24 de fevereiro de 2011

Desabafos de uma visita ao supermercado

Hoje andava eu nas minhas compras e dei um salto à secção dos produtos naturais e dietéticos. O motivo é irrelevante mas posso dizer aos interessados que fui comprar sementes de linhaça e aveia. Quando olhei em volta para as pessoas que preenchiam o corredor, praticamente todas elas mulheres entre os 20-40 anos com excesso de peso, não pude deixar de me questionar: o que é que esta gente anda aqui a fazer? 

Com tais preocupações alimentares, não deveriam estar em melhor forma física? Claro que o peso não é um indicador perfeito da saúde e, na verdade, ninguém ali poderia ser classificado como obeso. Eram apenas pessoas com uns quilos a mais, em cima de um corpo notoriamente sedentário. Basicamente, pessoas comuns numa sociedade em que o excesso de peso começa a ser a regra. Olhando para os carrinhos de compras, constatei que os produtos com maior procura eram as massas e cereais integrais e biológicos, geleias e condimentos light, leite de soja, bolos e bolachas sem açúcar, entre outros do género. Julgo que seja um pouco frustrante consumir este tipo de produtos, pagando bastante por eles, sem obter um retorno palpável, neste caso a perda de peso que eu suponho desejarem. Se calhar até estão em perfeita saúde, mas não é isso que transparece se pensarmos que a adiposidade é um factor de risco para diversas doenças metabólicas e cardiovasculares. Embora não seja novidade, fiquei um pouco triste em ver de perto a ilusão em que aquelas pessoas vivem. A ignorância no que deve ser uma alimentação saudável revolta-me. Revolta-me que estes hábitos sejam constantemente promovidos por quem tem responsabilidades morais e institucionais. Os resultados estão à vista… um país, um mundo, cada vez mais “pesado”. Em vez de gastarem rios de dinheiro em produtos extremamente processados, cheios de sal, aditivos sintéticos e gorduras trans, deveriam fazer uma visita à secção dos legumes, carnes e peixes, apostando numa dieta realmente saudável e eficaz. Mesmo com todas essas ilusões do light, biológico e sem açúcar, enquanto não se entender a dieta como um todo, compreender o que é a carga glicémica global e o conceito de balanço energético, iremos continuar no mesmo caminho para uma comunidade cada vez mais gorda e doente. Confesso que prefiro ver um obeso sem qualquer cuidado na alimentação, seja ele ilusório ou não. Pelo menos eles sabem a razão para o seu estado e não vivem no engano. Quando digo que se deve evitar os cereais e massas, não abusar dos lacticínios, que a fruta deve ser moderada, que se deve reduzir ao essencial todos os alimentos processados e que o peixe, carne, verduras e legumes devem ser a base da dieta, sinto-me um autêntico ET. Compreendo que estes alimentos sejam mais caros e que muita gente não tenha possibilidade de os adquirir com frequência, mas pelo menos não gastem fortunas em produtos light e dietéticos completamente inúteis! É urgente educar a população para que as pessoas possam fazer as melhores escolhas dentro do orçamento e assim obter o retorno do seu investimento na saúde e bem-estar. Eu não sou nenhum iluminado e também absorvi no passado toda essa desinformação. Felizmente fui salvo a tempo pelo estudo apaixonado do tema e pelo culturismo. Embora até ele tenha sido infectado, ainda não está podre. As suas bases nutricionais são muito sólidas e não cedem com facilidade. São muitos os que sonham com uma forma de comer sem preocupações com a balança e tamanho da roupa. E se isso pudesse ser uma realidade?

6 comentários:

  1. O mundo que nos rodeia é bastante ilusório, mesmo as verdades mais certas podem ser bastante voláteis. Todos estes mecanismos são muito subtis, não fosse o nosso corpo um organismo altamente resiliente e redundante no que respeita a ambientes desfavoráveis. O supermercado é um laboratório epidemiológico fabuloso, ali se vê todas as condições e se podem extrair todas as associações. E também saber o que o mundo anda a comer, porque os stocks devem ser proporcionais aos consumos. Por exemplo, assusta quando nas prateleiras junto ao azeite existe igual proporção de óleos Fula. Apenas uma nota sobre a questão dos "legumes". Qual é a diferença entre vegetais, verduras, legumes, vagem, folhosas, etc.? É que estes termos são usados indistintamente como se fosse tudo igual, mas significam coisas diferentes.

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  2. Mais do que as proporções desequilibradas de alimentos nos locais de compra, preocupa-me a diferença relativa de preços. Quando tens um bom azeite virgem extra 5x mais caro que um óleo alimentar, é natural que as pessoas menos "educadas" no assunto optem pelo óleo. E o mesmo se passa com as verduras e legumes que cal por cal, têm um preço astronomicamente mais elevado que os alimentos altamente processados. Na minha opinião pessoal, esta questão podia ser minimizada com a adopção de taxas diferenciais, mas isto é muito controverso e não vejo um poder político forte e suportado pelo público que se consiga impor a alguns lobbies. Felizmente certos países começam a entrar por esta via e, curiosamente, no caso europeu são aqueles que já tinham as taxas de obesidade mais reduzidas, como a Dinamarca e a Noruega, provando que acima de tudo trata-se de uma questão cultural. E a cultura leva-nos à educação, que é a meu ver o ponto mais importante. O grosso da população é completamente ignorante sobre boas práticas alimentares e absorve apenas a informação que mais lhe agrada no imediato. Alimentos light, fat-free e sugar-free... preferem entupir-se de químicos e nutrientes alterados pelo processamento em vez de adoptar uma alimentação realmente saudável. Apenas com uma aposta na educação, desde bem pequeno, é possível dar às pessoas as ferramentas que lhes permitem fazer as melhores escolhas dentro da enorme oferta que temos hoje. Um outro aspecto que gostava de mencionar é a necessidade de aprender a cozinhar porque eu vejo, e também em minha casa, autênticas atrocidades que nada acrescentam aos alimentos. Eu não teria a noção de que o problema é geral se não tivesse já sido contactado por pessoas que confessam não saber como cozinhar de forma saudável. Mas como já escrevi demais, fico por aqui embora haja muito mais a dizer.

    Quanto à questão que me colocaste, claro que sim. Existem diferenças entre os vegetais e eu muitas vezes também caio no erro de usar os termos abusivamente, se bem que também é uma forma de usar uma linguagem mais perceptível. Rigorosamente, os legumes são derivados e frutos (a vagem) das leguminosas mas é comum chamar legume a tudo o que não é verdura. Os legumes e leguminosas geralmente têm um valor nutricional bastante interessante e contêm uma boa quantidade de proteína. Bem distintos a nível nutricional são as verduras folhosas, os chamados greens, com um valor calórico muitíssimo reduzido e ricos em micronutrientes e fibra. Como fornecem muito pouca energia, é muito difícil que se consiga providenciar o suficiente com vegetais folhosos. Aí, a meu ver, entram as leguminosas, mais densas e que podem substituir em grande parte os cereais domesticados.

    Nota-se que sabes do que falas e que tens um background considerável. Portanto, estou certo de que tens consciência que a nutrição tem uma boa dose de subjectivo. Com o blog eu pretendo duas coisas: disponibilizar os dados científicos que permitem a qualquer construir uma opinião informada e dar a minha própria opinião que pode ser aceite ou rejeitada à luz do conhecimento isento e desinteressado que constitui a ciência.

    Cumprimentos.

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  3. A questão dos preços é bastante importante e determina as escolhas alimentares das pessoas com mais dificuldades económicas. Existe uma associação inversa entre a densidade energética e o preço dos alimentos, e pessoas pobres tendem mais a consumir alimentos hipercalóricos, por regra de baixa densidade nutricional. Isto supostamente conduz a regimes hipercalóricos passivos e à desregulação do apetite. De forma inversa, pessoas mais abastadas tenderão a fazer melhores escolhas, talvez por estarem mais informadas, ou menos desinformadas, mas também porque têm mais fácil acesso aos alimentos caros/ancestrais (carne/peixe, ovos, vegetais, etc). É sabido que a maior parte da informação nutricional, traduzida nas famosas pirâmides e rodas, é mais influenciada por lóbies alimentares que propriamente por ciência. Por isso não acredito que mais "cultura nutricional" possa vir a ser decisiva na prevenção da obesidade, e isto é atestado pelas recomendações modernas, absolutamente caóticas e que só agravam ainda mais a obesidade e a diabetes. Um artigo importante: http://weightology.net/?p=265

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  4. Excelente artigo, na linha do que penso e que me levou a transformar a minha vida por completo. Parabéns pelo blog e pelos excelentes artigos.

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  5. Bom dia Sérgio, recebo os seus emails e gosto muito, mas confesso que quanto mais vou aprendendo e lendo artigos, mais na dúvida fico, exatamente como diz acima "..pessoas que confessam não saber como cozinhar de forma saudável...", é verdade! As informações gerais que nos chegam, tanto na medicina convencional como na alimentação....
    O que mais me complica são as crianças, como equilibrar as suas refeições, por mais que para mim faça um belo bife com uma maravilhosa salada ou legumes, para as crianças isso não vai...tem que haver uma massa ou arroz, vou tentando que comam um pouco de salada, mas é uma luta difícil!
    Desde pequenos o que aprendem nas escolas, a "Pirâmide alimentar", logo na base estão todos os cereais. O que aparece na televisão, nas escolas, no mundo, está tudo errado!
    Há algum curso sobre alimentação básica saudável?
    Obrigada e até breve,

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    1. Bom dia :)

      Compreendo perfeitamente o que diz e de como tudo isto possa parecer confuso quando somos bombardeados diariamente com informação contraditória. Não conheço um curso desse tipo, mas quem sabe se não se poderá organizar um dia. Se for viável julgo que conheço quem o poderia organizar...

      Cumprimentos :)

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