos altamente calóricos que permitam um crescimento rápido em períodos de escassez. Se pensarmos bem, a grande apetência e preferência que temos pelo doce é vantajosa como um mecanismo de sobrevivência, bem como a vontade de comer mais do que necessitamos. Os alimentos doces seriam escassos durante a nossa evolução, e um sinal de abundância. Hoje estão à distância de uma ida ao supermercado. Uma fome diferente da homeostática, marcada pela necessidade de energia, e que denominamos de fome hedónica - procura de prazer e satisfação com os alimentos.

Sabe-se que o limiar de doce para a maior gratificação de um alimento é superior nas crianças comparativamente aos adultos. Um conceito conhecido na indústria alimentar como "bliss point", e explorado por especialistas em engenharia alimentar e modelação matemática para tornar o produto o mais viciante possível. Uma orquestração precisa de açúcar, sal, gordura e textura.


As crianças são então um alvo apetitoso para a indústria alimentar, e não pretendo aqui fazer qualquer juízo de valor embora considere em alguns casos a publicidade demasiado agressiva. A utilização de personagens fictícias como imagem de marca, cores e formas vibrantes dos próprios cereais. Escolha precisa dos intervalos da programação destinada a este segmento e pequenos pormenores como o aumento do volume de som durante os anúncios, algo recentemente proibido pela entidade reguladora. E claro, uma afinação milimétrica do "bliss point" para máximo prazer da experiência. Tudo isto devemos a três homens pioneiros, lendas da indústria alimentar. O matemático Howard Moskowitz, o químico Al Clausi, e Charles Mortimer, ex-director da marketing da General Foods.

O problema já foi de tal maneira grande que Jean Mayer, reconhecido especialista em Nutrição de Harvard, recomendou que os cereais de pequeno-almoço fossem vendidos em confeitarias e nas zonas destinadas aos doces nos supermercados. Eram produtos que apresentavam mais de 50% de teor de açúcar, quantidade que foi sendo reduzida à medida que os consumidores iam ficando mais alerta para os problemas associados ao açúcar, e com a revolta dos dentistas devido às cáries dentárias que cada vez mais encontravam nas crianças. Hoje o teor de açúcar na maioria dos cereais de pequeno-almoço situa-se na faixa dos 25 a 35%, ainda assim demais.

Mas o que é importante perceber aqui, é que para além da maior apetência inata das crianças ao doce, este "bliss point" pode ser condicionado pelas experiências alimentares no início da nossa vida. Quando lhes damos um alimento com 30% de açúcar em base diária, e pedem mais, estamos na verdade a ensinar-lhes como um alimento deve saber num período em que estes produtos estão à distância de uma prateleira - estupidamente doce. E assim condicionar as suas escolhas no futuro. Pense nisso.


15 de junho de 2016

O mito do pequeno-almoço: a refeição mais importante do dia?


A sabedoria popular diz-nos que o pequeno-almoço é a refeição mais importante do dia, algo que poucos ousam questionar ou procurar a raiz desse mito. E na verdade, muitos profissionais reforçam a sua importância com base em evidência científica questionável, ou em evidência nenhuma. "Se não tomarmos o pequeno-almoço podemos engordar". "Se o tomarmos é mais fácil perder peso". "Precisamos de “activar” o nosso metabolismo pela manhã, e se saltarmos o pequeno-almoço o nosso metabolismo vai sofrer". Será que é mesmo verdade? O que vos proponho é uma breve viagem pela história e ciência do pequeno-almoço na tentativa de encontrar a resposta.

E se os rótulos mostrassem o total calórico da embalagem?

Ainda comias aquela Nutella à colherada? :P





14 de junho de 2016

5 Hallmarks of pseudoscience


Additional resources: http://www.skepticalscience.com/Debunking-Handbook-now-freely-available-download.html

13 de junho de 2016

Os 3 comportamentos para uma dieta de sucesso


Perder peso é mais difícil do que parece e os estudos de intervenção de longa duração atestam isso mesmo. É um sucesso se 25% dos participantes mantiverem uma perda de peso na ordem dos 10% ao final de 2 anos, e os que conseguem têm maior probabilidade de a manter ao final de 5 anos. Vários aspectos têm sido apontados para esta frustrante taxa de sucesso, que não parece depender do tipo de dieta. Seja low-carb, low-fat, da Lua ou do ananás, o número de indivíduos que consegue perder peso de forma sustentada é muito reduzido.

Vários aspectos têm sido apontados para esta enorme taxa de insucesso, sendo a adesão o principal factor em jogo. Na verdade, um estudo de intervenção para perda de peso em ambulatório não serve para muito mais do que aferir o grau de adesão ao protocolo. Os que aderem à restrição perdem mais do que os outros. Mas alguns regimes podem ser mais adequados para garantir essa adesão, como a redução da carga glicémica da dieta em indivíduos insulino-resistentes [LINK]. Cada caso é um caso.

Outros aspectos para além da adesão estão também em jogo, embora com um impacto menor na generalidade. Existe um resposta homeostática do corpo para recuperar o peso perdido, que passa muito resumidamente por alterações hormonais como a diminuição da leptina, aumento do cortisol, e redução da T3, aumento da grelina, mais fome, e maior eficiência metabólica. De acordo com a hipótese do set-point, independentemente da estratégia utilizada para perder peso, o corpo reage no sentido inverso de forma a devolver o equilíbrio. Um peso ou massa gorda definido no hipotálamo como o ideal para um determinado contexto interactivo entre a genética e o ambiente.



Mais sobre o set-point aqui [LINK]

Esta explicação para o fracasso das dietas parece demasiado fatalista, e na verdade é. As causas da obesidade ou a sua reversão não passam apenas por força de vontade, pois vontade de ser gordo é coisa que poucos terão. Trata-se de uma doença crónica em que o metabolismo está desajustado ao contexto ecológico e social, e a fome é um dos mecanismos fisiológicos mais primitivos e importantes para a sobrevivência. A força de vontade para lhe resistir e controlar os impulsos muitas vezes não é suficiente. É preciso uma motivação.

Motivação parece ser um ponto central no sucesso da perda de peso. Um trigger para a força de vontade, e cada um terá o seu. A doença é um dos mais poderosos, embora obviamente tardio. Seria melhor antes de chegar a esse ponto, mas ter a vida em risco é o melhor catalisador para a mudança. Mas podem ser coisas mais pequenas como um susto ao olhar para o espelho ou aquelas calças que deixam de servir. Uma compensação financeira como algumas seguradoras nos EUA começam agora a fazer. Nos homens o nascimento de um filho parece ser também um factor determinante para a mudança de hábitos. Acompanhar o crescimento do filho em plena vitalidade e pelo tempo mais longo possível.

Na investigação sobre obesidade os estudos retrospectivos e observacionais têm um grande valor, e o Dr. James Hill percebeu essa importância quando iniciou o projecto do National Weight Control Registry nos EUA [LINK]. Em Portugal existe também uma iniciativa semelhante. Ao contrário dos estudos de intervenção, Hill não estava interessado no processo de perda de peso em si e em qual a melhor dieta, mas sim nos aspectos em comum das pessoas que foram bem sucedidas a manter o peso perdido. E acontece que eu sou um deles [LINK], pelo que estudos como este são de particular interesse para mim. E na verdade identifico-me em muitas das suas descobertas.

O tipo de dieta não parece determinante para uma perda de peso bem sucedida, e em particular para a manutenção desse peso perdido. Já vimos que a adesão é o factor mais importante. O que a equipa de James Hill verificou foi um conjunto de comportamentos comuns a estes indivíduos que nos podem ajudar a compreender como se destacam da grande maioria que fracassa pelo caminho [LINK].

1. Monitorização


Indivíduos que sucedem em manter o peso perdido tendem a ser metódicos na monitorização do peso e composição corporal. Por outras palavras, por si ou com acompanhamento estão sob controlo apertado e conscientes de pequenas oscilações de peso e massa gorda. É provável que assim consigam alterar comportamentos no sentido de perder peso e gordura rapidamente quando um ligeiro aumento se verifica. As coisas nunca fogem do seu controlo. 

2. Consistência



Um segundo aspecto em comum é a consistência da dieta, que tende a variar pouco ao longo do tempo, ao fim-de-semana e mesmo em épocas festivas. Mas mais do que isso, a própria gama de alimentos parece não variar substancialmente. Talvez uma das ideias mais controversas que passei aqui no Fat New World foi que uma dieta relativamente monótona teria vantagem quando se pretende melhorar a composição corporal e emagrecer. O Ser Humano gosta de variedade e diferentes estímulos sensoriais de sabor, mas isso poderá levar a comer demais como sinal de abundância que é. Há sempre espaço para aquela sobremesa mesmo quando estamos cheios até às orelhas. Um estimulo repetido torna-se cada vez menos gratificante, e optar por uma gama limitada de alimentos, uma monotonia relativa no dia-a-dia, pode facilitar a adesão à dieta e evitar descalabros. Porque no fundo, somos magros com um cérebro de gordo, e ele vai fazer de tudo para nos desviar do caminho. Para este tipo de pessoas, como eu, a mensagem "coma de tudo um pouco" pode ser perigosa, embora politicamente correcta [LINK]. 

No que respeita ao comportamento alimentar, existem dois tipos de pessoas. Os intuitivos, que confiam nos sinais fisiológicos de fome e saciedade, e os controlados em que esses sinais são condicionados a nível superior, pela nossa consciência do que é certo e errado. Os ex-obesos tendem a enquadrar-se nestes últimos, não podendo confiar nos seus mecanismos homeostáticos de controlo da ingestão alimentar. Eles têm outros planos para nós. Devolver-nos o tal set-point que o cérebro considera ser o peso ideal para aquele contexto. Um buffet com comida à descrição é um perigo para este tipo de pessoas. O controlo de porções e de alimentos ingeridos terá de ser uma decisão consciente - mindfullness. E os pequenos pecados também, sem culpa. A vida é uma jornada com um início e um fim. Segundo Nietzsche, a busca da saúde plena deveria ser o seu desígnio. Não só física mas também mental e espiritual. Para a maioria de nós isso não passa por uma vida de monge Budista.

3. Exercício


Por fim, a prática de exercício físico parece ser também um comportamento comum nos indivíduos que conseguem manter o peso perdido. Não falo de caminhadas 3 ou 4 vezes por semana a ver as montras, mas sim de exercício estruturado e relativamente intenso. Embora a actividade física por si possa não ser determinante na perda de peso, parece se-lo na sua manutenção. E além disso, a "qualidade" do peso perdido pode também ser condicionada pelo exercício físico. Em qualquer intervenção para perda de peso há interesse em conservar o máximo de massa muscular possível, e aqui o treino de resistências e o teor proteico da dieta são os factores mais importantes [LINK].

Em 2009 foi publicado um artigo na Time que chocou a comunidade e abalou a forma como o exercício era visto na perda de peso [LINK]. O artigo falava do "efeito compensatório", em que o exercício intenso levaria a comer mais e a reduzir a actividade física de lazer e nas tarefas quotidianas. Segundo as palavras do autor, John Cloud, "o exercício não nos está a ajudar a perder peso. Pode até tornar mais difícil". Apesar do apoio de vários investigadores entrevistados, é difícil caracterizar o grau de parvoíce de tal afirmação, para mais quando exercício intenso em obesos foi definido como 4 horas semanais a 50% do VO2 max.

Não obstante a falta de bom senso, não é incomum encontrarmos profissionais, sejam médicos ou nutricionistas, que desaconselham a prática de actividade física concomitante com uma dieta altamente restritiva. Talvez com receio que caiam para o lado com tal severidade do regime ou que se torne difícil demais aderir àquela fustigação. Ou então que o ganho ou preservação de massa muscular possa abrandar a descida do ponteiro da balança, o que é uma estupidez de todo o tamanho.

Rebecca Foright da Universidade do Colorado fez a sua tese sobre essa questão [LINK], sugerindo que um elevado fluxo energético, marcado por actividade física estruturada moderada/intensa e um aporte energético balanceado com esse dispêndio acrescido, pode atenuar a pressão biológica para recuperar o peso perdido. A tal resposta homeostática que falámos. O conceito de elevado fluxo energético não é novo e pode ajudar a perceber porque o exercício não deixa de ser importante para perder peso, mas é fundamental para o manter. 

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Perder peso é mais do que uma equação termodinâmica pois mexe com mecanismos primitivos de sobrevivência e adaptação. É uma batalha constante contra a nossa própria biologia, que mesmo quando é vencida está sempre à espreita de uma oportunidade. Independentemente da estratégia escolhida e mais adequada, o sucesso perene que se deseja passa sempre por mudanças comportamentais e de uma abordagem consciente do simples acto de comer. A monitorização constante, consistência no regime e exercício estruturado parecem ser comuns àqueles que o conseguiram, e são comportamentos nos quais me revejo. Talvez o possam ajudar também a si.

10 de junho de 2016

Filet Oh! Fish - um documentário sobre a produção intensiva de peixe em aquacultura