30 de março de 2011

Revisão sugere que a restrição calórica intermitente favorece a conservação de massa magra em dieta


Prevalece uma crença generalizada de que as dietas para perda de peso devem consistir numa restrição calórica diária e com uma elevada frequência de refeições. No entanto, existem alguns argumentos contra esta noção, muito envolvida em mitos pouco fundamentados. Cada vez mais pessoas adoptam regimes de restrição calórica intermitente (ICR) em vez de restrição calórica diária (DCR), considerando-os mais fáceis de seguir. A questão que se coloca é: qual dos métodos é o mais eficaz? K.A. Varady tentou responder a esta pergunta numa revisão recente publicada no Obesity Reviews.

Um problema com que nos deparamos quando se tenta comparar regimes ICR é a falta de padronização. Geralmente todos têm um ou dois dias ad libitum seguidos de outros tantos de restrição calórica total ou parcial. Até ao momento, foram realizados apenas sete ensaios clínicos com dietas ICR e o método preferencial tem sido um dia de consumo alimentar livre seguido de outro restrito a 20-25% das necessidades energéticas diárias.

Varady verificou que no que respeita a perda de peso corporal, ambas as dietas apresentam os mesmos resultados a curto prazo. Infelizmente não existem estudos com dietas ICR a médio e longo prazo para comparação. Da mesma forma, ambas aparentam ter os mesmos efeitos em indivíduos obesos ou apenas com peso excessivo. Também não parece haver diferença entre a quantidade de gordura abdominal perdida, um reconhecido factor de risco cardiometabólico. No entanto, são levantadas algumas questões sobre a fiabilidade das avaliações nos poucos estudos com ICR que quantificaram a gordura abdominal. O método usado em todos eles foi o DXA (dual-energy X-ray absorptiometry), menos preciso do que a ressonância magnética adoptada em vários estudos de DCR. A meu ver, em termos relativos a diferença de método não tem grande impacto porque o erro dilui-se entre a medição inicial e final. De qualquer forma é um aspecto que merece consideração.

Quando falamos em perda de peso, todos sabemos que nem todo é igual. A proporção de massa gorda perdida depende muito do regime adoptado para perda de peso, especialmente da inclusão ou não de um programa de exercício físico. Manter a massa muscular é fundamental para o sucesso a longo prazo de uma dieta de restrição pois permite assegurar uma taxa metabólica elevada ao longo do processo e após. Neste aspecto, as dietas ICR e DCR parecem diferir significativamente. Talvez um pouco contra as expectativas, as dietas ICR indicam ser mais eficazes em conservar a massa magra comparativamente à restrição calórica diária. Os resultados apontam para uma relação 90:10 (% de gordura perdida vs % de massa magra) em ICR e de 75:25 em regimes DCR. Tudo o que podemos fazer é especular acerca destas disparidades e não são conhecidas explicações fisiológicas robustas, embora não seja de excluir um efeito modelador no sistema endócrino.

Este estudo deve ser interpretado com cautela e o próprio autor está ciente das suas limitações. Os ensaios revistos diferem substancialmente nas características da amostra e nos protocolos alimentares utilizados. Pouco se sabe ainda sobre dietas de ICR e são necessários mais estudos para poder extrair conclusões robustas e com significância estatística. De qualquer forma, fica levantada uma hipótese interessante e que merece ser aprofundada. Dada a estimativa de que 30-35% do peso perdido durante uma intervenção dietética DCR é recuperado no primeiro ano após a terapia, regimes mais fáceis de aderir como o ICR podem conseguir resultados mais consistentes.

Isto leva-nos também a outra questão, ainda mais interessante a meu ver, que é a necessidade das várias e regulares refeições que se recomendam actualmente. Períodos de escassez e fartura sempre nos acompanharam na história evolutiva e a manutenção de um estado pós-prandial constante pode apresentar alguns problemas para a saúde metabólica. É um assunto que tenciono abordar exaustivamente aqui no blogue. Neste aspecto sou insuspeito porque faço refeições com grande frequência, mas consciente de que é uma faca de dois gumes. Reconheço que o jejum intermitente e ICR são opções legítimas e que até hoje se têm mostrado perfeitamente saudáveis, embora não seja uma questão muito abordada pela comunidade científica. É um assunto que gostava de ver discutido mais vezes, mas existe sempre alguma inércia quando isso implica o risco de contrariar paradigmas instalados. A falta de dados concretos faz com que os argumentos a favor ou contra as restrições intermitentes caiam no campo da opinião e experiência pessoal, legítimos mas não generalizáveis.

Paper disponível para download. Se o link não funcionar peçam por e-mail (srsveloso@fat-new-world.com).

Sérgio Veloso







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1 comentário:

  1. Artigo interessante
    passado tantas anos em que o artigo foi escrito, ainda nao foram encontrados mais dados relativamente ao ICR?

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