1 de março de 2011

A soja e a redução dos níveis de testosterona nos homens


Há séculos que a soja faz parte da dieta oriental mas só há algumas décadas ganhou importância no Ocidente, especialmente em certos segmentos da população mais preocupados com a sua saúde. Para isto contribuíram alguns estudos epidemiológicos que sugerem potenciais benefícios da soja e a aprovação pela FDA em 1999 da legislação que permite a rotulagem da soja como benéfica para alguns parâmetros cardiovasculares. O consumo de soja nos países orientais parece correlacionar-se de forma inversa com a incidência de cancro da mama e próstata, doenças cardiovasculares e osteoporose. A soja tornou-se então um ponto de convergência entre o público alerta para estas questões e a própria indústria, para a qual a soja representa uma matéria-prima muito rentável e versátil. No entanto, a descoberta da presença de disruptores endócrinos naturais na soja levanta algumas preocupações quanto a possíveis efeitos adversos na saúde, especialmente em homens e crianças.


A soja é considerada uma das proteínas vegetais de maior valor biológico, com um conteúdo em leucina bastante atractivo e que lhe confere algum potencial anabólico. No entanto, a soja contém isoflavonas, compostos difenólicos naturais não-esteróides que mimetizam alguns efeitos dos estrogénios no organismo. Uma vez muito semelhantes estrutural e funcionalmente com o estradiol, as isoflavonas são muitas vezes denominadas de fitoestrogénios. Como tal, elas têm mostrado potencial em atenuar os sintomas da menopausa, entre os quais a osteoporose. Cada grama de proteína de soja está associada a cerca de 3.5 mg de isoflavonas. Não existem formulações comerciais isentas de isoflavonas uma vez que os processos de separação recorrem a lavagens em álcool, um método que altera significativamente as propriedades os alimentos. Assim, o consumo de soja na dieta correlaciona-se directamente, salvo algumas variações individuais, com a concentração plasmática de isoflavonas, que é insignificante em indivíduos sem estes hábitos alimentares. Certas populações asiáticas consomem até 1 mg de isoflavonas por kg de peso corporal. Este valor pode ser ainda mais elevado em crianças recém-nascidas alimentadas com fórmulas à base de soja, cada vez mais utilizadas no ocidente como substitutos do leite materno. Estima-se que nos EUA, por exemplo, 25% das crianças sejam alimentadas com estas fórmulações, podendo atingir concentrações de isoflavonas no sangue 5 vezes superiores a adultos com uma dieta rica em soja. Um bebé de 4 meses alimentado com substitutos derivados de soja pode atingir valores de isoflavonas no sangue na ordem dos 980 mcg/L, muito superior ao que se verifica em crianças alimentadas com leite materno (4.7 mcg/L). A existir algum efeito negativo para a saúde, é sobre este grupo que incide o maior risco e com implicações no seu desenvolvimento e maturação.

Existe alguma relutância em chamar disruptor endócrino às isoflavonas na medida em que as coloca ao mesmo nível de alguns compostos sintéticos como o DDT, DES, PCBs, dioxinas e bisfenol A. A definição convencionada para disruptor endócrino é: “um agente exógeno que interfere com a síntese, secreção, transporte, metabolismo, interacção ou eliminação de hormonas presentes no organismo e responsáveis pela homeostase, reprodução ou desenvolvimento”. Se as isoflavonas têm propriedades estrogénicas selectivas, ligando-se aos ER com grande afinidade, enquadram-se perfeitamente no conceito. Mas embora estas propriedades sejam reconhecidas sem contestação, o seu efeito no Homem é ainda bastante controverso e os estudos realizados deixam muito a desejar quanto à qualidade e validade dos resultados.

Na verdade, a hipótese de as isoflavonas prejudicarem a fertilidade é debatida há mais de 60 anos. Os potenciais efeitos biológicos das isoflavonas chamaram a atenção da comunidade científica nos anos 40 quando foram identificados problemas reprodutivos em ovelhas na Austrália que ingeriam quantidades elevadas destes compostos. Mais tarde, verificou-se que a dieta prevalente nos zoo americanos, com ração à base de soja, diminuía significativamente a fertilidade das chitas. A possibilidade de existir um efeito semelhante em humanos foi imediatamente considerada e alguns estudos foram efectuados nesse sentido. No entanto, a metabolização das isoflavonas nestes animais difere substancialmente do Homem e os problemas de fertilidade foram verificados em fêmeas e não em machos. A etapa primária na degradação das isoflavonas é a glucoronidação. Nos felinos, a glucorinidação de compostos fenólicos é praticamente inexistente, logo as concentrações atingidas nas chitas são muito superiores a outros mamíferos. No caso das ovelhas, grande parte das isoflavonas são convertidas a equol, um composto derivado da actividade bacteriana, enquanto que apenas 25% da população humana no ocidente possui uma flora intestinal capaz de catalisar este processo. Portanto, qualquer relação entre os efeitos da soja em animais e humanos deve ser interpretada com cuidado e de forma crítica, uma vez que o metabolismo das isoflavonas difere consideravelmente entre espécies e mesmo inter-individualmente.

Actuando como activadores dos receptores estrogénicos, é natural pensar que o género mais afectado seja o masculino. É provável que este efeito influencie a maturação sexual, fertilidade, níveis de testosterona, gonadotropinas e todos os efeitos que resultam da actividade androgénica. Foi proposto que a relação inversa entre o consumo de soja e a incidência de cancro da próstata verificada em populações asiáticas se deva precisamente à diminuição dos níveis de testosterona. Embora seja lógico e legítimo retirar estas elações, os estudos quer em humanos quer em animais são controversos e incoerentes, concluindo-se numa recente meta-análise que nem a soja nem as isoflavonas alteram significativamente os parâmetros de biodisponibilidade da testosterona em homens adultos.

Os indícios que questionam a segurança do consumo de soja no sexo masculino baseiam-se essencialmente num estudo epidemiológico que relaciona a soja com uma redução na contagem de espermatozóides, um relato de caso que liga o excesso de isoflavonas à ginecomastia, alguns ensaios clínicos que observam uma redução nos níveis de testosterona e, principalmente, uma série de estudos em roedores que sugerem que a soja provoca disfunção eréctil e oligoespermia.

Vários ensaios em animais revelaram que a exposição a isoflavonas diminui a testosterona circulante. No entanto, a maioria das espécies tem uma taxa de conversão a equol muito superior ao Homem, levando a uma concentração particularmente elevada deste composto. Através dos dados disponíveis, é impossível isolar os efeitos dos diferentes metabolitos e, de facto, o equol parece promover a conversão de testosterona a DHT. Um número considerável de estudos foi também conduzido em humanos, alguns deles integrados na meta-análise de Hamilton-Reeves, já referida, que concluiu que a soja não afecta os níveis de testosterona. A hipótese de que as isoflavonas podem ser causa de disfunção eréctil advém essencialmente de estudos conduzidos em ratos Sprague-Dawley, mas este efeito é geralmente acompanhado de uma marcada redução nos níveis de testosterona, superior a 50%, nunca verificada em ensaios clínicos com humanos.

A infertilidade afecta cerca de 15% dos casais, nos quais 25% é atribuída a uma fraca qualidade do sémen. Como a etiologia da infertilidade não é conhecida em muitos casos, é geralmente categorizada como idiopática. Um estudo encontrou uma relação entre o consumo de soja e redução na contagem de espermatozóides. No entanto, este estudo levanta algumas dúvidas já que os homens mais afectados mantinham níveis acima do referenciado para oligoespermia e não foi verificada qualquer relação com a morfologia e motilidade das células. Na verdade, são várias as lacunas que podem ser apontadas a este trabalho. Primeiro, a amostra era constituída por homens que frequentavam uma clínica de fertilidade. É natural que estes indivíduos apresentem valores mais baixos de espermatozóides por ml de ejaculado e que não representem uma amostra significativa da população. Além disso, os níveis de isoflavonas não foram quantificados directamente mas inferidos através de inquéritos alimentares, uma metodologia bastante imprecisa e que se vale do auto-relato.

As lacunas metodológicas apontadas aos diversos estudos em humanos e em animais são muitas e de várias origens. Primeiro, o conteúdo e tipo de isoflavonas diferem entre alimentos e são muito poucos os trabalhos que procedem à sua quantificação directa. As variações entre lotes são também muito comuns pelo que cada um tem de ser avaliado individualmente. A grande maioria baseia-se em valores arbitrários ou indicados pelo fabricante. Também não se exclui o efeito de outros nutrientes que se sabem influenciar os níveis de testosterona, como o zinco, ácido fólico, saponinas e ómega-3 e 6. Além disso, os ensaios clínicos realizados em humanos muito excepcionalmente excedem os 2 meses quando a espermatogénese leva cerca de 64 dias. É possível que grande parte dos efeitos não se tenham feito sentir até depois da conclusão do estudo. Por outro lado, é reconhecido que existe uma elevada variabilidade inter-individual no que respeita à metabolização das isoflavonas, o que impossibilita um relacionalmente directo entre a dieta e os níveis circulantes. Nestas diferenças inter-individuais está a conversão a equol, uma molécula com maior actividade biológica do que o seu precursor dietético.  

Um outro aspecto digno de nota é que a qualidade do esperma a um nível populacional tem vindo a diminuir nos últimos 50 anos. Uma teoria proposta para explicar este fenómeno fundamenta-se na exposição a xenoestrogénios e outros disruptores endócrinos presentes nos alimentos e ambiente. A contaminação com certos pesticidas foi já relacionada com a infertilidade e, na verdade, o efeito dos fitoestrogénios parece ser potenciado por estes compostos orgânicos derivados da actividade humana. Esta é uma hipótese bastante atractiva para os mais ecologistas e defensores dos alimentos orgânicos. Embora não passe disso mesmo, uma teoria, não é de excluir que os ténues efeitos já verificados em humanos sejam amplificados pela deterioração ambiental e da própria dieta.

Portanto, não parece possível estabelecer uma relação peremptória entre o consumo de soja e os níveis de testosterona e capacidade reprodutiva dos homens. Uma análise metodológica e sistematizada dos dados não encontra qualquer associação a um nível populacional. No entanto, este texto surge por sugestão do Sérgio Costa (a quem agradeço desde já) que pediu a minha opinião pessoal sobre a questão. O meu lado científico e racional diz-me que não existe motivos de preocupação para quem consume soja regularmente. Mas os ténues indícios que existem de um efeito adverso são suficientes para que o meu consumo seja residual e esporádico. A um nível populacional e epidemiológico pode não existir qualquer relação, mas ninguém me garante que não faço parto dos tais 25% que convertem as isoflavonas alimentares a equol, nos quais o efeito é exacerbado. Por outro lado, os ensaios clínicos a longo termo são inexistentes e os estudos epidemiológicos não podem estabelecer uma relação causa-efeito. A minha opinião é que a soja pode seguramente fazer parte de uma dieta saudável, mas tenho relutância em a aceitar como principal fonte proteica como acontece geralmente com os vegetarianos. Saliento que não me estou a basear em dados científicos robustos mas em débeis sugestões que, até definitivamente refutadas, me parecem suficientemente relevantes para pelo menos moderar, não necessariamente excluir, o consumo de soja e seus derivados.




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6 comentários:

  1. Os asiáticos usualmente consomem a soja fermentada, sob a forma de tempeh, natto e tamari, como um condimento e não em substituição das proteínas animais. Para além dos fitoestrogéneos, que actuam como desreguladores endócrinos e potenciando hipotiróidismo, a soja também contém inúmeros anti-nutrientes desfavoráveis (ácido fítico, áclido glutâmico, alumínio, etc). A argumentação cardiovascular em favor da soja assenta no facto de ser pobre em gordura saturada e de não conter colesterol, algo que supostamente é bom para o coração. E será mesmo?

    http://www.westonaprice.org/~westonap/images/pdfs/Trifold-SoyAlert2009.pdf
    http://www.westonaprice.org/soy-alert.html

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  2. Excelente artigo. Parabéns.

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  3. Muito obrigado por partilhares a tua opinião neste tema, reconfirmaste aquilo que já opinava e vou continuar c a tua/minha abordagem mantendo o "meu consumo...residual e esporádico".

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  4. Excelente artigo, para melhorar só falta saber com que tipo de soja foram efectuados os estudos: normal ou geneticamente modificada

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  5. Também seria interessante a abordagem do consumo de soja em mulheres.

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  6. Achei ontem esse artigo que fala como a glicose alta tbm é uma grande inimiga da testosterona http://www.pesquisasdogringo.com.br/niveis-altos-de-glicose-reduzem-a-producao-de-testosterona/

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