15 de março de 2011

Os hidratos de carbono podem estar associados ao desenvolvimento de Doença Renal Crónica


Já ouvi tantas vezes dizer que a proteína alimentar afecta a função renal que quase me vencem pelo cansaço. Embora não existam evidências de que a proteína seja causa directa de disfunção renal, não saio do consultório médico sem uma advertência quanto ao consumo “excessivo”, embora não exista qualquer indício de dano estrutural ou funcional nos meus rins. Por vingança, quero partilhar convosco um artigo recente publicado no “The Journal of Nutrition” que associa pela primeira vez o consumo de hidratos de carbono com a doença renal crónica.


Gopinath e colaboradores utilizaram dados recolhidos de uma população Australiana num follow-up de 10 anos iniciado em 1992. Foram considerados 2600 participantes, extensamente caracterizados para a função renal, entre outros, e aos quais foi feito um inquérito alimentar pormenorizado. Não é do nosso interesse uma análise aprofundada do estudo mas aqui ficam alguns resultados interessantes. Foi verificada uma associação inversa entre o Índice Glicémico global da dieta e a função renal. A quantidade de fibra alimentar proveniente de cereais correlacionou-se de forma positiva com a taxa de filtração glomerular. O consumo de alimentos energeticamente densos e pobres em nutrientes demonstrou uma influência adversa na função renal, tal como alguns alimentos específicos como a batata.


O efeito da hiperglicémia na função renal não é novo e a nefropatia é uma consequência comum na diabetes. É possível que o IG da dieta providencie um ambiente inflamatório crónico que favoreça a disfunção renal, mesmo sem diabetes estabelecida. O consumo de fibra pode ajudar a reduzir os picos pós-prandiais de glicose e assim atenuar a produção de ROS e citocinas inflamatórias. O efeito alcalinizante da fibra pode também ajudar a manter um equilíbrio ácido-base que proteja da acidose, uma condição associada a uma função renal diminuída. Por outro lado, a associação pode ser secundária e derivada apenas da relação entre o consumo de fibra e boas práticas alimentares no geral. Em estudos observacionais como este não é fácil isolar todas as variáveis e os resultados devem ser interpretados com cautela. Uma associação não é sinónimo de causa-efeito.

É o primeiro trabalho do meu conhecimento a encontrar uma relação entre os hidratos de carbono e a função renal. Convém reforçar que esta associação verifica-se para o IG da dieta e com alimentos ricos em energia e pobres nutricionalmente, em particular os processados como bolos, bolachas, geleias e refrigerantes. Não é novidade para ninguém que estes não são propriamente benéficos para a saúde, mas fica pela primeira vez levantada a hipótese de uma relação com a Doença Renal Crónica, embora com as inevitáveis limitações deste tipo de estudos. Da próxima vez que for ao médico, levo este artigo comigo.

O paper não é de acesso livre mas quem estiver interessado em ler pode pedir-mo por e-mail (srsveloso@fat-new-world.com)





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