30 de março de 2011

Revisão sugere que a restrição calórica intermitente favorece a conservação de massa magra em dieta


Prevalece uma crença generalizada de que as dietas para perda de peso devem consistir numa restrição calórica diária e com uma elevada frequência de refeições. No entanto, existem alguns argumentos contra esta noção, muito envolvida em mitos pouco fundamentados. Cada vez mais pessoas adoptam regimes de restrição calórica intermitente (ICR) em vez de restrição calórica diária (DCR), considerando-os mais fáceis de seguir. A questão que se coloca é: qual dos métodos é o mais eficaz? K.A. Varady tentou responder a esta pergunta numa revisão recente publicada no Obesity Reviews.

28 de março de 2011

As dietas hiperproteicas podem aumentar o risco de cancro do cólon?


Felizmente que sigo a msnbc.com no Twitter para me alertar dos riscos de uma dieta hiperproteica. Há uns dias atrás foi publicada uma notícia da Reuters com o título “High-protein diets may raise colon cancer risk”. Claro que a manchete despertou o meu interesse e, como jogo sempre na defensiva com artigos jornalísticos, fui ler o paper citado. Uma experiência algo bizarra e desconcertante que quero partilhar convosco.

27 de março de 2011

Dietas low-fat para o tratamento da hipercolesteremia: uma "Cochrane Review"


Toda a gente sabe que a melhor intervenção alimentar para baixar o colesterol é seguir uma dieta baixa em gorduras, em particular em gorduras saturadas, essas malvadas. Pelo menos é essa a ideia que nos tentam vender. Embora tenha as minhas dúvidas que a colesteremia seja um factor causal directo da aterosclerose, admito que de facto as LDL estejam relacionadas com o risco cardiovascular e que possam ser bons indicadores clínicos. Onde ponho muitas dúvidas é na associação directa entre o teor lipídico e em colesterol da dieta com a colesteremia e risco cardiovascular. Uma revisão recente da “The Cochrane Collaboration” aborda a eficácia das intervenções dietéticas low-fat para o tratamento da hipercolesteremia adquirida. Uma ideia tão cimentada como a relação entre a gordura e o colesterol no sangue deverá ter certamente o suporte de numerosos ensaios clínicos que verificam, ou pelo menos reforçam, a causalidade entre as variáveis. Os resultados desta análise sistemática foram surpreendentes.

26 de março de 2011

A religião também engorda!


Um estudo apresentado esta semana numa conferência da American Heart Association mostra que os jovens que frequentam assiduamente os serviços religiosos têm uma probabilidade 50% maior de obesidade em adulto, mesmo depois de ajustado ao sexo, idade, etnia, educação, rendimentos e outros factores influentes na variável em análise.

25 de março de 2011

O preço da proteína e o excedente energético


As políticas económicas com impacto na saúde pública sempre foram um tema do meu interesse e em que me tento manter o mais actualizado possível dentro das minhas limitações na disciplina. A obesidade é hoje um dos maiores problemas sócio-económicos e cujas implicações vão bem além dos gastos comunitários directos com os cuidados de saúde. Manifestam-se na produtividade, morbilidade e, de forma secundária, até no ecossistema. O consumo excessivo de alimentos densos em energia é provavelmente o factor determinante para a obesidade no ambiente farto actual. É necessário compreender a razão deste consumo desmedido e encontrar políticas que atenuem o seu impacto. Nas sociedades humanas modernas, a economia é um factor extra-biológico que manipula as nossas escolhas e comportamentos como nenhum outro. É provavelmente o melhor alvo de intervenção para um combate eficaz e com resultados rápidos à epidemia da obesidade. RC Brooks faz uma proposta interessante num artigo recente publicado na Obesity Reviews que vou partilhar e discutir convosco.

22 de março de 2011

Dietas hiperproteicas e a função renal


Uma das maiores preocupações de quem segue uma dieta hiperproteicas, tanto para perda de peso como para aumento de massa muscular, é o possível efeito deletério na função renal. Para quem saiu da universidade de medicina, é fácil e lógico associar um elevado consumo de proteína alimentar com um maior risco de desenvolver doença renal crónica. No entanto, os poucos estudos de intervenção em pessoas saudáveis não suportam esta perspectiva. Mas embora não existam evidências de que a proteína é um factor causal de patologia renal, a possibilidade teórica de um efeito agravante não deve ser menosprezada. Para além do mais, nem todas as dietas hiperproteicas são iguais.

20 de março de 2011

Mais um filme sobre dietas: "Forks Over Knives"


No passado dia 11 de Março estreou mais um filme sobre a alimentação e as "doenças da abundância". Depois do "Super Size Me", "Food Inc", "Fast Food Nation" e outros que não me recordo ou não conheço, é a vez de Forks Over Knives". Mas este é diferente. Trata-se de propaganda pró-vegetarianismo (quase no Vegan já) e conta com a colaboração de reconhecidas autoridades deste movimento como Caldwell Esselstyn, MD, e T. Colin Campbell, PhD, ambos consultores da Whole Foods Market que financia o filme.

18 de março de 2011

Afinal não é preciso ter Doença Celíaca ou alergia para ser sensível ao glúten!


Intestino irritável, dores de cabeça, fadiga, depressão. Muitas pessoas se queixam destes sintomas e, depois de vários diagnósticos falhados, algum médico mais esclarecido pede testes imunológicos para despistar doença celíaca ou alergia ao trigo, mas nada… não existe qualquer reacção autoimune ou alérgica e nenhum dos marcadores convencionais está presente. O mais provável é que o paciente seja mandado para a psiquiatria. O curioso é que os sintomas desaparecem subitamente quando o glúten é excluído da dieta. Mas é impossível! Está tudo na cabeça do doente… ou não.

17 de março de 2011

Comentário à notícia do Sol: "Para combater a obesidade comer como no Paleolítico!?"

Arthur De Vany

Mais uma vez um exemplo de mau jornalismo, agora no Sol., que no passado dia 15 de Março publicou o artigo "Para combater a obesidade comer como no Paleolítico!?". Na verdade não entendi a que propósito surgiu, se algum, mas noto no "tom" do texto alguma ironia que me parece uma tentativa de ridicularizar a corrente "Paleo", que conta com cada vez mais adeptos. E não lhe chamo "dieta" propositadamente. Mais do que uma dieta, é um modo de vida que, apesar de não ser o meu, acho fascinante e tento acompanhar de perto. A minha perspectiva é um pouco mais moderada mas vai buscar muito à premissa básica: o Neolítico foi uma ruptura recente com milhões de anos de história evolutiva, para a qual ainda não houve tempo (nem condições) de adaptação. É uma ideia polémica sugerida há cerca de meio século por James Neel no conceito de "Thrifty Genotype", uma teoria elegante que, no fracasso total da abordagem moderna para o combate à obesidade, deveria ser debatida por quem tem responsabilidades em saúde pública. Até lá, vai sendo debatida por nós...

16 de março de 2011

Um pouco mais sobre o CLA: mecanismos de acção, resultados e possíveis riscos


Depois do artigo no jornal “i” sobre os efeitos milagrosos do CLA descobertos por uma equipa de investigadores portugueses, quase que me senti “obrigado” a escrever um pouco sobre os resultados conhecidos dos numerosos ensaios em humanos e animais. O referido estudo português, sobre o qual muito pouco se sabe, afirma que a suplementação com 3.2 g de CLA por dia induz uma perda de 6 kg em média, sem exercício, em apenas 3 meses. Muito pouco é referido em relação à dieta pelo que temos de esperar até o trabalho ser publicado. A ser verdade, estes resultados são bem mais impressionantes do que os poucos estudos precedentes que verificaram algum efeito da suplementação com CLA no peso corporal em humanos. A inconsistência dos dados disponíveis não permitiu até hoje demonstrar que o CLA induz de facto a perda significativa de gordura, uma conclusão evidenciada recentemente pela posição da EFSA sobre a matéria. Além disso, os estudos in vivo e in vitro levantam algumas dúvidas quanto à segurança do CLA e ao preço metabólico que temos de pagar pelo eventual efeito lipolítico.

Afinal o milagre do CLA é só na "cabeça" do i

A notícia do jornal i sobre o milagre do CLA não passou despercebida a ninguém, embora não pelas melhores razões. Deixo aqui um vídeo com os próprios investigadores e descubra as diferenças...



De facto foi um péssimo trabalho jornalístico que descredibilizou uma equipa idónea até prova em contrário. Ah... e afinal não é sem dieta. Também não ouvi nada sobre tomar o CLA toda a vida porque é "natural"... A nota de imprensa foi claramente deturpada, propositadamente ou por mera falta de educação científica por parte do redactor. Congratulo os investigadores pela publicação e lembro que, como diria Brendan Behan, "there is no such thing as bad publicity except your own obituary".



15 de março de 2011

Os hidratos de carbono podem estar associados ao desenvolvimento de Doença Renal Crónica


Já ouvi tantas vezes dizer que a proteína alimentar afecta a função renal que quase me vencem pelo cansaço. Embora não existam evidências de que a proteína seja causa directa de disfunção renal, não saio do consultório médico sem uma advertência quanto ao consumo “excessivo”, embora não exista qualquer indício de dano estrutural ou funcional nos meus rins. Por vingança, quero partilhar convosco um artigo recente publicado no “The Journal of Nutrition” que associa pela primeira vez o consumo de hidratos de carbono com a doença renal crónica.

14 de março de 2011

É diabético ou tem peso a mais? Pela sua saúde, faça musculação


Durante muitos anos a estratégia de combate à obesidade e outros factores de risco cardiometabólicos, como a diabetes e resistência à insulina, centrou-se em intervenções no regime alimentar. Hoje é reconhecido, e bem, que o exercício físico e uma dieta saudável têm um efeito sinérgico no controlo destas patologias. São muitos os estudos que comprovam os benefícios do treino aeróbico, mas menos existem a abordar o efeito da musculação. Na verdade, os últimos anos foram férteis em indícios de que o treino de resistência muscular favorece o controlo da glicemia e do peso corporal, e, arrisco a dizê-lo, de uma forma mais proveitosa do que o treino aeróbio exclusivo.

13 de março de 2011

“Blast from the Past: Medical & Clinical”, uma palestra de Robb Wolf


Descobri na internet uma talk bastante interessante que quero partilhar convosco. A California State University promove fóruns semanais de antropologia e a 10 de Fevereiro o convidado foi Robb Wolf que fez uma palestra intitulada “Blast from the Past: Medical & Clinical”.

12 de março de 2011

Como é feito o creme de ovos?


Um dos meus hobbies, se é que se pode chamar isso, é descobrir como são feitos alguns dos alimentos e ingredientes mais banais. Analisar a tabela nutricional e principalmente a lista de ingredientes. Foi então que pedi a um amigo pasteleiro para me arranjar alguns rótulos de produtos para uso profissional na confecção dos bolos mais comuns e o creme de ovos está presente em vários, desde as bolas de berlim aos mil-folhas etc. Quando li a lista de ingredientes do creme de ovos...

11 de março de 2011

Comentário ao artigo de primeira página do "i" sobre a eficácia do CLA


Hoje bem cedo estava a ver as manchetes da imprensa diária quando me deparo com a primeira página do "i". Estava em destaque uma notícia com o título "Estudo português prova que tomar CLA faz mesmo perder peso". Estranhei a importância que lhe deram e fui ler na expectativa de encontrar alguma novidade. Não só fiquei desiludido como revoltado com a fraca qualidade do artigo.

10 de março de 2011

Uma caloria não é só uma caloria...


Julgo que ninguém contesta os efeitos e resultados particulares de cada abordagem dietética, caso contrário não existiriam tantas por ai, algumas bastante imaginativas diga-se. Uma coisa em que variam substancialmente é a proporção dos macronutrientes, mas a dieta ocidental típica enquadra-se dentro das recomendações oficiais, com um rácio 60-65:10-15:20-30 (hidratos de carbono:proteína:gordura). Como sabem, eu e muitos outros (felizmente) defendemos que os hidratos de carbono estão sobre-valorizados e sobre-representados na dieta comum e que isso poderá estar contribuir para o fenómeno da obesidade. A minha preocupação neste blog é apresentar as justificações para tal, com ênfase nos aspectos fisiológicos e metabólicos. Mas, apesar de as evidências se empilharem para quem as quer ver, não é fácil contrariar anos de formatação mental para dietas dominadas pelos cereais, lacticínios e açúcares simples. Suzanne Devkota, investigadora da Universidade de Chigaco, deu-me recentemente mais uma ajuda num artigo a ser publicado na revista Nutrition & Metabolism e que vou aqui discutir convosco.

8 de março de 2011

Comer de 2 em 2 horas? Porque não 4? Ou 10 min?


Uma das recomendações mais frequentes nas dietas tradicionais é comer de 2 em 2 horas, quer seja com o objectivo de ganhar ou de perder peso. Enquanto que no primeiro caso a razão prende-se com a manutenção de um estado anabólico constante, nas dietas de restrição calórica procura-se evitar o binge eating, manter um metabolismo elevado e níveis constantes de glicemia. Mas uma coisa que geralmente não vem referida é o porquê das 2 horas. Porque não 4 ou 5? Porque não 1 h ou 10 min?

7 de março de 2011

O contributo da climatização para o excesso de peso



Pensar que a obesidade, a um nível epidemiológico, apenas está relacionada com os hábitos alimentares e actividade física é redutor e não faz justiça à complexidade da doença (sim… é uma doença crónica). A obesidade é multifactorial e existem aspectos ambientais e genéticos que, embora com um contributo menor, actuam sinergicamente com os comportamentos humanos no desequilibro do balanço energético. Um deles é a climatização. Desde os anos 60 que os aparelhos de climatização e aquecimento fazem parte das nossas vidas. A tendência até aos dias de hoje sempre foi um aumento do tempo passado no interior dos edifícios, eles próprios já construídos para uma maior eficiência energética e conservação de calor. Disto resulta uma restrição da amplitude de temperaturas a que o nosso organismo está exposto durante o ano e à redução do stress térmico que experimentamos. Existem alguns indícios de que estes efeitos poderão estar relacionados com um menor dispêndio energético e, hipoteticamente, à prevalência de obesidade nos países industrializados.

4 de março de 2011

A esquizofrenia das recomendações dietéticas


As evidências são claras: a saúde humana está em declínio e a principal razão são os maus hábitos alimentares e falta de exercício físico. Vários painéis de especialistas se têm reunido no sentido de analisar e sistematizar os dados dos milhares de estudos que foram realizados nas últimas décadas sobre a relação entre a dieta e indicadores de saúde. As primeiras recomendações oficiais no sentido de combater a obesidade, diabetes e doença cardiovascular datam de há mais de 3 décadas e, de forma genérica, recomendam um aumento no consumo de hidratos de carbono, diminuição das gorduras totais, gordura saturada, colesterol e sal. No entanto, já nessa altura houve quem criticasse tais recomendações, argumentando que "a importância das alterações no padrão alimentar é controversa e a ciência não pode, nesta altura [1977], assegurar que uma dieta diferente proteja de doenças". 33 anos mais tarde, o 2010 Dietary Guidelines Advisory Committee (DGAC) teve uma oportunidade única para esclarecer estas dúvidas mas o relatório continuou com recomendações baseadas em evidências frágeis e contraditórias. Vejamos alguns exemplos retirados do próprio relatório.

3 de março de 2011

Os antioxidantes, take II: alteração da função cardíaca


Já aqui abordei os potenciais efeitos adversos da suplementação com antioxidantes que se tornou moda na hoje em dial. Investigadores do Institutet Karolinska, na Suécia, dão mais um contributo com a descoberta recente de uma nova função dos radicais livres na fisiologia cardíaca.

2 de março de 2011

A obesidade não é um problema apenas no Homem, mas também no seu melhor amigo

Não é só no Homem que a obesidade tem vindo a crescer e os animais de estimação também sofrem do mesmo problema segundo um estudo recente da “Association for Pet Obesity Prevention” que, numa colaboração a nível mundial, encontrou uma prevalência de excesso de peso em 55% dos animais domésticos. 

1 de março de 2011

A soja e a redução dos níveis de testosterona nos homens


Há séculos que a soja faz parte da dieta oriental mas só há algumas décadas ganhou importância no Ocidente, especialmente em certos segmentos da população mais preocupados com a sua saúde. Para isto contribuíram alguns estudos epidemiológicos que sugerem potenciais benefícios da soja e a aprovação pela FDA em 1999 da legislação que permite a rotulagem da soja como benéfica para alguns parâmetros cardiovasculares. O consumo de soja nos países orientais parece correlacionar-se de forma inversa com a incidência de cancro da mama e próstata, doenças cardiovasculares e osteoporose. A soja tornou-se então um ponto de convergência entre o público alerta para estas questões e a própria indústria, para a qual a soja representa uma matéria-prima muito rentável e versátil. No entanto, a descoberta da presença de disruptores endócrinos naturais na soja levanta algumas preocupações quanto a possíveis efeitos adversos na saúde, especialmente em homens e crianças.