23 de fevereiro de 2011

Porque muitos falham a entrar em cetose


A palavra “cetogénico” passou a fazer parte do vocabulário corrente dos entusiastas do fitness. Muitas pessoas encontraram nas dietas cetogénicas uma forma eficaz de melhorar a sua composição corporal, embora poucos sejam capazes de explicar o que realmente está a acontecer no organismo. Na verdade, muitos nunca chegam a atingir os níveis de corpos cetónicos considerados ideais para um verdadeiro estado “cetogénico”. Embora a variabilidade inter-individual seja um factor importante, muitas vezes encontro um erro comum que compromete grandemente a cetose: a ingestão de demasiada proteína.

O estado “cetótico” é definido arbitrariamente por uma concentração de ácido acetoacético (AcAc) e beta-hidroxibutírico superior a 1 mmol/L e 2 mmol-L respectivamente, o que é normalmente atingido em 2-3 dias de jejum. Os níveis basais dos corpos cetónicos no plasma são muito reduzidos, da ordem dos 0.1 mmol/L em pessoas saudáveis. O método mais comum e expedito para quantificar o AcAc ou acetona é a reacção com a nitroprussida em tiras de teste para a urina que gera um complexo facilmente detectável. Embora existam alguns factores que influenciam o resultado, como a exposição ao ar das tiras, baixo pH da urina ou substâncias com grupos sulfidrilo (como a N-acetil-cisteína, NAC), esta metodologia é bastante robusta e representa uma óptima aproximação aos valores reais.

Mas porque razão a cetoacidose severa é tão comum em diabéticos não-controlados e muito rara em pessoas saudáveis, mesmo após um jejum prolongado? Nestes, os níveis raramente excedem os 6 mmol/L enquanto que na diabetes podem chegar aos 12-14 mmol/L. Esta questão não é ainda totalmente clara mas julga-se que um aumento muito acentuado da concentração de corpos cetónicos iniba a sua produção. A infusão de corpos cetónicos parece estimular ligeiramente a produção de insulina, mas a níveis suficientes para inibir o metabolismo cetogénico. Como os diabéticos são incapazes de produzir insulina, não possuem este mecanismo auto-regulador. Mas uma característica que distingue todas as formas de cetoacidose severa da benigna, induzida pela privação alimentar, é o chamado hipermetabolismo. Não é um conceito simples de explicar mas vou dar o meu melhor. A diabetes é caracterizada por níveis elevados de glucagina e um aumento relativo da secreção de norepinefrina (ou noradrenalina), o que estimula a gluconeogénese e a taxa metabólica. Pelo contrário, o jejum é geralmente um estado hipometabólico. O stress metabólico aumenta o fluxo de ácidos gordos livres e percursores glucogénicos para o fígado, o que, aliado a um metabolismo acelerado pela norepinefrina, resulta num aumento do consumo energético e capacidade cetogénica no órgão. Em pessoas não-diabéticas, um aumento da glicemia induzido por stress, com uma elevação das catecolaminas, iria estimular a libertação de insulina de forma a inibir a lipólise e gluconeogénese, bloqueando assim a cetogénese. Portanto, é a incapacidade de resposta ao aumento da glicemia que determina o controlo dos níveis de corpos cetónicos no sangue. A título de curiosidade, antes da insulina terapêutica estar disponível, o único tratamento que aumentava significativamente a esperança de vida dos diabéticos era uma dieta reduzida em glicose.

Agora que vimos como o corpo controla a cetogénese em pessoas saudáveis, mesmo após um jejum prolongado, torna-se evidente o quanto uma dieta tem de ser rigorosa para que se atinja um estado de cetose, especialmente no que diz respeito à glicose e seus precursores. Klein [1] estudou o efeito da restrição de hidratos de carbono e valor energético da dieta na resposta metabólica ao jejum. A infusão intravenosa isocalórica de ácidos gordos não atenua a produção de corpos cetónicos. Volek demonstrou que uma dieta isoenergética baixa em hidratos de carbono (43g/dia) resulta em níveis elevados de AcAc na urina [2] e a infusão hipocalórica de glicose (250kcal/dia) reduz 6 vezes o aumento de cetonas verificado num jejum de 4 dias [3]. Estes dados indicam claramente que a restrição dos hidratos de carbono é o factor determinante na cetogénese.

Mas na verdade, uma dieta baixa em hidratos de carbono não é necessariamente cetogénica e aqui reside o problema das dietas vocacionadas para o culturismo e fitness. Ainda em 1928, Heinbecker [4] verificou que nos Esquimós de Baffin a cetonúria era mínima, mesmo subsistindo com uma dieta exclusivamente à base de foca, rica em gordura e proteína. A explicação óbvia é que a glicose derivada da proteína alimentar era suficiente para prevenir a cetose, o que de facto veio a ser verificado mais tarde. Em pessoas com dietas muito pobres em hidratos de carbono, a cetose varia inversamente com a quantidade de proteína consumida. Isto ocorre porque até 60% dos aminoácidos presentes nos alimentos são gluconeogénicos [5] e por cada 2g de proteína consumida, 1-1.2g é potencialmente convertida em glicose. A noção, correcta diga-se, de que a proteína é essencial para o incremento e manutenção da massa magra leva muitos atletas a consumir quantidades elevadas de proteína que, por mais moderadas que possam parecer, podem inibir consideravelmente a cetogénese. A título de exemplo, de 100g de proteína podem ser derivadas 57g de glicose [5], um valor suficiente para atenuar a produção de corpos cetónicos em diversos ensaios. Uma fórmula eficaz utilizada em quadros clínicos é um consumo de gordura que excede o dobro dos hidratos de carbono mais metade da proteína [6], por exemplo, 300g de gordura, 50g de hidratos de carbono e 100g de proteína. Tendo isto em conta, é transparente a razão porque muitos dos que utilizam as dietas cetogénicas para fins estéticos falham em atingir a cetonúria ideal: demasiada proteína.

Para piorar as coisas, alguns caem no erro de suplementar a dieta com glutamina de forma a beneficiar do papel anti-catabólico que lhe é atribuído (embora duvidoso deixam-me dizer). A glutamina é um aminoácido gluconeogénico que em condições de baixo nível de insulina eleva consideravelmente a produção de glicose no fígado e rim. A concentração plasmática de glutamina relaciona-se de forma inversa com a glucagina, uma hormona que estimula a síntese de novo de glicose. Isto acontece porque a glutamina é preferencialmente mobilizada para a gluconeogénese [7]. A suplementação, aliada a uma dieta consideravelmente rica em proteína, pode ser, e geralmente é, um factor limitante para o sucesso dos regimes cetogénicos. 

Assim sendo, caso pretenda tirar partido desse pretenso efeito metabólico das dietas cetogénicas há que sacrificar no consumo tanto de hidratos de carbono como de proteínas e aminoácidos. Devido ao controlo hormonal apertado da cetogénese, é aconselhável que os níveis de cetonas na urina sejam testados de forma a certificar de que estão dentro dos valores ideais. Caso contrário, não é mais do que uma dieta low-carb. Eu não sou apologista das dietas cetogénicas mas, como sabem, defendo um consumo moderado e com um “timming” de hidratos de carbono. Mesmo não entrando em cetose, é natural que alguns efeitos positivos surjam devido à redução drástica da carga glicémica global. Mas se acredita que as dietas cetogénicas são a solução ou “o segredo”, ou se já falhou neste objectivo, fica avisado: a proteína é o principal factor limitante em atletas.


 
Sérgio Veloso (Jekyll) 



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Referências

[1] Klein S e Wolf RR. (1992). Carbohydrate restriction regulates the adaptive response to fasting. Am J Physiol. 262:E631.

[2] Volek JS et al. (2003). An isoenergetic very low carbohydrate diet improves serum HDL cholesterol and triacylglycerol concentrations, the total cholesterol to HDL ratio and post-prandial lipemic responses compared with a low fat diet in normal weight, normolipemic women. J Nutr. 133:2756.

[3] Klein S et al. (1990). Importance of blood glucose concentration in regulating lipolysis during fasting in humans. Am J Clin Nutr. 258:E32.

[4] Heinbecker P. (1928). Studies on the metabolism of Eskimos. J Biol Chem. 80:461.

[5] Jungas RL, et al. (1992). Quantitative analysis of aminoacid oxidation and related gluconeogenesis in humans. Physiol Rev. 72:419.

[6] Stock AL e Yudkin J. (1970). Nutrient intake of subjects on low carbohydrate diet used in treatment of obesity. Am J Clin Nutr. 23:948.

[7] Gerish JE, et al. (2000). Hormonal control of renal and systemic glutamine metabolism. J Nutr. 130:995S.

21 comentários:

  1. Já sigo o seu blog há algum tempo.
    Gostei muito do artigo com respeito a parte cientifica, no entanto na pratica não funciona bem assim, pelo menos não no meu corpo.

    Atingir o estado de cetose benigna é extremamente fácil (em 1 semana chega-se a 2.5 mmol/L)com uma dieta de 25-5-70% (Prot,Glic.Lip, respectivamente)

    cerca de 2000 cal dia para 77,9KG com 17,4 de BF.

    64.3 Kg de massa magra é unicamente o que necessita de ser alimentado com:

    2.046 Kcal
    511 kcal
    102 kcal
    1.432 kcal
    Respectivamente:
    341 kcal/meal gram per 6 meals
    128 gr 21 gr
    26 gr 4 gr
    159 gr 27 gr

    Isto são valores aproximados pois:
    Por vezes o diario passou das 2gr de prot. por Kg de Massa magra e cheguei a aumentar os Glic. até as 100gr mantendo a cetose nos 1.6mmol/L.

    É certo que nem todos os metabolismos são iguais mas a base da alimentação Atkins realmente funciona.

    Saude


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    1. Prezado Anônimo

      Também segui, li o livro sobre a Dieta de Atkins. Estudei os alimentos sugeridos. Zerei o carboidrato durante 4 dias e não entrei em cetose. Hoje estou no 5o. dia na dúvida se sigo ou suspendo. E eu preciso perde só 5 quilos! Pode me ajudar? Comprei as fitas, enfim...

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    2. Em alguns casos pode demorar mais do que 4 dias...

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    3. Sou novata na dieta Atkins e em 1 mês só entrei em cetose profunda 1 vez e durou aproximadamente 1 semana. e percebi que neste período não senti fome. Só que só consegui entrar na cetose forte em jejum. Alguém me ajude: gostaria de entrar na cetose mas sem fazer jejum. Quais alimentos devem ser evitados? Alguém sabe? Obrigada pela atenção!!!

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  2. O consumo de BCAAs interfere nos níveis de insulina, prejudicando a cetose, tal como acontece com a glutamina?

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    1. Olá Cláudia,


      Será bem menos marcado uma vez que o metabolismo dos BCAA é praticamente exclusivo dos tecidos periféricos. No entantanto há que considerar o efeito insulinotrópico que possam ter,

      Cumprimentos

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    2. Obrigada por sua atenção e resposta!

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  3. Acredito que proteínas demais atrapalhe sim o estado cetogenico do organismo, mas controla-las demais torna uma dieta impraticável de se fazer...o artigo é bom , mas ainda o acho incompleto pq me pergunto, qto de proteina seria necessário comer sem que estivéssemos incorrendo no erro de estar atrapalhando o processo de cetose do organismo? é via de regra q o q se come em excesso vira glicose pelo processo de gliconeogenese, mas será que essa glicose transformada dispara a fome como as vias normais? e esse nível de cetogenese diminuído após ingestão de proteínas em excesso, foi comprovado como? pela cetonuria? é sabido que a cetonuria diminua com o tempo, q é qdo nosso corpo otimiza melhor a utilização dos corpos cetonicos, mas isso nao quer dizer que cetonuria baixa seja baixa cetogenese... esse artigo me confundiu um pouco....

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  4. Não tenho experiência com cetose, nem na medição dos corpos cetónicos. Leio no entanto bastante sobre o assunto que me interessa, em particular o blog do Andreas Eenfeldt, mais conhecido como diet doctor. Escrevo este comentário para chamar à discussão o facto de ser usar uma fita para medir corpos cetónicos na urina, que ao que parece são pouco fidedignos para medir a cetose "fisiológica", pelo menos a longo prazo. Qual o seu valor real para detectar que alguém passou de um estado sem cetose para cetose e para documentar que o estado de cetose está a ser mantido e num nível desejável? Alguém sabe sobre o assunto? Boa discussão!

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  5. Odeio quando alguém escreve em um comentário: Boa discussão. O que esperam com isso?

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  6. Bom, pelo que vi, ha poucas possibilidades de um estado de cetose real.
    Pois qual os alimentos ingeridos que não terminariam com o estado de cetose.
    A lita seria muito restrira não é? Ou quase nula.
    Cintia.

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  7. Quem andar em dietas ketogenicas e um dia vir as suas mitocondrias disfuncionais e coma respiracao celular danificada, lembrem-se dos habitos alimentares. Individuos em ketose ha 2 anos voltam à dieta normal. Se uma pessoa nao é diabetica, para que fazer dieta diabetica?

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    1. melhor que morrer de infarto por excesso de obesidade.

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    2. existem indivíduos ha mais de 10 anos em cetose e ainda vivem. Era bom que a associação mundial contra os diabetes promovesse aos seus doentes este tipo de WOE (way of eating). Como se sabe, promovem dietas ricas em hidratos juntamente com insulina artifical para sobremesa.

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  8. Pq alguns dizem que essa dieta soh funciona da primeira vez? Qual eh a explicacao?

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    1. Comigo foi assim, perdi 20kg com a dieta Dukan, logo após eu voltei a comer normalmente como antes da dieta e acabei engordando 10kg, agora comecei a paleo, já estou cetoadaptado, jejum intermitente de 16hrs todos os dias e não perdi um único kg, isso a 40 dias do início da dieta paleo. Ainda tenho muita gordura corporal(pança bem grande).

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    2. Comigo foi assim, perdi 20kg com a dieta Dukan, logo após eu voltei a comer normalmente como antes da dieta e acabei engordando 10kg, agora comecei a paleo, já estou cetoadaptado, jejum intermitente de 16hrs todos os dias e não perdi um único kg, isso a 40 dias do início da dieta paleo. Ainda tenho muita gordura corporal(pança bem grande).

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  9. Estou a três dias sem carbo e já estou em cetose.

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  10. Pessoal, boa noite!

    Vamos lá, resumindo alguns comentários de pessoas que informam que não entraram em cetose.

    Voce deve dividir sua dieta + ou - assim.
    60 até 70% de Gordura
    30 até 40% de Proteína
    e 5 até 10% de Carboidrato

    tente colocar 1,5 ou 2g de Proteína por kg
    Proteína em excesso vira energia extra, que vira gordura localizada.

    A ideia de ter gordura a mais que proteína é a seguinte, seu corpo é muito inteligente e quando reduzir o carboidrato, ele vai procurar da fonte em excesso em seu corpo, muita gente introduz altas quantidades de proteínas, então o corpo pega o excesso de proteína e armazena como reserva de energia, e quanto a sua massa magra ele usa ela como energia para poder conservar a gordura existente em seu estoque.
    você vai achar que está perdendo peso (gordura), mas na verdade só está jogando massa magra para fora.

    Agora veja abaixo a explicação completa de Gordura, Proteína e Carboidrato na dieta cetogênica.

    Colocando quantidade de 60 até 70% de gordura boa, seu corpo vai entender que tem algo em excesso entrando, então ele pode ser usado como fonte de energia momentânea, então ele passar a usa-la, após o terminar de utiliza-la ele vai buscar no estoque exatamente o que ele estava queimando antes (Gordura).

    Colocando apenas 30 até 40% de proteína, você estará protegendo sua massa magra existente, assim você não queima ela.

    A questão dos carboidratos baixo, acredito que seja para não sentir tanto os sintomas de tontura, bafo, estresse ou coisas assim, e claro, para que o carboidrato não seja utilizado como energia.

    Para entrar em cetose, basta seguir a risca as dicas do post e mais essa leitura, estudos indicam que para iniciar a cetose seria bom começar com um jejum de 24h, e depois as dietas cetogênicas.

    Quando falei de gordura, me refiro a gorduras boas.
    Lembre-se, tudo precisa ser de qualidade, os carboidratos que ingerir, as proteínas e as gorduras.

    Atualmente tenho seguido a dieta, e estou indo muito bem.

    Quem precisar de ajuda ou quiser tirar dúvidas pode me procurar no e-mail pv.rangel13@gmail.com fique tranquilo que esse é um e-mail que nunca vai deixar de existir (claro, se o gmail resolver me banir, ai já era), penso em fazer faculdade de nutrição, quero ajudar as pessoas a se livrarem desse medo de emagrecer dessas coisas de que não posso, não tenho força de vontade ou minhas condições financeiras não permitem.

    A dieta que sigo, fui eu mesmo que elaborei, e com baixo custo.

    não sou especializado na areá, por isso digo: POSSO DAR DICAS, MAS SÓ UM NUTRICIONISTA ESPECIALIZADO PODE DE PASSAR UMA DIETA, sem falar que ele vai te pedir para fazer uma penca de exames que são necessários para saber se você tem algum problema.

    Obrigado a todos.

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  11. Mas quais os alimentos que você consome?

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