17 de março de 2011

Comentário à notícia do Sol: "Para combater a obesidade comer como no Paleolítico!?"

Arthur De Vany

Mais uma vez um exemplo de mau jornalismo, agora no Sol., que no passado dia 15 de Março publicou o artigo "Para combater a obesidade comer como no Paleolítico!?". Na verdade não entendi a que propósito surgiu, se algum, mas noto no "tom" do texto alguma ironia que me parece uma tentativa de ridicularizar a corrente "Paleo", que conta com cada vez mais adeptos. E não lhe chamo "dieta" propositadamente. Mais do que uma dieta, é um modo de vida que, apesar de não ser o meu, acho fascinante e tento acompanhar de perto. A minha perspectiva é um pouco mais moderada mas vai buscar muito à premissa básica: o Neolítico foi uma ruptura recente com milhões de anos de história evolutiva, para a qual ainda não houve tempo (nem condições) de adaptação. É uma ideia polémica sugerida há cerca de meio século por James Neel no conceito de "Thrifty Genotype", uma teoria elegante que, no fracasso total da abordagem moderna para o combate à obesidade, deveria ser debatida por quem tem responsabilidades em saúde pública. Até lá, vai sendo debatida por nós...


Mas aqui fica a notícia:

Para combater a obesidade comer como no Paleolítico!? 
De acordo com a dieta proposta pelo economista americano, Arthur De Vany, no livro The New Evolution Diet, o ser humano deve comer apenas aquilo que poderia caçar ou tirar da terra, como um homem das cavernas. 
Há pelo menos duas décadas, De Vany, que lecciona na Universidade da Califórnia, segue uma dieta paleolítica semelhante à de um Fred Flinstone moderno: muita carne, frutas e vegetais. 
O argumento principal dos defensores desta ementa - inspirada na alimentação humana de há 40 mil anos atrás - é o de que o DNA humano não está adaptado para comer alimentos industrializados. 
De Vany explica que, hoje em dia, «vivemos mais tempo do que no Paleolítico, mas passamos a maior parte da vida doentes». Na sua opinião, a forma de evitar as doenças crónicas e a obesidade é praticando um regime alimentar que seria praticado há 500 gerações atrás. 
O investigador português Pedro Carrera Bastos, da Universidade de Lund, na Suécia, concorda: «As necessidades dietéticas são determinadas geneticamente. As alterações ambientais, sociais e culturais dos últimos 10 mil anos são recentes numa escala evolucionista» e explica que 70% das calorias ingeridas hoje são de alimentos que não existiam. 
De acordo com a edição online da Folha de São Paulo, Loren Cordain, investigador de Ciências da Saúde da Universidade do Colorado (EUA), é um dos grandes defensores desta dieta.
Em 2002, lançou o livro The Paleo Diet, com receitas para «perder peso e ganhar saúde». No início do livro explica: «Não inventei esta dieta, ela está inscrita nos nossos genes», diz, no começo do livro. 
A paleodieta tem algumas premissas polémicas. Para além de desconstruir a pirâmide alimentar tradicional, recomenda que períodos de jejum sejam alternados com refeições fartas e momentos de exercício espaçados por grandes momentos de ócio. 
Os hidratos de carbono ingerido são apenas aqueles que estão presentes nas frutas. Os cereiais estão totalmente proibidos, incluindo a soja e o trigo, porque acreditam que todos os cereais têm efeitos adversos. 
Os nutricionistas, bem como as organizações internacionais de saúde, discordam.
SOL
Pode ser uma percepção errada, mas as alusões a "homem das cavernas" e "Fred Flinstone" parecem assumir no texto o sentido do ridículo e jocoso. O autor deste artigo obviamente não pesquisou devidamente sobre esta "dieta". Se o tivesse feito, não tinha ido ao "Folha de São Paulo" saber quem é o Professor Loren Cordain que em 2009 esteve em Portugal no âmbito da conferência "Nutrição e Doenças da Civilização". É o "pai" deste movimento.

O investigador Pedro Carrera Bastos também não caiu do céu. Trabalha em colaboração com o próprio Loren Cordain, mas também com outras autoridades da "nutrição evolutiva" como Staffan Lindeberg e Frits Muskiet. Recentemente foi primeiro autor do artigo "The western diet and lifestyle and diseases of civilization", por muitos aclamado como a melhor revisão de sempre sobre a temática, alvo de milhares de downloads nos primeiros dias após publicação. Tive o prazer de o conhecer através deste mesmo blogue.

Mas se já falámos do "pai", falta falar do avô, Arthur De Vany, que conta já 73 anos de idade. Há décadas que este economista vive ao estilo "Paleo". Foi o diagnóstico de diabetes ao seu filho e esposa que o levou a este estilo de vida, que, como podem ver no video que se segue, não me parece que lhe tenha feito mal...

Como uma imagem vale mais que mil palavras...



Já foram aqui abordados alguns assuntos que respeitam a este estilo de vida e muitos outros o serão no futuro. Friso que não é a minha filosofia (oscilo no meio-termo), mas se me perguntarem se poderia beneficiar dela, eu respondo com um "é muito provável". É algo que deveria ser levado mais a sério...



1 comentário:

  1. O artigo do SOL em questão deriva de um fraco artigo publicado na Folha/Brasil. Este artigo original é mesmo muito mau, e tendencioso ao tentar ridicularizar uma abordagem científica credível. Repare-se na pirâmide paleolítica, onde inventaram uma torneira a verter água. Um disparate completo, só possível em jornalismo de fraca qualidade.

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