7 de março de 2011

O contributo da climatização para o excesso de peso



Pensar que a obesidade, a um nível epidemiológico, apenas está relacionada com os hábitos alimentares e actividade física é redutor e não faz justiça à complexidade da doença (sim… é uma doença crónica). A obesidade é multifactorial e existem aspectos ambientais e genéticos que, embora com um contributo menor, actuam sinergicamente com os comportamentos humanos no desequilibro do balanço energético. Um deles é a climatização. Desde os anos 60 que os aparelhos de climatização e aquecimento fazem parte das nossas vidas. A tendência até aos dias de hoje sempre foi um aumento do tempo passado no interior dos edifícios, eles próprios já construídos para uma maior eficiência energética e conservação de calor. Disto resulta uma restrição da amplitude de temperaturas a que o nosso organismo está exposto durante o ano e à redução do stress térmico que experimentamos. Existem alguns indícios de que estes efeitos poderão estar relacionados com um menor dispêndio energético e, hipoteticamente, à prevalência de obesidade nos países industrializados.


Os aparelhos de climatização são de uso generalizado hoje em dia e estima-se que a temperatura média de uma sala-de-estar tenha aumentado cerca de 3 °C nos últimos 40 anos. Na verdade, o mesmo aumento foi verificado para os quartos e esta homogeneização das temperaturas nas diferentes divisões da habitação reduz substancialmente as variações térmicas a que estamos expostos. A mesma tendência é verificada nos locais de trabalho, o que, aliado a uma redução das actividades exteriores de lazer, resulta numa marcada contracção da amplitude sazonal de temperaturas a que o nosso corpo está sujeito.

O organismo pode responder ao frio de duas formas: diminuindo a temperatura da pele por vasoconstrição periférica, conservando assim o calor nos órgãos internos, ou através de respostas termogénicas adaptativas. Nestas temos os “tremores”, que não são mais do que contracções musculares involuntárias do músculo-esquelético de forma a gerar calor, e o aumento da dissipação de energia na forma de calor pelos tecidos metabólicos. É também reconhecida uma resposta termogénica aos alimentos que comporta os custos energéticos da digestão e absorção, bem como um componente facultativo que permite a dissipação de energia após uma refeição. Os mecanismos efectores da termogénese induzida pelo frio e pelos alimentos são semelhantes e mediados por activação simpatética, o que sugere a existência de um único fenótipo que representa a capacidade termogénica geral do individuo.

O dispêndio energético humano está relacionado de forma inversa com a temperatura ambiente e a magnitude da resposta térmica à temperatura parece suficiente para afectar o balanço energético. Estima-se que a exposição a frio moderado durante 10% do tempo num período de 10 anos possa equivaler a uma diferença de 8kg no peso corporal se todos os outros factores se mantiverem constantes. Apesar de ser uma situação hipotética, é evidente que o stress térmico pode desempenhar um papel significativo no controlo de peso a longo prazo.

Existem dois tipos de tecido adiposo: o branco (WAT) e o castanho (BAT). Ao contrário do primeiro, que funciona como um depósito de energia, o BAT é um órgão termogénico activo. É rico em mitocôndrias que produzem calor através de um desacoplamento da fosforilação oxidativa mediado pela proteína UCP-1. Até há pouco tempo, julgava-se que a função do BAT em humanos adultos era negligenciável já que este aparentava desaparecer com a maturação. No entanto, trabalhos recentes mostram que o BAT desempenha um papel muito mais importante do que se pensava e que a falha em detectar a sua actividade no passado deriva principalmente de questões metodológicas. Apenas é possível distinguir o BAT quando este se encontra activado e a exposição a uma temperatura ambiente fria aumenta consideravelmente a probabilidade de o encontrar. Estudos recentes mostram que, em temperaturas na ordem dos 18 °C, a presença de BAT activo é normal em adultos e que em condições termoneutras, 22 °C, ela é significativamente reduzida. Os autores calculam que a activação do BAT pode contribuir substancialmente para o balanço energético, consumindo o equivalente a 4kg de gordura num período de 1 ano.

Mas a resposta ao frio não é apenas aguda e uma diminuição da frequência de exposição a temperaturas baixas resulta numa redução do potencial termogénico e menor capacidade de gerar calor em resposta a uma exposição momentânea ao frio. Em animais, a adaptação ao frio resulta num escurecimento geral do tecido adiposo, um indicador de aumento da proporção do BAT. A mesma associação entre a exposição crónica ao frio e o BAT foi verificada em humanos, num estudo que observou uma maior quantidade deste tecido e um metabolismo aeróbico mais eficaz em trabalhadores Finlandeses de exterior comparativamente a indivíduos que realizam a sua actividade no interior. Também foram observadas diferenças sazonais na prevalência de BAT activo, sugerindo que o seu desenvolvimento é induzido pela exposição ao frio que se associa às variações sazonais de temperatura. Este mecanismo parece adaptativo e surge em resposta a uma exposição contínua ao frio, verificando-se uma latência entre o desenvolvimento do BAT e as flutuações de temperatura, e que a exposição a uma mesma temperatura induz um maior dispêndio energético no inverno do que no verão, uma adaptação que se pensa ser explicada pela proliferação do BAT nos meses frios.

Embora o efeito da climatização possa dar o seu contributo para o ambiente obesogénico actual, ele não seria possível sem a alteração nos hábitos alimentares que se verificou em paralelo no último meio século. O apetite e consumo energético é, em condições normais, reduzido espontaneamente com o aumento da temperatura. Alguns estudos demonstram que o consumo energético compensa naturalmente as alterações no dispêndio induzidas pela temperatura. No entanto, a regulação da ingestão calórica a longo prazo no Homem não está associada directamente aos gastos energéticos, sendo fortemente influenciado por factores sociais e composição, variedade, densidade energética e palatabilidade dos alimentos. Estudos em animais provam que a disponibilidade de comida altamente apelativa contorna os ajustes compensatórios à temperatura ambiente. Tendo em conta que a disponibilidade de alimentos processados ricos em sal, gorduras e açúcares é uma característica que define a dieta ocidental, este pode ser mais um contributo para a amplificação das condições obesogénicas que prevalecem nos países desenvolvidos.

De acordo com estes dados, é plausível uma relação causal entre o tempo passado no conforto térmico e o aumento da obesidade que se verifica na população em geral. No entanto, convém não esquecer que não existem estudos directos sobre o efeito a longo prazo da temperatura ambiente no metabolismo e peso corporal. Tratam-se apenas de conclusões preliminares extraídas dos diversos estudos já realizados sobre a termogénese em humanos e animais próximos. Fica também evidente que as condições obesogénicas actuais amplificam o efeito da climatização, afectando os mecanismos fisiológicos de compensação que, em condições naturais, ajustariam o apetite e ingestão calórica às necessidades orgânicas. Na ausência de alimentos processados, muito apelativos ao paladar e energeticamente densos, é pouco provável que a homogeneidade térmica tivesse um efeito acentuado. No entanto, como não nos podemos alienar do mundo em que vivemos, é possível que estejamos perante mais uma situação em que a intervenção artificial no ambiente nos condiciona para um peso excessivo e menor gasto energético. Estará longe da importância dos comportamentos alimentares, e a eles associada, mas não deve por isso ser esquecido. A homeotermia tem custos calóricos acrescidos que, ao longo dos anos, podem ter um impacto significativo na composição corporal.

Sérgio Veloso (Jekyll) 



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