6 de janeiro de 2011

O consumo de atum e o mercúrio: é um problema para nós?


por Sérgio Veloso

O consumo de peixe, em particular atum enlatado, é massivo em praticantes de culturismo ou em dietas de controlo de peso. Para isto contribuem as suas características nutricionais favoráveis e a forma cómoda em que está disponível. No entanto, existe um pequeno senão… a presença de quantidades apreciáveis de mercúrio (Hg) na parte edível do pescado. É um risco real, embora mais dirigido a um grupo populacional específico, que convém alertar e esclarecer de forma a evitar reacções extremas em ambos os sentidos. Um consumo excessivo ou um receio exagerado e injustificado. Advirto que este artigo é extenso e talvez aborrecido para alguns, mas recomendo pelo menos a parte sobre os efeitos biológicos do mercúrio, doses de referência, espécies de risco e conclusões.

Introdução

Metais pesados são definidos como elementos com densidades específicas superiores a 5g/cm3. São exemplos de especial interesse em estudos de impacto ambiental o mercúrio, cádmio e chumbo, usados desde a antiguidade em diversas actividades humanas. No Império Romano, o chumbo era usado como componente de pigmentos cerâmicos, na canalização de transporte de água e, na forma de acetato, como adoçante de vinhos. Estima-se que um romano ingerisse cerca de 1g/dia de chumbo (1). O mercúrio foi usado desde o século XIV até XIX como tratamento para a sífilis. Em meados do século XIX, o cádmio era usado por Claude Monet como componente das tintas com que pintou as suas famosas obras.

Os metais pesados são considerados a forma mais importante de poluição aquática pela sua toxicidade e bioacumulação em organismos marinhos que se dissemina pelas cadeias tróficas. É uma forma de poluição pouco visível, pelo que é muitas vezes negligenciada, mas com efeitos intensos no ecossistema e na saúde humana. Enquanto a composição nutricional do pescado é conhecida para grande parte das espécies edíveis, o doseamento de minerais, nomeadamente metais pesados como o mercúrio e chumbo, é restrito a algumas espécies (2). Mesmo se o fosse, a utilidade desta informação seria mínima uma vez que os valores sofrem alterações sazonais, dependem da idade do espécime, estado de desenvolvimento, entre outros factores (3,4).

Factores antropogénicos como a actividade mineira e processo industrial são ainda a principal fonte de emissão de mercúrio para o ambiente, com uma evolução crescente desde a revolução industrial, com um decréscimo notável nas emissões nos últimos 20 anos, como é bom exemplo o Reino Unido, com reduções na ordem dos 50% (1). O mercúrio é ainda usado no processo de extracção de ouro em algumas regiões da América Latina (1) mas as suas emissões reflectem essencialmente o consumo de carvão. O mercúrio liga-se a compostos sulfurosos nele presentes que, durante o processo de combustão, são libertados para a atmosfera, depositando-se posteriormente à superfície da água e introduzindo-se nas cadeias tróficas (5).

Portugal é líder europeu no consumo de pescado, com estimativas de 57,1kg per capita ao ano (6), colocando-o nos países de topo a nível mundial, liderados pelo Japão. Como tal, é de especial interesse nacional o desenvolvimento de programas de monitorização e campanhas de sensibilização para o problema, facultando uma correcta percepção do risco à população. O objectivo deste trabalho é integrar o conhecimento sobre o mercúrio na cadeia trófica humana e seus efeitos fisiológicos, bem como tentar avaliar o real risco que representa para a população.

Ciclo do mercúrio

As emissões de mercúrio para o ambiente derivam essencialmente da actividade humana e podem ser divididas em dois tipos: emissões indesejadas em que o mercúrio é uma impureza libertada em determinado processo e emissões intencionais. No primeiro grupo incluiu-se a combustão de carvão, representando cerca de 1/3 do total das emissões antropogénicas a nível mundial. É libertado tanto na forma elementar (20-50%) e como Hg2+, formando sais como HgCl2. Apesar de o carvão ser o principal substrato, a combustão de outros combustíveis fósseis é também uma potencial fonte de mercúrio bem como a produção de cimento. Quanto às fontes intencionais, estas estão essencialmente ligadas à prática mineira. Minério e pedras extraídas das minas podem conter mercúrio, contaminando o local onde são depositadas. Uma prática comum e particularmente perigosa, proibida em certos países, é a deposição submarina, STD (Submarine Tailings Disposal), que, como é fácil pensar, representa um enorme perigo para os ecossistemas marinhos já que as formas solúveis (sais e Hg2+) facilmente se difundem no oceano. Em alguns países da América Latina ainda se usa mercúrio no processo de extracção de ouro. Este dissolve-o e a amálgama é recuperada. Muito deste mercúrio mantêm-se no ambiente e contamina a fauna local e água, Outras fontes que merecem consideração são a indústria de cloro-alcalis (7), manufactura de instrumentos como termómetros e lâmpadas fluorescentes, e amálgamas dentárias. Convém no entanto salientar que existem igualmente fontes naturais de mercúrio como erupções vulcânicas, emitindo até 6000 ton/ ano (8). 

A actividade industrial foi responsável por um aumento de 2-5 vezes nas emissões de mercúrio, aumento esse acompanhado pela deposição na água. Cerca de 90% do mercúrio atmosférico está na forma elementar que, devido à sua baixa reactividade, pode levar algum tempo até passar à forma reactiva Hg2+, passível de deposição. Assim, os efeitos de uma fonte emissora podem ser sentidos a largos quilómetros de distância. É sob a forma oxidada, iónica, que o mercúrio entra na cadeia alimentar e água. Aqui, este encontra-se estratificado em profundidade, com algum mercúrio elementar na zona superficial, captado da atmosfera. Nas zonas intermédias é prevalente a forma iónica, solúvel, e em profundidade são encontradas formas orgânicas, metiladas (8).

A metilação do mercúrio é essencial para a sua toxicidade e bioacumulação. Esta pode ocorrer por factores abióticos, através de reacções fotoquímicas, mas é a produção biológica a mais relevante. Bactérias redutoras de sulfato, como Desulfovibrio desulfiricans, produzem metilmercúrio, composto apolar que se pode difundir pelas membranas fosfolipidicas de outros organismos. Esta conversão acontece essencialmente em profundidade, em condições anóxicas, mas, sendo o metilmercúrio um ião monovalente, facilmente se difunde nas águas(8).

Bioacumulação

A bioacumulação é o aumento gradual da concentração de um composto num organismo vivo, potenciado por uma taxa de absorção superior à excreção ou simplesmente pela ausência de mecanismos de regulação, como é o caso dos metais pesados, nomeadamente o mercúrio. Se o elemento não apresentar toxicidade, este processo não representa perigo para o organismo, o que não é o caso deste metal. A formação de metilmercúrio é essencial para a bioacumulação do mesmo, essencialmente devido às suas propriedades lipofílicas (4) e maior reactividade, traduzidas numa maior facilidade de captação por microorganimos autotróficos. Organismos heterotróficos, predadores destes autotróficos, são contaminados proporcionalmente à quantidade que consomem. Daí, a concentração de mercúrio em predadores de topo, como o atum e tubarão, é superior relativamente a organismos em níveis inferiores da cadeia trófica. A longevidade do animal representa também um parâmetro importante, apenas pelo maior período de acumulação de mercúrio. Espécies carnívoras são especialmente susceptíveis, como verificado em algumas populações da Amazónia (9). Como tal, estando o Homem no topo da cadeia alimentar, consumindo tanto espécies de alto como de baixo risco, é um alvo da contaminação por mercúrio num processo denominado de biomagnificação, em que a concentração do tóxico aumenta à medida que se avança na cadeia alimentar.

Efeitos biológicos

Os principais efeitos negativos do mercúrio na sua forma inorgânica derivam da sua inalação, essencialmente sentidos a nível do sistema nervoso central devido à permeabilidade da barreira hemato-encefálica a este metal (10). Da mesma forma, a exposição aguda pode provocar danos nos pulmões e rins. O mercúrio pode também provocar reacção alérgica cutânea. Como vimos, o metilmercúrio, orgânico é a forma que apresenta maior toxicidade pela sua capacidade de bioacumulação e magnificação pela cadeia alimentar. A exposição a mercúrio é difícil de diagnosticar pelo período de latência, um mês ou mais, até os sintomas serem sentidos (1,10), sintomas esses inespecíficos e especialmente relacionados com o sistema nervoso central, como dificuldades de coordenação, constrição do campo visual e deficiência auditiva (1). Em doses massivas é letal. Alguns casos de intoxicação em massa por mercúrio foram já relatados. Em 1956, milhares de pessoas foram envenenadas em Minamata, Japão, pelo consumo de peixe contaminado por uma fábrica de acetaldeído e PVC. Mais de 900 mortes ocorrem em sequência. Na década de 70, mais de 10000 pessoas foram contaminadas no Iraque pelo consumo de pão derivado de grãos contaminados (1). No entanto, não se acredita que a população em geral esteja sobre grande risco, à excepção de grandes consumidores de peixe e certos grupos de risco. As crianças são particularmente susceptíveis já que os efeitos neurotóxicos são particularmente sentidos no período de desenvolvimento, resultando em problemas de aprendizagem e atenção e desenvolvimento intelectual lento. Mulheres grávidas e em período de lactação são também um grupo de risco já que o mercúrio se transmite ao feto e através do leite (11,5). A intoxicação assintomática com mercúrio está também relacionada com nascimentos prematuros, antes das 35 semanas de gestação, embora mais estudos sejam necessários para confirmar estes resultados (12). Acredita-se que níveis inócuos para adultos possam causar sérios danos ao feto em desenvolvimento (12). Apesar do vasto conhecimento no assunto, os efeitos da exposição crónica a longo prazo a baixos níveis de mercúrio ainda não são claros (13). A acumulação é verificada em todos os tecidos corporais mas bem patente no cabelo, facilitando testes toxicológicos em humanos, com uma relação cabelo/plasma de 2500:1 (11).

Os efeitos perniciosos do mercúrio não se resumem a neurotoxicidade e patologias renais. Especula-se sobre um efeito negativo sobre o sistema cardiovascular, contrariando os conhecidos benefícios do consumo de óleo de peixe. O mercúrio tem a capacidade de gerar radicais livres e inactivar sistemas antioxidantes dependentes de selénio (13). É sabido que estas espécies reactivas de oxigénio são responsáveis por uma predisposição a doença aterosclerótica por oxidação de lipoproteínas plasmáticas e consequente resposta inflamatória. Trabalhos sugerem que as recomendações de redução no consumo de certos peixes a grupos de risco devam ser estendidas à população em geral devido ao risco cardiovascular que representa (13). 

As consequências da intoxicação em mercúrio são também sentidas nos peixes. Os seus efeitos clastogénicos estão bem documentados, resultando em aneuplóidias e poliplóidias. A promoção de espécies reactivas de oxigénio provoca danos no DNA e peroxidação lipídica, com graves consequências nos organismos. Curiosamente, existe uma sensibilidade diferencial nas espécies relativamente aos efeitos genotóxicos do mercúrio e formação de micronúcleos eritrocíticos, igualmente reportado na literatura (14).

Doses de referência e espécies de risco

Devido à sua toxicidade e efeitos nefastos na saúde humana, é de esperar um controlo legislativo apertado dos níveis de mercúrio em produtos alimentares. De facto, de acordo com o Regulamento (CEE) n.º 315/93, aprovado a 8 de Fevereiro de 1993, existem limites máximos aceitáveis para o pescado. Com actualizações frequentes, última a 2 de Julho de 2008 (Regulamento CE n.º 629/2008), a União Europeia estabelece limites máximos de 0.5mg de Hg/Kg de peso fresco, salvo referidas excepções com limites fixados em 1mg/Kg de peso fresco. Neste grupo salienta-se o tamboril, enguia, maruca-do-cabo, espadins, areeiros, salmonetes, lúcio, raia, peixe-vermelho, peixe-espada, tubarões, espadarte e atum. Da mesma forma, os limites toleráveis semanais de consumo de mercúrio, PTWI (Provisional Tolerable Weekly Intake), foram estabelecidos pela FAO/WHO em 5µg/Kg de peso corporal por semana para o mercúrio total e 1.65µg/Kg para metilmercúrio (15).

Como referido, os predadores de topo apresentam níveis de mercúrio mais elevados devido a fenómenos de bioamplificação do elemento. Igualmente, a longevidade do indivíduo é um factor importante pelo maior período de exposição. Espécies de grande porte, geralmente predadores como o atum e tubarão, apresentam riscos elevados para a saúde. A FDA tem monitorizado os níveis de mercúrio em várias espécies de interesse económico e os resultados estão disponíveis para consulta pública aqui. Convém salientar que os valores dependem de vários parâmetros, fisiológicos e ambientais, esperando-se flutuações entre diferentes regiões do globo, não negligenciando a importância de valores de referência para uma avaliação de risco.

Em Portugal existem igualmente valores descritos para espécies marinhas de interesse económico. O peixe-espada preto (Aphanopus carbo) é uma espécie bêntico-pelágica de grande importância na Madeira e Açores. Sendo ambos os arquipélagos de origem vulcânica, existe um risco de contaminação natural em mercúrio com possíveis repercussões no pescado e saúde pública. Trabalhos de 2007 revelam que 46% dos espécimes analisados na Madeira e 35% nos Açores apresentam níveis superiores aos estabelecidos pela EU para esta espécie (1mg/Kg peso fresco) (16). É interessante notar níveis superiores no fígado relativamente ao músculo dos indivíduos analisados, indicando uma contaminação recente. Estes exemplares teriam vindo de regiões “limpas” para a Madeira ou Açores, com maior concentração de mercúrio (16). Concluiu-se que a população residente, com alto consumo desta espécie, está sob risco acrescido. Outros estudos na costa portuguesa continental revelaram que 6% do tamboril (Lophius spp.) e peixe-espada preto, 2% do areeiro (Lepidorhombus spp.) e 70% do cantarilho (Helicolenus dactylopterus) estão acima dos limites legais (1mg/Kg, excepto para o cantarilho, estabelecido em 0.5mg/Kg de peso fresco). Pelas suas características morfológicas e biológicas, os cefalópodes são também susceptíveis à contaminação com metais pesados. Trabalhos publicados em 2009 indicam que a lula, polvo e choco, transaccionados no mercado de Peniche, apresentam valores inferiores aos limites legais em todas as amostras analisadas (limite máximo legal de 0.5mg/Kg peso fresco), não constituindo qualquer perigo para a saúde (17).

Para reduzir o risco de intoxicação, a FDA, faz uma série de recomendações que se destinam especialmente às mulheres grávidas, em fase de lactação e crianças, mais susceptíveis e que constituem um grupos particular de risco:
  • Não consumir tubarão, peixe-espada ou cavala
  • Não consumir mais de 350g de outros peixes por semana
  • Informar-se acerca das recomendações locais das autoridades de segurança alimentar.
Isto parece estranho e contraditório se tivermos em consideração que se tem fomentado a ideia de que o peixe é mais saudável do que a carne. Poderá sê-lo do ponto de vista nutricional mas o problema do mercúrio é incontornável. Se os benefícios justificam os riscos é uma avaliação que não me cabe a mim fazer.

Percepção pública do risco

A percepção pública do risco nem sempre corresponde ao risco real e a forma como se transmite a informação é crucial e determina o target que esta atinge. É esperado que pessoas com níveis educacionais mais elevados processem a informação de forma mais eficiente. O consumo de um alimento é de forma geral influenciado negativamente pela difusão de informação sobre riscos de sanitários de um produto, e é função da percepção do risco, preço, demografia, entre outros (5). Por seu lado, o risco percepcionado é função da educação, acesso à informação, escolhas de saúde e estatuto social (5). Em 2001 a FDA (Food and Drug Administration) emitiu um aviso geral recomendando uma redução no consumo de peixe e exclusão de certas espécies da dieta de crianças e mulheres grávidas. Foram distribuídos panfletos informativos e usados meios televisivos e publicações periódicas como veículo. Estamos perante um bom caso de estudo de onde se podem tirar importantes elações. Concluiu-se que políticas baseadas na informação são eficazes e o consumo nos grupos de risco, crianças e mulheres grávidas ou em lactação, reduziu significativamente. No entanto, é notório que certos grupos são mais susceptíveis apenas porque a informação não os atinge, especialmente as classes de baixa formação académica. Também de verificou um impacto não intencional em grupos não implicados na recomendação oficial (5). De uma forma geral, podemos concluir que se trata de uma prática eficaz na redução da exposição, com uma redução marcada no consumo, mas outros meios de comunicação são necessários para assegurar que todo o target é atingido.

Remediação ambiental

Como vimos, a contaminação ambiental por mercúrio pode ter duas origens: actividade humana e emissões naturais. Quanto à última, pouco ou nada poderá ser feito. No entanto, algumas medidas podem ser tomadas para minimizar o impacto da indústria, principalmente pelo tratamento de águas residuais (18). O carvão activado é o adsorvente mais usado mundialmente, com bastante eficácia na remoção de mercúrio iónico. No entanto, o elevado custo (€ 15/Kg) faz com que a sua aplicação não seja tão generalizada quanto se gostaria. Alternativas têm sido estudadas e existem compostos baratos e de grande disponibilidade, matéria revista por Babel e Kurniawan (18). O chitosan é produzido por deacetilação da quitina, composto presente no exoesqueleto de crustáceos e insectos. A capacidade de retenção de mercúrio foi medida em 815mg/g de chitosan. O preço estimado é de € 11/Kg, ainda elevado para utilização massiva na indústria. A fly-ash, um tipo de cinza produzida na combustão do carvão é também uma alternativa a ter em conta dado o seu preço muito baixo, com capacidades de adsorção de 2.82mg/g, bastante mais baixo que o chitosan. Alguns subprodutos da indústria de fertilizantes são igualmente promissores, com capacidades de retenção bastante satisfatórias, na ordem dos 560mg/g. O uso destes adsorventes de baixo custo é altamente recomendada e potencialmente lucrativa, não só para as empresas como para os organismos vivos e o ambiente em geral (18).

Considerações finais

O mercúrio é hoje um problema ambiental de grande relevância, magnificado pelos seus efeitos tóxicos na saúde humana. Uma política de profilaxia é necessária o quanto antes para minimizar e tentar reverter o quadro actual, actuando directamente sobre as fontes industrias de contaminação e reduzindo as suas emissões. Devido à sua bioacumulação, estas políticas só a longo prazo se fariam sentir, assumindo-se um compromisso com as gerações futuras. Várias unidades industriais já controlam e monitorizam as suas emissões de metais pesados, mas não tantas quanto seria desejável. A pesquisa de novas tecnologias de baixo custo é essencial para a concretização deste objectivo. 

O consumo de pescado é a principal via de intoxicação para o Homem e, como tal, é necessário controlar e monitorizar os níveis de mercúrio nos ecossistemas marinhos. A utilização de certas espécies marinhas como sensores biológicos é especialmente importante tendo em conta a bioacumulação deste metal e que os efeitos mais nefastos são potenciados pelo metilmercúrio, essencialmente presente em organismos vivos. Embora o consumo de pescado não apresente risco imediato para a população em geral, certas comunidades piscatórias, mulheres grávidas e crianças devem prestar especial atenção a esta temática. 

O consumo de peixe, especialmente atum enlatado, é muito comum em dietas mais rígidas, tanto de aumento como de controlo de peso. Há quem consuma diariamente o dobro da dose semanal recomendada. É um alimento bastante interessante para a comunidade “culturista” pelo seu teor proteico, baixo nível de gordura (no caso do enlatado), um bom perfil de ácidos gordos (especialmente no fresco) e pela comodidade que apresenta. Embora as níveis de Hg no atum em conserva (particularmente o escuro) serem inferiores aos bifes frescos, a FDA não o exclui dos alimentos de risco e recomenda moderação no seu consumo. Eu pessoalmente consumo peixe em grande quantidade, não apenas atum mas várias espécies como a pescada e tamboril. Como tal, não posso fazer mais do que sugerir o respeito pelas indicações das autoridades competentes pois ninguém melhor capacitado para avaliar o risco real de exposição ao mercúrio no pescado disponível para consumo. Quem não o fizer, pelo menos fica consciente do risco, tal como eu.

Sérgio Veloso (Jekyll)

Referências

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2. Carvalho, M.L.; Santiago, S., and Nunes, M.L. (2005). Assessment of the essential element and heavy metal content of edible fish muscle. Analytical and Bioanalytical Chemistry. 382(2): 426-432.

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4. Pereira, E.; Abreu, S.N.; Coelho, J.P.; Lopes, C.B.; Pardal, M.A.; Vale, C., and Duarte, A.C. (2006). Seasonal fluctuations of tissue mercury contents in the European shore crab Carcinus maenas from low and high contamination areas (Ria de Aveiro, Portugal). Marine Pollution Bulletin. 52(11): 1450-1457.

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7. Reis, A.T.; Rodrigues, S.M.; Araujo, C.; Coelho, J.P.; Pereira, E., and Duarte, A.C. (2009). Mercury contamination in the vicinity of a chlor-alkali plant and potential risks to local population. Science of the Total Environment. 407(8): 2689-2700.

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9. Passos, C.J.S.; Mergler, D.; Lemire, M.; Fillion, M., and Guimaraes, J.R.D. (2007). Fish consumption and bioindicators of inorganic mercury exposure. Science of the Total Environment. 373(1): 68-76.

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18. Babel, S. and Kurniawan, T.A. (2003). Low-cost adsorbents for heavy metals uptake from contaminated water: a review. Journal of Hazardous Materials. 97(1-3): 219-243.


2 comentários:

  1. Boa noite, diria quantas latas de atum por semana são consideradas como saudáveis? Cumps.

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    1. Tendo em conta o que foi referido, um limite prudente seria 2-3 latas por semana. De qualquer forma convém reforçar que existem grupos de risco e que a intoxicação por mercúrio é um processo lento que decorre de um consumo exagerado durante muito tempo.

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