2 de fevereiro de 2011

"The Biggest Loser": ainda nem chegou mas a polémica não tardou...



Duvido que algum português ainda não saiba que em breve teremos o “The Biggest Loser” na SIC, o programa que causou sensação nos EUA. Mas muito me admirava se não surgissem movimentos contra, alimentados agora por um comunicado da Associação de Obesos e Ex-obesos de Portugal (ADEXO) que refere o seguinte:

“The Biggest Loser é um concurso onde a proposta é perder o máximo de peso possível em 3 meses.

 Todos podem concorrer mas devem fazê-lo conscientes da realidade deste programa e das consequências para o futuro e assim devem ter em atenção aos seguintes pontos:

1. A obesidade é uma doença crónica e o facto de iniciarmos um exercício violento (porque o concurso assim o exige) vai fazer com que aqueles que vão saindo logo no início se pararem aumentem imediatamente de peso e os que saírem no final mesmo com prémio não poderão parar de fazer exercício MUITO INTENSO ou retornarão a muito mais do peso em que estavam;

2. Recordo que só um leva o prémio grande embora possam existir outros prémios de menor valor;

3. Uma coisa que não é mostrada na Televisão é o que acontece aos concorrentes depois de saírem e nos EUA existem muitas pessoas com problemas contudo a produção do programa está a tentar encontrar uma solução de acompanhamento pós programa em Portugal.

4. A selecção dos concorrentes terá várias fases e dos vários milhares inscritos irão ficar cerca de 100 a quem vão ser efectuados exames rigorosos. destes exames sairão os concorrentes que irão participar no concurso. 

5. O exercício físico é essencial para o tratamento, controlo  da obesidade, agora deve ser um exercício adaptado ao indivíduo, tendo em conta o seu peso, os problemas que já estão instalados, o seu estado a nível cardíaco, respiratório, articular, etc.

6.   Como disse no início participem se o entenderem mas, embora seja um concurso e possam ganhar o prémio participem sobretudo para  MUDAREM MESMO o vosso estilo de vida.

A ADEXO está já em contacto com a produtora e com o Ministério da Saúde para discutir este assunto e a forma garantir que existam todas as condições de avaliação prévia dos concorrentes e se possível um acompanhamento posterior durante um tempo considerado razoável para ajudar à mudança.”


Mas o que é isto!? Então perder peso não pressupõe um esforço e compromisso? Qual o problema do exercício físico "muito intenso"? Mudar o estilo de vida não é o principal objectivo do programa? Uma avaliação clínica rigorosa é, segundo sei, um dos requisitos para participar. Já tenho dúvidas se a ADEXO é anti-obesidade ou se simplesmente cedeu ao lobby instalado.

Embora não seja de todo fã de reality shows, confesso que admiro o “The Biggest Loser”, pelo menos na sua versão original americana. Pela minha experiência pessoal com um passado de obesidade sei o que é preciso para perder peso. Essencialmente tudo converge em dois factores: motivação e resiliência. Mas quem é que nos dias de hoje não sabe o que precisa de fazer para emagrecer? Embora existam formas e formas de lá chegar, o princípio é único: ingerir menos energia do que se gasta. A grande novidade que o “The Biggest Loser” nos trouxe foi que de facto existe uma preocupação em instituir hábitos de exercício físico e uma re-educação alimentar que me surpreendeu pela positiva. É refrescante ver a importância que dão à proteína e gorduras saudáveis. Se depois de sair do campus forem aplicados os conhecimentos adquiridos, não há razão para voltar ao mesmo. Mas o compromisso terá de ser grande porque o retorno à vida quotidiana irá colocar-nos novamente no ambiente que nos tornou obesos em primeira instância. Aí entra a "fibra" de cada um e a real vontade em mudar a sua vida. Por experiência posso dizer que é tudo uma questão de readaptação e uma pessoa instruída sobre boas práticas alimentares consegue aliar um regime adequado à manutenção do peso com a rotina diária. É aqui que tenho medo de a versão portuguesa falhar…

Os EUA é um país de extremos. Ou 8 ou 80. A transição do sedentarismo e gulosice para o exercício compulsivo e dieta rigorosa é vista com naturalidade. Não há receio de arriscar e despender esforços titânicos para atingir um objectivo. Talvez seja esta também a explicação para a sua hegemonia no mundo. Uma cultura de trabalho e esforço. Portugal é o oposto. É um país moderado por natureza, em que as pessoas se colocam no meio, sem assumir nenhum dos lados. Tenho as minhas dúvidas que a versão nacional do programa submeta os participantes a um esforço comparável à americana e também não sei até que ponto a re-educação nutricional vai ser de facto proveitosa. Se não houver uma aprendizagem de como manter ou perder peso cá fora, no "mundo real", então o programa não serviu de nada. Até eu que estou habituado a exercício físico intenso fico surpreendido pela dureza do programa. Mas ao contrário da ADEXO, a minha admiração é no sentido positivo e da valorização do esforço individual.

Mas pensem comigo. Uma pessoa realmente motivada não podia perder peso em casa? No fundo só lá vão fazer dieta e treinar! Onde é que está a novidade? Independentemente da dedicação exclusiva durante o programa, mais tarde ou mais cedo a vida real estará de volta. A diferença está na motivação: dinheiro e notoriedade. Muita gente fica ofendida quando digo isto, sem razão de ser. São dois factores perfeitamente legítimos e inerentes à natureza humana. O programa apenas oferece condições tentadoras que para muitos justificam o sacrifício da sua vida pessoal e profissional, que estará em standby por 3 meses. Mas o fim é nobre e é tudo o que interessa. Se um prémio chorudo e fama é o que dá aquela motivação extra a alguns, então que venham muitas temporadas do "Peso Certo". Boa sorte a todos os participantes e que tirem o melhor partido da oportunidade.

Sérgio Veloso (Jekyll) [FACEBOOK PROFILE]



2 comentários:

  1. ADEXO = idiotas

    aguardo por este programa com grande interesse

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  2. Só esta semana descobri este blog fascinante, mas também de difícil compreensão quando os artigos são mais técnicos. Como só o descobri agora, estou ainda a ler os artigos de 2011.
    Sou magra e sempre fui e, como tal, não me identifico com os obesos, mas adorava ver o «Peso Pesado», que, infelizmente, já não está a dar. Acho uma inspiração ver o esforço, que imagino hercúleo, daquelas pessoas para atingir o seu objetivo.

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