13 de dezembro de 2010

A resposta hormonal ao treino (Parte 1): Testosterona



por Sérgio Veloso

Todos reconhecem o importante papel das hormonas para a adaptação ao treino, tanto a nível de força como hipertrofia (tamanho muscular). Também não é segredo que níveis suprafisiológicos de certas hormonas conferem uma vantagem competitiva aos atletas. Como tal, a sua utilização está banida do desporto e, em muitos países, criminalizada. O controlo da produção hormonal endógena pressupõe mecanismos complexos e altamente regulados, sujeitos à influência de factores externos. Entre eles, um dos mais importantes na modelação hormonal aguda, imediata, é o treino muscular de resistência e força. Esta propriedade é explorada através da manipulação das variáveis de treino (intensidade, volume, tempo de descanso entre sets, etc), assegurando uma resposta neuroendócrina adequada de forma a potenciar as adaptações neuromusculares. Nem todas as hormonas são anabólicas por natureza e, na verdade, a remodelação do tecido muscular é um processo em que o catabolismo domina durante o treino e o anabolismo na fase de recuperação, dois estados caracterizados por perfis hormonais bem distintos. Segundo Kraemer, provavelmente o maior especialista em endocrinologia desportiva da actualidade, as adaptações hormonais ao treino são classificadas como:

1. Agudas, durante e imediatamente após o treino;
2. Alterações crónicas nos níveis basais;
3. Alterações crónicas na resposta hormonal aguda ao treino (o próprio treino capacita as células a uma resposta adaptada);
4. Alteração no número de receptores hormonais nas células.

A importância da modelação hormonal na construção de um plano de treino não é consensual, mas, quanto a mim, parece-me inegável que um programa adaptado aos objectivos de cada um deve considerar as respostas endócrinas e fisiológicas próprias do atleta. Diferentes objectivos pressupõem diferentes planos de treino que, no fundo, diferem essencialmente no tipo de estímulo neuroendócrino proporcionado. Com a série de artigos que agora começo, pretendo, de forma modesta, expor o que se sabe acerca da resposta individual de algumas hormonas ao treino, com particular ênfase ao trabalho de força e resistência muscular. O primeiro contemplado foi a testosterona.

A importância dos androgénios é evidenciada pelo facto de serem absolutamente necessários para o incremento de massa muscular e força. Inoue demostrou que a hipertrofia muscular induzida por electroestimulação era significativamente suprimida com a administração de antagonistas do receptor de androgénios (AR). Embora os mecanismos através dos quais a testosterona exerce o seu efeito anabólico não sejam totalmente claros, o IGF-1 parece mediar parte da sua acção. Os androgénios aumentam os níveis de mRNA para IGF-1 e, de facto, a testosterona parece estimular a proliferação de células satélite e sua fusão com as fibras musculares, um mecanismo reconhecidamente patrocinado por IGF-1 e na base do processo de hipertrofia. No entanto, existem numerosos estudos publicados em que não foi encontrada qualquer relação entre os níveis de testosterona e IGF-1, com uma possível justificação lógica. A medição da concentração de IGF-1 na circulação sistémica reflecte essencialmente a sua produção no fígado. Na verdade, este factor de crescimento exerce a sua acção tanto de forma endocrina como parácrina, tendo sido já identificada uma isoforma específica do músculo, o IGF-IEc ou MGF (Mechano Growth Factor). Este é um ponto que convém ficar assente. Os níveis sistémicos de uma hormona nem sempre estão de acordo com o seu efeito localizado. Da mesma forma, a testosterona também exerce efeito sobre o sistema nervoso, interagindo com receptores neuronais e aumentando a quantidade de neurotransmissores, bem como promovendo a regeneração dos nervos e o tamanho do corpo e dendrites dos neurónios. Estas adaptações neuromotoras estão obviamente ligadas ao aumento de força muscular. Embora seja interessante explorar as vias de acção dos androgénios que promovem a adaptação ao treino, esta não é a temática do artigo. Os efeitos e mecanismos activados pela testosterona serão certamente abordados noutra ocasião.

O treino de resistência muscular parece aumentar os níveis de testosterona de forma aguda (durante e imediatamente após a sessão) nos homens enquanto que nas mulheres os resultados são mais inconsistentes. Permitam-me um pequeno aparte para salientar que as mulheres também produzem testosterona em quantidades diminutas comparativamente aos homens, mas com efeitos fisiológicos reconhecidos. Nelas, o potencial anabólico é exercido principalmente pela hormona do crescimento (GH). Existem no entanto diferenças bem marcadas entre os dois principais tipos gerais de treino (poucas repetições e longos tempos de descanso vs repetições elevadas e curtos períodos de descanso entre sets) no que diz respeito à testosterona. Guezennec estudou o efeito do treino de força como estimulante da produção aguda de testosterona concluindo que não existia um efeito notório. O programa consistia em 4 sets de 3-10 repetições, com 2’30’’ de descanso entre sets. Quando a carga era aumentada e o número de repetições reduzido para 3, o efeito era praticamente inexistente. Em contraste, Kraemer mostra uma elevação aguda significativa da testosterona circulante após 5 sets de agachamento entre as 15-20 repetições. Vários estudos têm corroborado estes resultados, também com protocolos tradicionais de “bodybuilding”, permitindo afirmar com elevado grau de confiança que os programas de maior componente glicolítica (intensidade moderada, volume elevado e curtos períodos de descanso) favorecem a produção de testosterona durante e imediatamente após o treino. Curiosamente, o treino parece também condicionar a resposta hormonal que é mais acentuada em indivíduos numa fase avançada do seu programa de treinos, comparativamente à resposta inicial.

Nem todos os exercícios são iguais e quanto mais massa muscular envolvida num movimento, maior o estímulo à produção de testosterona. Exercícios como os levantamentos olímpicos, agachamento e peso-morto são muito mais eficazes do que movimentos isolantes ou que envolvem menos músculos. De forma empírica, este é um facto conhecido por todos os praticantes mais experientes. Estes movimentos compostos provocam um elevado stress metabólico no organismo que funciona como um estímulo à produção de testosterona. É na base deste principio que é usual recomendar a execução dos exercícios compostos no inicio do treino, de forma a potenciar o aumento de testosterona e, desta forma, a quantidade de hormona a que os tecidos estarão expostos durante os movimentos isolantes.

Vários mecanismos são propostos para explicar o aumento da secreção da testosterona após o treino, que não parece influenciar os níveis de LH, a gonadotropina hipofisária responsável pela estimulação das células de Leydig a produzir testosterona. Isto sugere que não existe um aumento de síntese nos testículos. No entanto, é possível que as glândulas adrenais sejam responsáveis pelo aumento verificado (estas glândulas também produzem androgénios em quantidades diminutas, tanto em homens como mulheres), existindo uma correlação positiva entre o cortisol e a testosterona livre pós-treino que contraria o efeito anti-androgénico reconhecido dos corticosteróides. Alguns autores sugerem, com base em resultados in vitro, que o ácido láctico estimula a produção de testosterona nas células de Leydig. Uma outra hipótese foi levantada por Robert M. Sapolsky e bem explicitada no seu livro “Why Zebras Don’t Get Ulcers”. Sapolsky sugere que o sistema nervoso simpático estimula a produção de testosterona em resposta a um determinado stress, neste caso o exercício, estímulo este mediado pelas catecolaminas (adrenalina). No entanto, as concentrações hormonais verificadas podem ser um artefacto que deriva do fenómeno de alteração no volume do plasma. A actividade contráctil dos músculos aumenta a necessidade de irrigação e a componente líquida do sangue é deslocada dos vasos para o tecido em esforço. Este é também um fenómeno relacionado com o processo inflamatório que responde aos microtraumas causados pelo treino. Desta forma, o volume do sangue baixa e os seus componentes ficam mais concentrados. Kraemer, ao corrigir os valores de concentração com as variações de volume plasmático, mostrou que o efeito do treino nos níveis sistémicos de testosterona era significativamente reduzido.

A testosterona exerce a sua acção nos tecidos através da interacção com AR, um receptor citoplasmático que, após activação pelo seu ligando, é translocado para o núcleo onde exerce o seu efeito modelador da expressão génica. Como é lógico, os efeitos da testosterona estão dependentes da concentração e funcionalidade destes receptores. O treino de resistência parece aumentar a expressão de AR no músculo. Por outro lado, o tipo de fibra parece também condicionar a quantidade de AR presente. A administração de testosterona em roedores induz um aumento muito superior da secção transversal das fibras tipo I comparativamente às tipo II, onde existe uma expressão muito inferior de AR em relação às tipo I. Curiosamente, a concentração de AR está inversamente correlacionada com o volume do protocolo de treino. A explicação poderá residir no catabolismo proteico induzido pelo treino excessivo que degrada o AR, ele próprio uma proteína. De acordo, Kraemer demostrou que uma bebida de recuperação constituída por hidratos de carbono e proteína reduz significativamente a degradação de AR. Mais tarde, Hulmi e colaboradores reportam também um aumento no mRNA de AR com uma refeição pós-treino, sugerindo uma síntese activa do receptor que compensa a sua degradação. O papel da nutrição nos níveis de testosterona é também notório mas ultrapassa o tema e seria ele próprio matéria de uma revisão. Saliento apenas que a proteína e os hidratos de carbono parecem inibir o aumento agudo de testosterona induzido pelo treino. A razão não é clara mas a insulina e a leptina parecem exercer uma função inibitória na síntese de hormonas esteróides. Adicionalmente, a nutrição pós-treino pode desviar o fluxo sanguíneo para o tracto gastrointestinal, reduzindo assim a circulação nos músculos mas também testículos, o que inibe a secreção de testosterona. As gorduras e o colesterol potenciam a produção da hormona, embora os seus efeitos sejam persistentes, crónicos, e não interfiram na resposta aguda ao treino.

Como apontamento final, quero sublinhar que não pretendo advogar qualquer tipo de treino específico nem sugerir que este deve ser programado de forma a induzir o aumento agudo de testosterona no organismo. Na verdade, o anabolismo é um processo contínuo e os níveis hormonais médios diários deverão ser bem mais importantes, não obstante as adaptações neuromusculares que se verificam no período pós-treino. Apresentei apenas dados factuais e resultados de estudos reconhecidos no sentido de elucidar acerca da resposta fisiológica ao exercício físico, sem um objectivo subjacente de aplicação prática.

Sérgio Veloso
Jekyll, www.bodybuilding-pt.com

Deschenes M.R., e Kraemer W.J. (2002). Performance and physiologic adaptations to resistance training. American Journal of Physical Medicine & Rehabilitation.81(Suppl):S3-S16.

Guezennec Y., et al. (1986). Hormone and metabolic response to weight-lifting training sessions. International Journal of Sports Medicine.7:100-105.

Hansen S. et al. (2001). The effect of short-term strengh training on human skeletal muscle: the importance of physiologically elevated hormone levels. Scandinavian Journal of Medicine and Science in Sports. 11:347-354.

Hulmi J. et al. (2008). Androgen receptors and testosterone in men - Effects of protein ingestion, resistance exercise and fiber type. Journal of Steroid Biochemistry and Molecular Biology. 110:130-137

Jezova D. e Vigas M. (1981). Testosterone response to exercise during blockade and stimulation of adrenergic receptors in man. Hormone Research. 15:141-147.

Inoue K., at al. (1994). Androgen receptor antagonist suppresses exercise-induced hypertrophy of skeletal muscle. European Journal of Applied Physiology and Occupational Physiology. 69:88-91.

Kraemer W.J. et al. (1991). Endogenous anabolic hormonal and growth factor responses to heavy resistance exercise in males and females. international Journal of Sports Medicine. 12:228-235.

Kraemer W.J., Volek J.S. (1998). Hormonal responses to consecutive days of heavy resistance exercise with or without nutritional supplementation. Journal of Applied Physiology. 85:1544-1555.

Kraemer W.J. e Ratamess, N.A. (2005). Hormonal responses and adaptations to resistance exercise and training. Sports Medicine. 35:339-361.

Sapolsky R.M. (2004). Why zebras don’t get ulcers: The acclaimed guide to stress, stress-related diseases, and coping, 3ª Edição. Henry Holt and Companny, LLC.

Tremblay M.S. et al. (2003). Effect of training status and exercise mode on endogenous steroid hormones in men. Journal of Applied Physiology. 96:531-539.

Volek J.S. et al. (1997). Testosterone and cortisol in relationship to dietary nutrients and resistance exercise. Journal of Applied Physiology. 8:49-54.

11 comentários:

  1. Muito boa revisão.

    Quais os neurotransmissores influenciados pela actuação da testosterona no SNC?

    Cpts

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  2. Antes de mais obrigado pelo comentário.

    Tentando responder à sua pergunta, referia-me à acetilcolina pela sua importância na cinética muscular. A testosterona parece actuar tanto por facilitação da sua síntese, através de um aumento na actividade da enzima colina acetiltransferase, e por incremento do número de receptores colinérgicos pós-sinápticos, aumentando assim a eficiência contráctil do músculo. Outros mecanismos devem existir certamente já que a testosterona parece também relacionada com a memória e neuro-protecção no hipocampo. No entanto, a neurobiologia não é de todo a minha área e teria de fazer uma pesquisa aprofundada para completar a resposta à sua pergunta. Espero de qualquer forma ter sido esclarecedor.

    Cumprimentos.

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  3. Obrigado pela resposta.

    Espero que continue com o excelente trabalho.

    Cumprimentos

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  4. "Guezennec estudou o efeito do treino de força como estimulante da produção aguda de testosterona concluindo que não existia um efeito notório. O programa consistia em 4 sets de 3-10 repetições, com 2’30’’ de descanso entre sets. Quando a carga era aumentada e o número de repetições reduzido para 3, o efeito era praticamente inexistente. Em contraste, Kraemer mostra uma elevação aguda significativa da testosterona circulante após 5 sets de agachamento entre as 15-20 repetições."

    3-10 repetições de que movimento?! é que senão for agachamento também, essa comparação "Em contraste" é um erro crasso. Pelos motivos óbvios que pode ter sido a mudança de movimento e não de range e tempo de descanso.

    gostei de ler

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  5. gostei de ler sobre a inibiçao de testosterona qd se come proteina/hidratos... vou ler com mais atenção dps

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  6. Antes de mais, obrigado pelos comentários.

    Repare que a comparação não é entre o trabalho de Kraemer e Guezennec. Neste último, foram comparados os níveis de testosterona usando o mesmo exercício e alterando as variáveis referidas. As alterações foram verificadas dentro desse estudo com a variação no estímulo. Quando a carga era aumentada e as reps reduzidas, a resposta da testosterona era atenuada. Kraemer, para além do estudo com agachamento que referi, procedeu também a outro em que comparou dois programas semelhantes de 8 exercícios, um 5x5 e outro 3x10, verificando um aumento nos níveis de testosterona 20% superior no último. Estes resultados foram reproduzidos várias vezes e daí se conclui que a elevação da testosterona está correlacionada de forma directa com a componente glicolítica do treino e número de repetições. A intenção não era de forma alguma comparar o trabalho dos dois autores. O "em contraste" deve ser entendido apenas no sentido em que num trabalho houve um aumento significativo e no outro não. Quanto a comparações, os próprios autores as fazem nos seus respectivos trabalhos.

    Cumprimentos

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    1. Chamo a atenção para a seguinte parte do texto aos quais estes comentários se referem: "No entanto, as concentrações hormonais verificadas podem ser um artefacto que deriva do fenómeno de alteração no volume do plasma. A actividade contráctil dos músculos aumenta a necessidade de irrigação e a componente líquida do sangue é deslocada dos vasos para o tecido em esforço. Este é também um fenómeno relacionado com o processo inflamatório que responde aos microtraumas causados pelo treino. Desta forma, o volume do sangue baixa e os seus componentes ficam mais concentrados. Kraemer, ao corrigir os valores de concentração com as variações de volume plasmático, mostrou que o efeito do treino nos níveis sistémicos de testosterona era significativamente reduzido."
      Obrigado!

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  7. proteina e hidratos inibem a produção de test no pós treino, entao nao faz sentido pessoas beberem o batido PWO

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  8. Isso será verdade se considerar que a elevação aguda nos níveis de testosterona é o factor mais importante no período pós-treino, em detrimento de outros como a hiperinsulinémina, inibição do cortisol, restauro dos níveis de glicogénio, etc. Nunca foi minha intenção sugerir isso e fiz questão de o frisar no final, se bem que a minha opinião sobre a "bebida de recuperação" não é a convencional. De qualquer forma isso é irrelevante para o caso.

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  9. qual seria sua bebida de recuperaçao ideal amigo,sigo seu site a amo todos os artigos e confio muito em sua opiniao,agradeço se voce me der essa luz.

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    1. É difícil dar a receita para uma bebida de recuperação ideal. O que eu aconselho geralmente é um compromisso entre saúde e performance máxima. Whey, água de coco e banana é a minha sugestão.

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