25 de fevereiro de 2011

Round 1: Special K vs Rice Krispies

Hoje decidi fazer aqui um pequeno exercício convosco e comparar dois produtos da Kellogg’s bastante procurados: o “Special K” e o “Rice Krispies”. Estes dois cereais de pequeno-almoço têm, como sabem, dois targets completamente distintos. Enquanto os primeiros se destinam a pessoas preocupadas em controlar o seu peso, os últimos são dirigidos a crianças que geralmente adoram estas guloseimas. Escolhi estes produtos porque os "Special K" são os "Special K" e eu confesso que gosto bastante de cereais de arroz estufado, como os “Rice Krispies”. É "óbvio" que o “Special K” é mais saudável e, citando a marca, são “deliciosos e estaladiços cereais de arroz e trigo que ajudam a cuidar da sua alimentação. Special K ajuda-a a cuidar de si, para que se sinta sempre muito especial.” A primeira coisa que podemos deduzir daqui é que os homens não os podem comer ou pelo menos isso pode afectar a sua masculinidade. Mas comparemos os dois mais de perto:



Ingredientes do “Special K”: Arroz, trigo (trigo integral, farinha de trigo), açúcar, glúten de trigo, leite magro em pó, gérmen de trigo com redução de gorduras, sal, aroma de malte de cevada, vitamina C, niacina, ferro, vitamina B6, riboflavina (B2), tiamina (B1), ácido fólico, vitamina D, vitamina B12.






Ingredientes do “Rice Krispies”: Arroz, açúcar, sal, aroma de malte de cevada, niacina, ferro, vitamina B6, riboflavina (B2), tiamina (B1), ácido fólico, vitamina D, vitamina B12.








Tabela nutricional do "Special K" e "Rice Krispies". Clique para ampliar.


Comecemos pelos ingredientes. Caso não saiba, os ingredientes são sempre listados por ordem de quantidade relativa, do componente presente em maior quantidade para o em menor. O “Special K” deve ser super saudável porque tem ali a palavra “integral” e “redução de gorduras”. Estes são feitos de arroz e trigo enquanto que os "Krispies" são exclusivamente de arroz. Claro que ambos têm açúcar e sal caso contrário ninguém os comia e são aromatizados com malte.Quanto às vitaminas e minerais, estes estão descritos na tabela nutricional (acima) mas são irrelevantes para o caso.

Analisando muito superficialmente as tabelas nutricionais, constatamos que o “Special K” tem mais proteína, a mesma quantidade de lípidos (ligeiramente mais de saturados), menos 9g de hidratos de carbono totais e mais fibras. Surpreendentemente, o "Special K" tem mais do dobro dos açúcares presentes nos "Rice Krispies". Quanto à densidade energética, o "Special K" tem 379kcal/100g e o "Rice Krispies" 384kcal/100g.

Por esta altura já deve sabe o que é o Índice Glicémico (IG). Basicamente, ele compara a relação entre a glicemia após a ingestão de um determinado alimento com uma dosagem de glicose em quantidade equivalente aos hidratos de carbono presentes no alimento teste. São construídas duas curvas de glicemia x tempo (2h) e a diferença relativa entre os integrais de cada uma dão-nos o IG. Parece complicado mas é bastante simples. Um alimento com um IG de 50 provoca uma elevação da glicose no sangue que é 50%, metade, da provocada por uma dose oral de glicose pura em quantidade equivalente. Apenas isto. Eu fui pesquisar os IG de ambos e os valores são de 84 para o “Special K” e 82 para o “Rice Krispies”. Para facilitar a vida, coloquei os links para um site que se baseia nos valores tabelados no artigo que está na página "Links úteis" do blog. 

Vamos esquecer por momentos os nomes dos produtos. Se olhar exclusivamente para os ingredientes, tabela nutricional e IG, qual lhe parece mais saudável? Eu respondo… nem um nem outro. São ambos igualmente maus. O Special K tem mais proteína e mais 1.5g de fibra por cada 100g… mas alguém conta com a proteína dos cereais para alguma coisa? E essa diferença insignificante de fibra interessa para…? Bom… então os Krispies até têm metade do açúcar… mas também não é isso que os torna mais saudáveis. Da próxima vez que for às compras, não se deixe influenciar pela embalagem. Olhe para os rótulos e conheça o produto que vai comprar. A informação que precisa está toda lá e apenas lá.

Sérgio Veloso
srsveloso@gmail.com

6 comentários:

  1. O grande problema disto tudo começa quando as pessoas deixaram de olhar para os alimentos, e começaram a basear-se estritamente em rótulos listando nutrientes. A alimentação até deixou de se chamar alimentação para passar a designar-se nutrição. Acho que é a isto que chamam de Nutricionismo. Faz sentido, porque os alimentos apenas alimentam, os nutrientes é que verdadeiramente nutrem. Ambos os produtos são low-fat, portanto com uma ideologia de base que já sabemos o que vale na prevenção da obesidade. O Rice Krispies tem mais hidratos totais (amidos e açúcar), mas as cargas glicémicas são iguais talvez pelo malte de cevada do Special K, que julgo ser um açúcar fermentável. Estará contabilizado nos açúcares totais do Special K? Em diabéticos e/ou insulino-resistentes a carga glicémica do Special K, devido aos 17% de açúcar, não será bem pior? Os ingredientes estão hierarquizados por importância, mas um truque para dissimular vários açúcares é introduzir vários com nomes diferentes (açúcar de cana, xarope de frutose de milho, maltodextrina, xarope de maltitol, etc). A densidade nutricional dos alimentos ancestrais é incomparável com a destes produtos industrializados com interesse alimentar praticamente nulo. Peixe/carne têm 20% de proteína de alto valor biológico. E não só. Vegetais/fruta têm incomparáveis quantidades de vitaminas/minerais e fibras. E provavelmente com uma biodisponibilidade muito superior, pois não estão associados a alimentos neolíticos com inúmeros anti-nutrientes. São estes os alimentos que o nosso corpo espera receber. O trigo/glúten não só é um desregulador do perfil lipídico, como também possui inúmeros anti-nutrientes (ácido fítico, inibidores enzimáticos, etc.), designadamente lectinas que podem estar implicadas na doença cardiovascular. O ácido fítico dos cereais possui acção quelante, liga-se no intestino a diversos minerais bloqueando a sua absorção e causando deficiências minerais. Permeabilidade intestinal, desregulação de rácios ómega-3/6, inflamação, auto-imunidade e doença celíaca são coisas intimamente associadas aos cereais e açucares. Ao invés de um pequeno-almoço à base de cereais integrais saudáveis, não seria preferível e mais racional um jejum até à hora do almoço? Em suma, pelo menos a meu ver, estes alimentos modernos, manufacturados "à medida", são sempre inferiores aos alimentos ancestrais com que o nosso genoma foi moldado ao longo de milhões de anos. Fuel novo em genes paleolíticos é uma ideia moderna que, notoriamente, não está a dar resultados.

    ResponderEliminar
  2. Não creio que o impacto em diabéticos seja significativamente diferente. Fazendo as contas para uma dose de 100g, o GL dos "K" é 64 e dos "Krispies é 70". Claro que são porções elevadas mas mas assim facilita as contas e já dá para ver a proporção. O açúcar na lista de ingredientes, quando não é dito mais nada, é sacarose, que acaba por ter um IG de 70. Como sabes, os açucares não têm necessariamente um IG muito elevado e as polidextroses, especialmente as amilopectinas, têm um IG bem mais alto. Nestes alimentos à base de cereais, com quantidades mto semelhantes de carbs, o GL acaba por ser sempre muito parecido. Quanto ao que disseste, concordo com tudo excepto uma coisa. Não acho que seja preferível um jejum... contesto é a ideia de que o pequeno almoço tem de ter cereais e leite... é uma refeição como as outras.

    ResponderEliminar
  3. muito interessante o post e ainda mais os 2 comentários que se seguiram

    ResponderEliminar
  4. Na realidade, os Special K são óptimos para comer como se fossem pipocas :P
    Mas como pequeno-almoço, os Cheerios 3 cereais :D
    (para variar recorre-se às Estrelitas!)

    ResponderEliminar
  5. Vêm em pacote com prazo de validade, logo não são alimentos.

    ResponderEliminar
  6. Lembro-me de ver na caixa de um destes cereais uma comparação nutricional de uma taça dos dito-cujos, com outros alimentos, uma maça e um copo de leite , um pão com queijo e fiambre e um sumo de fruta. Em todas elas os ditos cereais eram os vencedores, pois continham menos calorias! É impressionante até onde chegam os escrúpulos (ou a falta deles) desta gente! Ainda bem que agora os da Nestlé contêm todos "Cereais Integrais"... Seja lá o que isso for! Enfim, fico sem palavras para expressar a minha indignação! Bom trabalho Sérgio! Continua assim!

    ResponderEliminar