10 de dezembro de 2010

A BIGorexia e o culturismo



por Sérgio Veloso

Muitos já ouviram certamente falar da bigorexia, também conhecida como dismorfia muscular ou Complexo de Adonis, mas… o que é realmente? (A tradução mais comum para o português é vigorexia, mas deriva do inglês BIGorexia) Nada mais do que um conceito artificial usado em psicologia para definir um cluster de sintomas comportamentais e emocionais em que o treino e a imagem se tornam uma obsessão de contornos patológicos. A primeira descrição remonta a 1993 por Poper num grupo de culturistas que exibiam semelhanças comportamentais e cognitivas com a anorexia nervosa, se bem que de uma forma “inversa”. Na altura, foram propostos os seguintes critérios de diagnóstico:

- Uma preocupação desmedida com a ideia de que o seu corpo não é suficientemente musculado e definido;

- Geralmente recusam actividades sociais ou recreativas devido a uma necessidade compulsiva em treinar e em manter um regime alimentar rígido;

- Evitam situações em que são obrigados a expor o seu corpo, ou toleram-nas com grande angústia;

- Continuam a treinar mesmo que lesionados e tomam substâncias ergogénicas, particularmente anabolizantes, mesmo conscientes dos seus efeitos nefastos.

Mas será assim tão simples o diagnóstico? Onde se enquadra esta “desordem”? Actualmente está incluída no grupo das dismorfias corporais, ou “somatoform disorders” (não me atrevo sequer a traduzir para português), uma imagem distorcida e negativa de uma qualquer parte do corpo. No entanto, alguns autores sugerem que esteja mais próxima dos distúrbios alimentares. Alguns chamam-lhe anorexia reversa e a razão é óbvia. Enquanto que na anorexia nervosa o medo é da imagem de estar gordo, na bigorexia trata-se de uma distorção da imagem do corpo para magreza ou musculatura inadequada, mesmo quando na maior parte dos casos é bem superior à média. Ora, como em quase tudo na vida, a verdade deve estar algures no meio. No entanto, se fosse mesmo obrigado a escolher um dos agrupamentos, optaria pelos distúrbios alimentares. Ao contrário das outras doenças dismórficas, a dismorfia muscular assenta em comportamentos obsessivos e compulsivos que se centram no treino e dieta, comparáveis à anorexia. Mas não sou psicólogo nem tenho a arrogância intelectual para me intrometer nesse campo. Apenas pretendo aludir a um problema com maior prevalência na comunidade culturista do que se pensa.

E começo com uma crítica. Serão os culturistas a população ideal para estudar esta doença psicológica? De todo... e aqui reside uma falha comum a alguns dos poucos estudos existentes sobre a matéria, provavelmente pelo desconhecimento profundo desta modalidade por quem os leva a cabo. Então mas se um dos critérios é uma ansiedade exacerbada em situações que obrigam a expor o corpo, acham mesmo que os culturistas, que por consequência da actividade se exibem em palco, de tanga, iriam ter uma prevalência significantiva de bigorexia? É para os praticantes anónimos e “culturistas” recreativos que temos de olhar. O culturismo, como desporto em sentido abrangente, é de extremos. Felizmente, na maioria dos casos aumenta a auto-estima e confiança de quem o pratica. Noutros, menos frequentes, é um veículo para uma pretensa posição social que vai de encontro ao que se julga expectável.

Não é falso que os distúrbios alimentares e obsessões com a imagem são mais comuns em mulheres do que em homens. Bom, na verdade já não é tanto assim se considerar-mos apenas uma insatisfação com o corpo sem contornos patológicos. No caso dos distúrbios alimentares de relevância clínica sim... são mais prevalentes nas mulheres. No entanto, são muito mais graves nos homens. E porquê? Devido ao estigma social de que são doenças de mulheres. Um homem nunca assume e só se torna evidente em estados avançados com necessidade de intervenção médica urgente. Para além disso, não existem sinais fisiológicos claros como a amenorrea no caso das mulheres. Enquanto que a sociedade de certa forma já aceitou os distúrbios alimentares no sexo feminino como doença e não um capricho, os homens ainda não têm esse privilégio. Sentem-se reprimidos e com medo de ser conotados com esse problema tão feminino. E sabiam que os distúrbios alimentares são a doença psíquica com maior taxa de suicídio?

Como já referi, tenho dificuldade em separar todas estas patologias que não são mais do que classificações arbitrárias para facilitar a vida aos profissionais em psicologia. Dismorfia muscular, anorexia, bulimia... é difícil separa-los até pela convergência de sintomas e alternância de estados numa mesma doença. Os pontos em comum são mais do que os que as distinguem. Por exemplo, na bulimia é comum o vómito induzido após um episódio de “binge eating”, seguido de um sentimento de culpa. De um modo genérico, eu diria que o vómito é apenas uma manifestação. Não é mais que um comportamento compensatório para atenuar esse sentimento de culpa. Ora, quantos praticantes não exigem de si próprios uma sessão de treino mais intensa após uma “cheat meal”? Quantos não tomaram já drogas ou suplementos (inibidores enzimáticos por exemplo) para atenuar os seus efeitos? Estão a ver as semelhanças? São comportamentos compensatórios na mesma que sugerem o exercício compulsivo como secundário aos distúrbios alimentares. A bigorexia pode ser apenas uma nova expressão de uma patologia com eles partilhada. Mas, e volto a frisar, na maioria dos casos em que estes comportamentos existem, eles não assumem proporções de doença. Felizmente...

A bigorexia é muitas vezes vista como o inverso da anorexia, mas uma facilmente evolui para a outra. E, pela minha vivência neste desporto, os homens com baixa satisfação corporal estão mais preocupados em estar “ripped” do que “grandes”. Daí facilmente se cair em desnutrição e restrições calóricas prolongadas. Finalmente entro na minha área de conforto... os sintomas físicos mais comuns nestes casos que podem ajudar a um diagnóstico precoce e que são também sinais de alarme. Os efeitos dos distúrbios alimentares são generalizados e nenhum sistema biológico é poupado. A capacidade adaptativa do corpo ajuda a mascarar alguns sintomas já que o treino o torna mais eficiente no uso de energia. Torna-mo-nos capazes de “funcionar” com menos “combustível”. Muitas vezes estas pessoas nem se dão conta, numa primeira fase, de estar bem abaixo das suas necessidades energéticas, naturalmente elevadas em consequência da actividade física intensa, O sistema cardiovascular é provavelmente o mais afectado e as arritmias e desequilíbrios electrolíticos podem mesmo levar à morte súbita. Os sintomas secundários e crónicos mais comuns são geralmente uma tensão arterial baixa, alterações ortostáticas significativas da frequência cardíaca ou pressão sanguínea (variações com a mudança de postura), insuficiência ventricular, acrocianose (extremidades do corpo ou lábios azulados) e bradicardia. Deixei o “melhor” para o fim e que no fundo é ilustrativo da dificuldade em identificar este problema. A bradicardia sinusal, com uma frequência cardíaca inferior a 50 bpm durante o dia. Não que seja mais perigoso que os outros, mas é um sinal precoce e desvalorizado pelos médicos menos sensibilizados para o assunto (que são quase todos). E porquê? Não se trata de uma característica clinica apenas de indivíduos com distúrbios nutricionais mas também de atletas saudáveis e bem treinados, especialmente em desportos de fundo. É um sintoma benigno que representa uma adaptação normal da anatomia e fisiologia cardíaca ao exercício. Se o médico não estiver alertado para esta questão não vai pensar duas vezes quando alguém lhe falar de um programa de treino intenso. E, na verdade, alguém que ainda não se consciencializou do seu problema vai achar esta vertente bem mais apelativa. Os distúrbios alimentares provocam também alterações hormonais muito significativas, nomeadamente no eixo hipotálamo-pituitária-adrenais-gónadas. Os níveis basais de cortisol disparam, com implicações imunitárias e no metabolismo energético. Os baixos níveis de gordura corporal têm como consequência uma redução na leptina, um importante regulador das gonadotropinas, que diminuem drasticamente. Daí resulta uma redução acentuada nos níveis de testosterona, tanto nos homens como nas mulheres, com implicações sérias a nível de risco cardiovascular (a longo termo), líbido e maturação nos pré-adolescentes, explicando também o agravamento dos sintomas depressivos. A actividade da tiróide também diminui, reflectindo-se com particular impacto nos níveis de T3 e num abaixamento ligeiro da temperatura corporal. Quanto à fadiga crónica, é tão evidente que nem considero de grande interesse falar. Pode derivar do insuficiente aporte energético mas especialmente do metabolismo dos corticosteróides e da regulação deficiente das neurohormonas ACTH e CRH com níveis de cortisol circulantes, que deixam de ter as variações circadianas e resposta ao stress normais. As perturbações gastrointestinais comuns (“barriga inchada”, problemas de motilidade intestinal, etc) também derivam desse mesmo stress fora de controlo que se reflecte numa disfuncionalidade do sistema nervoso simpático. Um pequeno apontamento relativamente ao cortisol. Numas análises clínicas, o cortisol em jejum pouco ou nada significa. Muitas pessoas o têm dentro dos valores considerados normais mesmo com problemas de stress crónico. O que se deve testar é a variação circadiana, com várias medições do cortisol ao longo do dia na saliva, ou, idealmente, a resposta das adrenais à ACTH numa prova de estimulação. No caso das mulheres, como já foi referido, é mais fácil reconhecer estes distúrbios porque muito cedo provocam amenorreia prolongada e perda de massa óssea, dois sintomas muito bem caracterizados em casos de carência nutricional ou níveis de gordura anormalmente baixos.

Mas o que leva a estes problemas? Não faço ideia mas podemos pensar um pouco sobre o assunto. O que levará um adolescente a essa falta de confiança e auto-estima tão marcada? Talvez algum episódio traumático passado. Se calhar uma infância de obesidade e ostracização pelos pares. Alguma insegurança na relação com o sexo oposto? Obviamente que a minha condição biológica só me permite falar pelo sexo masculino. Existe uma tendência obsessiva (eu diria quase patológica também) nas mulheres em pensar que um homem treina e preocupa-se com a sua imagem no sentido de as agradar. No caso da bigorexia, isso não é de todo verdade. Os estudos sobre a matéria são claros. As mulheres, na sua maioria, sentem-se atraídas por um corpo masculino atlético, mas não excessivamente musculado, ou excessivamente magro (são dados estatísticos e apenas isso). Na verdade, preferem um ponto intermédio. Mas... o que é que isso interessa? Será que lhes passa pela cabeça que os homens apenas se querem agradar a si próprios? Alguns de facto pensam assim... mas não parece um pensamento de alguém com falta de confiança e auto-estima pois não? De facto, nestes homens existe a obsessão de agradar aos outros, seja uma mulher, homem ou um qualquer estranho, porque na sua ideia isso é necessário para ser aceite. Se me disserem que estes homens treinam e ambicionam ser “grandes” e fortes para compensar as sua fraquezas emocionais e afectivas, eu aceito. Agora para agradar ao sexo oposto... não me parece. Mas se eu pudesse apontar um culpado, era sem dúvida o modelo de sociedade que adoptámos. Ultimamente ouve-se, e com alguma razão de ser talvez, movimentos feministas a se insurgir contra a exploração da imagem e especialmente contra o padrão de magreza exagerado que a moda e o “marketing” no geral têm promovido. Já ninguém põe em causa que é um factor na génese de distúrbios alimentares e insatisfação com o corpo. Uma pressão social em ir de encontro aos padrões estabelecidos. Então e os homens? A imagem do homem musculado e definido não tem sido da mesma forma explorada? Até nos brinquedos das crianças e desenhos animados a musculatura das figuras tem vindo a aumentar ao longo dos anos, muitas vezes já no campo do grotesco. São constantes os anúncios que apelam à sexualidade/sensualidade de um tronco nu e musculado. Um outro aspecto mais controverso e que pode ter contribuído para o fenómeno mais ou menos recente destes distúrbios nos homens é a ascensão da mulher na sociedade. Hoje elas ocupam lugares que antigamente eram exclusivos dos homens e já há até mais mulheres nas faculdades. Eles (nós) passaram a sentir-se mais inseguros da sua posição social e esta igualdade entre sexos também se passou a verificar na incidência de distúrbios alimentares.

Mas na verdade, o que é que esses homens ambicionam e procuram? Este é um ponto essencial... a maioria não sabe ou estabelece padrões tão altos e abstractos que são impossíveis de atingir. Por mais que se treine, por maior que seja o esforço, sejam quais forem os resultados obtidos, nunca se atinge um ponto de satisfação. É difícil imaginar o quanto debilitante do ponto de vista psicológico pode ser uma situação como esta. Aliado a esta busca incessante pelo indefinido, está um perfeccionismo doentio e exagero da importância da opinião alheia. Tudo é feito no sentido de agradar os outros e em manter as expectativas, em sacrifício da realização pessoal que passa para segundo plano. O medo de falhar funciona como que um bloqueio que impede sequer de tentar. É uma abordagem apática à vida que perde o sentido. Daí muitos optarem pela única saída aparente. A dificuldade em se relacionar com os outros coloca-os numa solidão total e constante, insuportável. A baixa auto-estima faz com que, na sua mente, seja impossível que alguém goste deles. Acham-se horríveis em todos os aspectos imagináveis. É fácil concluir que qualquer relação amorosa se torna insustentável ou mesmo impossível. Optam por reprimir os sentimentos no sentido de se protegerem de mais sofrimento, que no fundo é o que estão habituados e a única coisa que conhecem.

Essa falta de gosto pela vida pode ser perigoso e aqui entramos no mundo traiçoeiro dos esteróides anabolizantes e termogénicos estupefacientes. É muito provável que mais tarde ou mais cedo cedam a estas drogas como último recurso na tentativa de atingirem o tal ideal de corpo que, no seu pensamento, vai trazer paz consigo próprio e aceitação social. Adivinhe... não funciona e isso leva a uma frustração ainda maior. Mas não se pense que se tratam de indivíduos inconscientes que ignoram os efeitos nefastos destas drogas para a saúde. Enquanto que muitos dos que optam por esta via pensam, na sua ilusão, que o uso destas drogas não traz consequências se feito de uma forma controlada, os indivíduos de que estamos a falar têm plena consciência do sacrifício para saúde. Simplesmente não querem saber. Vale tudo para sair do inferno em que vivem... até arriscar a vida.

Felizmente, existem terapêuticas que têm revelado sucesso, embora modesto. Curiosamente, ou não se concordar com a ideia que tentei transmitir, o tratamento padrão para os distúrbios alimentares tem-se revelado das abordagens mais eficazes, tanto na sua vertente farmacológica como psicológica. Não é fácil estudar esta doença para quem está de fora. A comunidade “bodybuilder” é muito introvertida por natureza e os estranhos apenas apanham uma parte superficial desta subcultura. Mas longe de mim entrar por esses meandros. Deixo isso para quem sabe. Existem profissionais com a competência técnica para tratar estas doenças. São uma doença, como qualquer outra. Deixo apenas uma advertência a quem possa achar útil uma ajuda profissional. Ao procurá-la, informe-se. Não escolha o primeiro psicólogo clínico que lhe aparece nas páginas amarelas. Muitos não estão preparados para lidar com distúrbios alimentares, muito menos com a bigorexia em homens. Investigue e escolha alguém com provas dadas. Esta escolha não pode ser em vão, porque, muito provavelmente, um falhanço irá desencorajar qualquer outra tentativa futura.

E pronto... em suma, espero ter deixado BEM CLARO que a bigorexia não se desenvolve em todos os culturistas ou praticantes recreativos, mas apenas em minorias débeis psicologicamente que abraçam o culturismo na tentativa de ser aceite pelos outros e atingir uma imagem que julgam expectável e necessária. O culturismo é secundário ao problema... não é, nem nunca foi, um problema. Também espero ter deixado evidente que se trata de uma doença. Bem diferente daquilo que se conhece como “metrossexualidade”. Para saber mais sobre este último, basta ir ao Wikipedia... está bem longe de assumir contornos patológicos. Independentemente disso, quem está por dentro sabe que este desporto é caracterizado por uma grande camaradagem (talvez ao contrário do que pensa quem é estranho). Como tal, de dentro também pode partir a compreensão e o empurrão para a ajuda especializada. Espero ter ajudado a identificar alguns sinais de alerta e, acima de tudo, a compreender dentro do possível o que estas pessoas vivem e o respeito que merecem. Se por outro lado se identifica com o que escrevi, espero ter deixado claro que existe um tratamento, tanto médico como psicológico, mas terá de dar o primeiro passo pois dificilmente alguém identificará o problema por si.

Como referências bibliográficas, não existe muita coisa que possa sugerir. Deixo apenas três livros que aconselho vivamente a quem se interessa pelo tema e que utilizei como suporte a este texto. São bastante fáceis de ler e não necessitam de qualquer background em psicologia ou fisiologia humana.

POPE, H.G. et al. (2000). The Adonis Complex: The Secret Crisis of Male Body Obsession. The Free Press.

ANDERSEN, A. MD et al. (2001). Making Weight: Men’s Conflicts with Food, Weight, Shape & Appearance. Gurze Books.

MORGAN, J.F. (2008). The Invisible Man: A Self-help Guide for Men with Eating Disorders, Compulsive Exercise and Bigorexia.Routledge.

Sérgio Veloso
Jekyll, www.bodybuilding-pt.com

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