20 de março de 2011

Mais um filme sobre dietas: "Forks Over Knives"


No passado dia 11 de Março estreou mais um filme sobre a alimentação e as "doenças da abundância". Depois do "Super Size Me", "Food Inc", "Fast Food Nation" e outros que não me recordo ou não conheço, é a vez de Forks Over Knives". Mas este é diferente. Trata-se de propaganda pró-vegetarianismo (quase no Vegan já) e conta com a colaboração de reconhecidas autoridades deste movimento como Caldwell Esselstyn, MD, e T. Colin Campbell, PhD, ambos consultores da Whole Foods Market que financia o filme.


Fartos de dietas milagrosas estamos nós, especialmente da arrogância de algumas que se assumem como a única forma de viver um vida saudável e plena. Esta é uma delas, afirmando que a alteração do menú moderno no sentido de aumentar o consumo de vegetais e excluir os alimentos de origem animal e processados é a solução para a maioria das doenças metabólicas e câncro. Como sabem, embora concorde com os benefícios da restrição de produtos altamente processados, não posso alinhar com a ideia de que os alimentos animais são fonte de problema. Nos países mais pobres, com um PIB per capita inferior a 5000 USD, o consumo de produtos animais é irrisório e não deixam de ser um grupo com um grande crescimento da obesidade e doenças associadas. Os hidratos de carbono processados ou subsidiados, extremamente baratos e acessíveis, são o alimento preferencial dos menos favorecidos. É o que chamamos de "ocidentalização". O consumo de produtos animais está relacionado com a riqueza do país/família, tal como as gorduras. Curiosamente, a proteína total mantém-se constante independentemente dos recursos de cada um. Se houve grupo nutricional que aumentou de importância na última metade do século XX foram os hidratos de carbono, particularmente os cereais, e os lacticínios. A % energia derivada de gorduras até tem vindo a diminuir, tendo sido substituídas pelos hidratos de carbono refinados e açúcares simples, um fenómeno que tem sido associado a um impacto negativo em parâmetros cardiometabólicos.

Eu acredito que existem várias abordagens viáveis para o problema. Não há soluções únicas nem formatadas que sirvam a todos. No entanto, a limitação do relevo que os cereais e açúcares têm na dieta actual tem-se mostrado benéfica a vários níveis. Isto não é possível numa dieta vegetariana. Satisfazer os requerimentos energéticos humanos com uma dieta exclusivamente à base de plantas é muito difícil sem cereais e derivados, o que aumenta consideravelmente a carga glicémica da dieta, um parâmetro fortemente associado às "doenças da civilização". Um argumento contra as dietas vegetarianas é a falta de proteína de elevado valor biológico, algo facilmente rebatido pelos seus defensores. Como disse anteriormente, o consumo de proteína, a um nível populacional, não parece variar com a importância dos produtos animais na dieta e uma dieta à base de plantas bem estruturada não tem carências a este nível. Mas e quanto a vitaminas do complexo B e ferro biodisponível? Muitas das farinhas que nos chegam hoje em dia são enriquecidas com vitaminas ou então temos acesso aos multivitaminicos. Mas... se é preciso suplementar a dieta, não está algo de errado à partida? Não deveria ser suposto ter de o fazer! Temos ainda o caso da vitamina D cuja presença nos alimentos é restrita a algumas espécies marinhas e lacticínios. É bom que um vegetariano apanhe muito sol. Um outro que posso mencionar são os ácidos gordos essenciais. Uma dieta vegetariana não obtém EPA e DHA. O n-3 dominante é de longe o ALA, mas mesmo assim superado em larga escala pelo ácido linoleico (LA). Embora o EPA e DHA possam ser sintetizados a partir de outros PUFA, sabe-se que um elevado consumo de LA diminui a concentração tecidual de EPA e DHA através de uma menor conversão de ALA em EPA ou produção de DHA (competição pela desaturase) e por inibição da incorporação de n-3 na membrana celular. Este é um aspecto que diz respeito tanto aos vegetarianos como à dieta moderna e que pretendo abordar brevemente.

Mas a minha intenção aqui é apenas dar conhecimento de um filme que, apesar de discordar à partida com o que defende, considero um exercício interessante e que merece atenção. Gostaria um dia de ver um filme sobre as recomendações dietéticas modernas e impacto na saúde humana. Infelizmente, é um tema que não teria grande suporte por parte da indústria, a fonte principal de financiamento. Não tenhamos dúvidas. O vegetarianismo tornou-se um lobbie, e um lobbie altamente financiado com subsídios à produção de milho e soja, hoje presentes em quase tudo o que é alimento. Isto permite que sejam vendidos abaixo do custo de produção e elimina a concorrência,

A minha filosofia em relação à "guerra" entre dietas é simples e moderada. Quando existem duas posições extremistas, a verdade deve estar algures entre elas. Tanto os alimentos vegetais como os animais acompanharam a evolução humana e só nas últimas décadas se tem assistido a dicotomia entre ambos. Princípios morais ou culturais são perfeitamente legítimos para defender o vegetarianismo. Mas alegar a defesa da saúde humana é negar milhões de anos de evolução e aquilo que fez de nós o que somos hoje.

Aqui ficam dois trailers do filme que não deve estrear em Portugal ou em qualquer país europeu, se bem que isso hoje em dia não é problema para quem o quiser ver...



3 comentários:

  1. Precisamos de lengendas desse filme em português urgente!!!
    Se alguem tiver por favor: jgrafite@gmail.com

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  2. Acabei de ver o filme e confesso que fiquei convencida. Vou tornar-me vegan!

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  3. olá
    podem encontrar o filme e legendas em português ou inglês aqui.
    https://docs.google.com/folder/d/0B2OWSwqu7dcFWjFOWXVmeVVkVWs/edit

    A carne, os lacticínios e os produtos refinados. Basta um destes grupos em excesso ou o seu conjunto para lixar tudo. Nos países que visitei, especialmente os países pobres, sempre que um (ou mais) destes grupos estava presente reflectia-se na população.

    Tenho observado também várias dietas em diferentes pessoas e parece-me que nem tudo é preto nem branco. A mentalidade do "precisas disto", "não passas sem isto", "este nutriente", "esta quantidade de X" muitas vezes é rebentada pelo efeito cocktail. E este cocktail de influências vai para lá apenas do alimento.

    Muitas vezes escuto que "o homem deve comer um bocadinho de tudo para ser saudável", sempre me pareceu uma afirmação parva na forma como é feita, pois na maioria das vezes serve como desculpa para comer toda a porcaria e não acho que o homem seja uma lata de lixo que aguenta com tudo. Acredito que temos a capacidade de comer e ser saudáveis com várias dietas, razão pela qual sobrevivemos em todos os pontos do globo. Existem várias dietas e alimentos com os quais podemos ser saudáveis, no entanto, terá de haver adaptações.

    Um esquimó que deixe de comer carne e gordura fica em sérios problemas mas um europeu que coma como um esquimó também.

    Parece-me que as dietas baseadas em produtos de qualidade, não refinados, com uma base forte de cereais, alimentos vegetais e leguminosas ...numa boa maioria são ideais.
    Absolutamente? Se calhar não.
    Existem mais possibilidades e dietas, assim como cantos na terras, ambientes e homens.

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