6 de abril de 2011

Identificado mais um mecanismo na origem da dislipidémia: a AMPK outra vez...


Eu tenho um especial carinho pela AMPK, o maestro de todo o metabolismo energético no nosso organismo. Qualquer nova descoberta acerca da sua acção desperta logo o meu interesse e ontem foi publicado na Cell Metabolism mais um estudo que evidencia a sua importância na saúde humana e como alvo terapêutico. Yu Li e a sua equipa de investigadores da Universidade de Boston desvendam um mecanismo através do qual a AMPK regula a homeostase lipídica, nomeadamente a síntese de triglicéridos e colesterol. De forma indirecta, fica patente, mais uma vez, que as dietas ricas em hidratos de carbono e excedentárias em energia são potencialmente hiperlipidémicas.


O SREBP é um factor de transcrição que activa uma série de genes lipogénicos e é regulado pela insulina e glicose. A sua acção regula positivamente a síntese de ácidos gordos, triglicéridos e colestrol no fígado. A correlação inversa entre as actividades de AMPK e SREBP é reconhecida, mas não se sabe de que forma interagem entre si.

Yu Li demonstra que a AMPK fosforila e inactiva directamente o SREBP, impedindo a clivagem proteolítica do precursor de SREBP e inibindo a sua translocação para o núcleo que se verifica com elevados níveis de glicose e insulina, uma condição propícia à actividade lipogénica no fígado. Este mecanismo explica também o efeito terapêutico da metformina e polifenois na resistência à insulina, esteanose hepática, dislipidémias e aterosclerose.

O efeito inibitório da AMPK no SREBP resulta na inactivação transcricional de enzimas lipogénicas como a ACC1, FAS (essenciais para a síntese de ácidos gordos) e HMG-CoA redutase, esta última catalizadora da reacção limitante na síntese do colesterol. A inibição da síntese de triglicéridos e colesterol no fígado melhora o perfil lipoproteíco através da menor produção de VLDL. Adicionalmente, é provável que a AMPK regule positivamente a remoção das LDL do plasma. Em condições de privação energética, um estado em que a actividade da AMPK é máxima, os receptores de LDL (LDLR) no fígado não são reduzidos embora se verifique um decréscimo no seu mRNA. Julga-se que se deva a uma menor actividade de PCSK9, um factor que degrada o LDLR e que é alvo do SREBP. Este processo poderá actuar em sinergia com a própria inibição na síntese de triglicéridos e colesterol no sentido de um perfil lipoproteico favorável.

Portanto, este estudo revela um mecanismo através do qual a AMPK inibe a síntese de novo de ácidos gordos e triglicéridos e, em consequência, a produção de VLDL no fígado. Convém lembrar que as LDL derivam das VLDL após remoção de uma parte significativa de triglicéridos pela LPL. Apesar das LDL serem um factor de risco cardiovascular mais famoso, as VLDL não são menos importantes. A activação lipogénica é um efeito há muito reconhecido do SREBP, bem como o são os benefícios da AMPK nos sintomas da diabetes e resistência à insulina. Fica mais uma vez demonstrado que aos elevados níveis de açúcar e insulina favorecem a hiperlipidémia e estenose hepática através da activação de SREBP e inibição de AMPK. É apenas mais um contributo para o monte de evidências que refutam a ideia de que são as gorduras da dieta as principais responsáveis pelas perturbações lipídicas assumidas como factor de risco cardiovascular. Eu pergunto… quantas mais serão precisas para alterar de vez este paradigma?





2 comentários:

  1. Será possível conceber uma pílula para manipular níveis de AMPK e com isso gerar um negócio anual de 26 biliões de dólares, mais lucrativo que a empresa Google? Se a resposta for sim, então rapidamente o AMPK se tornará no parâmetro de risco cardiovascular mais importante.

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  2. Já existem vários activadores da AMPK. O mais famoso é provavelmente a metformina, uma droga usada há décadas mas que só agora começa a desvendar os mecanismos de actuação. O resveratol também parece activar a AMPK e daí os efeitos benéficos que se têm verificado. No estudo que referi utilizaram outro polifenol,o S17834, um composto sintético experimental que estimula a actividade de cinase da AMPK. A metformina, um pouco à semelhança das estatinas, é daquelas drogas fantásticas mas que pouco se sabe acerca da sua acção.

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