4 de março de 2011

A esquizofrenia das recomendações dietéticas


As evidências são claras: a saúde humana está em declínio e a principal razão são os maus hábitos alimentares e falta de exercício físico. Vários painéis de especialistas se têm reunido no sentido de analisar e sistematizar os dados dos milhares de estudos que foram realizados nas últimas décadas sobre a relação entre a dieta e indicadores de saúde. As primeiras recomendações oficiais no sentido de combater a obesidade, diabetes e doença cardiovascular datam de há mais de 3 décadas e, de forma genérica, recomendam um aumento no consumo de hidratos de carbono, diminuição das gorduras totais, gordura saturada, colesterol e sal. No entanto, já nessa altura houve quem criticasse tais recomendações, argumentando que "a importância das alterações no padrão alimentar é controversa e a ciência não pode, nesta altura [1977], assegurar que uma dieta diferente proteja de doenças". 33 anos mais tarde, o 2010 Dietary Guidelines Advisory Committee (DGAC) teve uma oportunidade única para esclarecer estas dúvidas mas o relatório continuou com recomendações baseadas em evidências frágeis e contraditórias. Vejamos alguns exemplos retirados do próprio relatório.


O relatório de relatório do DGAC considera que são necessárias mais pesquisas para "explorar e validar novos marcadores e para elucidar mecanismos alternativos e explicações para os efeitos dos hidratos de carbono na saúde. [...] Os trabalhos que estudam os hidratos de carbono e seus efeitos na saúde, a um nível macronutricional, são muitas vezes inconsistentes e ambíguos devido a medições não-rigorosas e à diferente categorização e definição dos alimentos."

No entanto, na face destas inconsistências, o painel não hesita em afirmar que "As dietas saudáveis são altas em hidratos de carbono.". Se reconhecem a ausência de investigação que suporte o papel dos hidratos de carbono na saúde humana, esta recomendação parece-me no mínimo prematura.

Sobre a proteína, o DGAC também recomenda mais investigação para "Desenvolver definições padrão para proteínas vegetais e melhores métodos de quantificar o seu consumo, de forma a clarificar os efeitos observados nos estudos epidemiológicos [...] a capacidade dos investigadores para avaliar alguma associação com efeitos benéficos na saúde é limitada". Também é referido que existem "potenciais limitações de uma dieta à base de plantas em certos nutrientes chave". Mas isto não os impede de recomendar "uma mudança nos padrões alimentares para uma dieta à base de plantas que enfatize os vegetais, feijão, ervilhas, frutas, cereais integrais e sementes", mesmo referindo que "sem uma definição clara dos cereais integrais, é difícil comparar os estudos que examinam a eficácia desses cereais em influenciar biomarcadores de doenças cardiovasculares, diabetes e obesidade". Eu pergunto: então basearam-se em quê? Estes exemplos ilustram bem não só o relatório em si como o que tem sido a posição das autoridades oficiais: são feitas recomendações peremptórias com  suporte em evidencias ténues e inconclusivas.

Um outro aspecto interessante é a insistência ao longo de todo o relatório em que "poucos americanos seguem as recomendações" e que "o foco primário deve ser a redução do teor calórico excessivo da dieta". Curiosamente, nesse mesmo relatório, é dito que o consumo calórico se mantém dentro dos valores recomendados. As mulheres adultas são o grupo que consume menos calorias e mesmo assim apresentam a maior taxa de obesidade. As proporções de macronutrientes da dieta americana também está de acordo com o recomendado e a gordura representa menos de 35% do total calórico.

Se estamos a consumir mais calorias que no passado, esse aumento não é proporcional para os 3 macronutrientes. Os hidratos de carbono aumentaram consideravelmente mais do que qualquer outro e o consumo de gorduras até diminuiu. Não é notório qualquer interesse por parte das entidades oficiais em avaliar se esta mudança nos hábitos alimentares que se verificou nas últimas décadas está ou não relacionada com o aumento paralelo de doenças crónicas.

O relatório também se posiciona quanto à eficácia das dietas low-carb para o controlo do peso referindo que "uma quantidade moderada de evidências demonstra que regimes alimentares com menos de 45% das calorias provenientes de hidratos de carbono ou mais de 35% derivadas de proteína não são mais eficazes do que outras dietas para a perda ou manutenção de peso, são difíceis de manter a longo prazo e podem ser menos seguras."

Podemos ver que neste caso a "quantidade moderada de evidências" já é suficiente mas, na verdade, até vão mais longe quando justificam a sua espantosa conclusão: "Esta conclusão é baseada em 36 artigos publicados desde 2004... 20 estudos não encontraram diferenças na perda de peso entre dietas que diferem nas proporções de macronutrientes... 13 estudos verificaram que dietas low-carb reduzem o peso significativamente mais do que dietas low-fat ou ricas em hidratos de carbono... 4 estudos demonstraram que dietas hiperproteicas reduzem o peso significativamente mais do que dietas hipoproteicas ou ricas em hidratos de carbono". Portanto, mesmo quando 47% dos estudos apontem para uma redução do peso corporal em dietas hiperproteícas ou low-carb e nenhum para uma maior eficácia das recomendações vigentes, não os impede de afirmar que "não são mais eficazes do que outras dietas para a perda ou manutenção de peso, são difíceis de manter a longo prazo e podem ser menos seguras".

Parece-me claro que estes painéis de aconselhamento são tudo menos isentos e que as suas recomendações não têm qualquer credibilidade. Infelizmente, é esta informação de qualidade científica duvidosa que atinge o público e molda os nossos hábitos alimentares, num padrão que em nada tem ajudado no combate à epidemia de doenças crónicas que verificamos actualmente. Na verdade, até lhes pode estar a dar uma mãozinha. Ousaria mesmo insinuar que estes "especialistas" estão de má fé, mas penso que seria muito injusto da minha parte. Não precisamos de pesquisar além do próprio relatório para encontrar as suas incoerências. Eles são os primeiros a reconhecer que não se baseiam em mais do que "opiniões informadas". Talvez tenhamos é uma noção diferente do significado de "needs for future research". Se calhar as entidades competentes, com deveres perante a população, se devessem preocupar mais em informar e menos em fazer recomendações à la carte.

Sérgio Veloso (Jekyll) 



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