16 de abril de 2011

A dieta de Dukan: será a moda deste Verão?


Já ouviram falar da dieta de Dukan? É natural que não mas irão certamente ouvir nos próximos tempos. Embora seja já antiga por terras Francesas, só em 2010 chegou ao Reino Unido e o livro “Je ne sais pás maigrir” só irá ser publicado nos EUA no dia 19 de Abril. Depois de dar a volta ao Atlântico, é provável que também chegue ao nosso país. Não tenho por hábito (e detesto) comentar dietas mas vou abrir uma excepção. Afinal, o que é esta dieta Dukan?


Este regime foi desenvolvido pelo médico e nutricionista francês Pierre Dukan há mais de 10 anos e fez furor entre a alta sociedade Francesa. Estima-se que cerca de 1.5 milhões de mulheres a sigam em França, tendo o seu livro vendido mais de 3 milhões de exemplares desde a sua primeira edição em 2000. A má-língua diz-nos que foi seguida pela Jennifer Lopez e pela modelo Giselle Bundchen, com o sucesso que se vê. Os tablóides britânicos também dizem que a mãe da Kate Middleton, noiva Real, está neste momento a seguir a dieta de Dukan para se por em forma para a boda da filha.

A dieta é mais uma “coma quanto quiser”, desde que faça parte de uma lista pré-estabelecida rigorosa. Consiste em 4 fases sequenciais:

Fase 1: “Ataque”

A etapa inicial da dieta pode durar de 2 a 10 dias, dependendo do peso alvo de cada um. As regras são simples: apenas pode consumir proteína, e magra. Existe uma lista extensiva de alimentos mas de um modo geral são as carnes (excepto porco e borrego), peixe, aves, ovos e lacticínios magros.

É recomendado o consumo de pelo menos 1.5 L de água e 1.5 colheres de sopa de farelo de aveia. O exercício é essencial mas limitado a uma caminhada de 20 min. Os elevadores estão proibidos.

São relatadas perdas de peso na ordem dos 3-5 Kg durante esta fase.

Fase 2: “Cruize”

Aqui, os dias com proteína em exclusivo (semelhante à fase 1) são alternados com dias de proteína e alguns vegetais também listados. Basicamente são aqueles com um reduzido teor em hidratos de carbono.

É recomendado acrescentar mais 10 min à caminhada e passar a 2 colheres de sopa de farelo de aveia. Esta fase dura até atingir o peso desejado.

Fase 3: “Consolidação”

Trata-se da fase de manutenção, em que a base da dieta se mantém com proteína e vegetais, mas é permitido uma porção de fruta e duas fatias de pão integral por dia. Também pode fazer  uma refeição por semana com hidratos de carbono ricos em amido (arroz, massas, batatas, etc).

Nesta altura pode ter  uma “refeição de celebração” por semana, ou duas caso o peso esteja estável. É suposto permanecer nesta fase 10 dias por cada Kg de peso perdido até aqui.

Fase 4: “Estabilização”

Nesta altura poderá fazer a sua vida normal desde que reserve um dia da semana exclusivo para proteína, de acordo com a fase 1. De qualquer forma, é recomendado que não se afaste muito das orientações da fase 3. Esta etapa dura para a vida.

São recomendadas pelo menos 3 refeições diárias durante toda a dieta. As duas colheres de farelo de aveia é um hábito para manter, assim como o consumo de água em abundância e o exercício moderado. Na verdade, o exercício mais intenso é até desaconselhado. Os elevadores estão proibidos.

Os sintomas adversos mais comuns entre os praticantes são um hálito peculiar, alguma fadiga, boca seca e obstipação.

Como seria de esperar, os especialistas têm atacado este regime ferozmente e a dieta de Dukan é considerada na França e no Reino Unido prejudicial à saúde pelo lobbie da nutrição. Os nutricionistas Norte-Americanos preparam-se para fazer o mesmo. Karen Congro, dietista num hospital de Nova Iorque, chama-lhe “uma receita para o desastre”. Diz que “se trata de uma dieta com muita gordura [???] e que não restringe o sal” e que “a longo termo não é boa para o coração”.

Connie Diekman, nutricionista da Universidade de Washington, diz que é a “reencarnação de Atkins” e que uma melhor abordagem seria "escolher porções menores de cereais integrais, vegetais e frutas, com proteína e lacticínios magros, limitando o consumo de gorduras adicionadas e açúcares”. A conversa do costume…

Referem ainda que “não existem provas da sua eficácia”. Eu pergunto: onde estão as provas da eficácia das dietas que eles próprios defendem? Há décadas que são praticadas e intensamente ensaiadas, mas o fracasso tem sido completo. Além disso, comparar esta dieta com a de Atkins é absurdo e facilmente nos apercebemos que a dieta de Dukan possibilita um consumo bem inferior de gordura e favorece uma importância relativa muito maior da proteína.

Não quero com isto dizer que defendo esta dieta. Muito pelo contrário. Mas as minhas críticas são diferentes dos ataques proferidos pelos dietistas e médicos tradicionais. Que funciona para perder peso não tenho dúvidas. Nos primeiros dias, grande parte será água, um fenómeno comum a todas as dietas low-carb. A insulina actua nos rins impedindo a excreção de sódio e, além disso, a depleção do glicogénio liberta bastante água que se traduz em vários Kg. A própria catabolização da proteína tem um efeito diurético reconhecido. Mas estes processos rapidamente estabilizam e a perda de gordura é real, ao contrário do que muitos querem fazer acreditar.

Mas o mecanismo que promove a perda de peso não é segredo nenhum. Qualquer abordagem que favoreça baixos níveis de insulina o conseguirá em algumas pessoas. Além disso, níveis elevados de proteína favorecem a saciedade e têm um efeito anorexigénico. Esta é a razão do sucesso da dieta de Atkins que, independentemente dos ataques de que é alvo, funciona e é uma das abordagens mais eficazes que se conhece.

O problema com o regime de Dukan é mesmo o excesso relativo de proteína, especialmente nas duas primeiras fases da dieta cuja duração ainda pode ser bastante longa. Muito me admiraria se os praticantes não experimentassem sintomas como hipotensão arterial e ortostática, para além da referida fadiga e boca seca. A causa da obstipação é óbvia: falta de fibra. O mau hálito deve-se a produção de cetonas voláteis no corpo (cetogénese), comum nas dietas muito restritas em hidratos de carbono.

Esta dieta peca também por não ser "nem carne nem peixe". Quero com isto dizer que se o objectivo é mesmo manter os níveis de insulina controlados e facilitar a oxidação de gorduras como fonte energética, então seria benéfico um maior consumo de gorduras. É sabido que algumas proteínas, particularmente as lácteas mas também o peixe, têm uma capacidade anormal em estimular a libertação de insulina pelo pâncreas e o seu índice insulinémico não é proporcional ao índice glicémico. Julgo que nenhuma dieta, especialmente quando a quantidade de comida não é restringida, deve ultrapassar os 35 % da energia derivada de proteína. Acima deste valor é provável que comecem a surgir sintomas de acidémia ligeira como a desmineralização e catabolismo da massa muscular.

Na verdade, só o facto de lhe chamarem “dieta de…” já me deixa apreensivo. Desprezo por completo estes métodos formatados para perda de peso. Só quando uma pessoa entende minimamente os processos metabólicos que a farão perder gordura será possível estabelecer um programa alimentar adequado ao seu dia-a-dia e adaptá-lo às situações particulares com que se depara. Uma coisa é certa. Se há lição a retirar dos vários ensaios com dietas hipocalóricas tradicionais é que não funcionam. 

A dieta ideal seria uma que pudéssemos comer tudo e quanto quiséssemos, as vezes que nos apetecesse Infelizmente isso não é possível. O melhor que se consegue é um regime em que deixamos o próprio corpo controlar aquilo que comemos através de uma gestão adequada e natural do apetite, nunca sentindo fome e mesmo assim mantendo os níveis de gordura ideais. Que lhe parece? É mais fácil do que imagina e não tem de comprar nenhum livro.



2 comentários:

  1. A Jennifer Lopez está muito melhor, a outra está demasiado no osso. Não conheço a dieta Dukan, mas a julgar pela descrição, se for altamente hipocalórica, parece ser uma dieta do tipo Protein Sparing Modified Fast. http://www.canibaisereis.com/2009/01/22/lowcarb-psmf/

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  2. sinceramente, não acredito que um dieta restritiva seja uma boa opção. Acredito que reduzir (e não zerar) a ingestão de carboidratos, substituí-los por integrais e complexos, ingestão de fibras e proteínas, fazer uma refeição a cada 3-4h no máximo é o melhor caminho para reduzir peso sem perder muita massa magra. Aliado a essa dieta, exercícios de resistência e HIIT/Tabata em dias alternados potencializam a perda de gordura, ganho de massa magra, e melhora na condição cardíaca.

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