3 de março de 2011

Os antioxidantes, take II: alteração da função cardíaca


Já aqui abordei os potenciais efeitos adversos da suplementação com antioxidantes que se tornou moda na hoje em dial. Investigadores do Institutet Karolinska, na Suécia, dão mais um contributo com a descoberta recente de uma nova função dos radicais livres na fisiologia cardíaca.


Perante um stress, o corpo reage libertando catecolaminas, agonistas beta-adrenérgicos que estimulam a actividade cardíaca de forma a satisfazer as necessidades acrescidas dos tecidos. Como diria Robert Sapolsky, trata-se de um mecanismo de auto-defesa ancestral que assegura uma resposta rápida a um evento stressante. A equipa verificou que a activação dos receptores beta-adrenérgicos induz um aumento na produção de radicais livres nas mitocôndrias das células musculares cardíacas e que esses mesmos radicais são essenciais para uma regulação normal da força de contracção. A exposição dessas células a antioxidantes inibiu significativamente o efeito das catecolaminas na produção de força contráctil. Como em praticamente tudo na vida, é mais um caso em que a dose faz o veneno e em que a moderação é desejada e necessária. Os radicais livres são imprescindíveis para uma actividade celular normal, mas em níveis crónicos são potencialmente deletérios. O controlo da produção de força no miocárdio e a sensibilidade à insulina são apenas dois mecanismos que já se sabem controlados pelo correcto balanço dos radicais livres. Estou certo de que muitos mais serão descobertos num futuro próximo. Infelizmente, a suplementação inconsciente com antioxidantes não é selectiva e pode de facto inibir processos biológicos importantes. Pense nisso da próxima vez que tomar as bombas cavalares de vitamina C, E e outros antioxidantes comuns no mercado de suplementos alimentares. Em vez de acrescentar uns anos à sua vida, o tiro pode sair pela culatra.

 

Sérgio Veloso (Jekyll) 




Daniel C Andersson, Jérémy Fauconnier, Takashi Yamada, Alain Lacampagne, Shi-Jin Zhang, Abram Katz & Håkan Westerblad. Mitochondrial production of reactive oxygen species contributes to the beta-adrenergic stimulation of mouse cardiomycytes. The Journal of Physiology, 28 February 2011 DOI:10.1113/jphysiol.2010.202838

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