8 de abril de 2011

O café e a diabetes: em que é que ficamos?


O café é provavelmente a bebida mais popular nos países industrializados. Como tal, os seus efeitos na saúde humana têm sido alvo de um intenso estudo nestes últimos anos. Particular importância se tem dado à acção hiperglicémica e hiperinsulinémica comprovada em ensaios experimentais com indivíduos saudáveis e diabéticos. No primeiro número da revista Journal of Caffeine Research, James Lane faz uma revisão ao conhecimento actual sobre a temática e estabelece linhas de orientação para pesquisas futuras.



Foi o EurekAlert! que me chamou a atenção para este artigo publicado ontem, um veículo a que recorro frequentemente para me manter a par dos últimos desenvolvimentos em ciência. Quando li a manchete, pensei em conclusões bem diferentes daquelas que realmente estão patentes no paper.

New Rochelle, NY, 7 de Abril, 2011 – Um número crescente de estudos sugere que a cafeína perturba o metabolismo da glicose e pode contribuir para um controlo deficiente da diabetes tipo 2, um grande problema de saúde pública. Um artigo de revisão no número inaugural do Journal of Caffeine Research […] examina as evidências mais recentes, contradizendo estudos anteriores e sugerindo um efeito protector da cafeína.



O efeito hiperglicémico da cafeína é conhecido à algum tempo e reproduzido consistentemente em ambiente controlado tanto em pessoas saudáveis como em diabéticos. Estes efeitos são verificados com café e cafeína pura. Os estudos revelam ainda que a tolerância à cafeína que se verifica em consumidores frequentes não atenua o efeito na glicemia e nos níveis de insulina após uma carga oral de glicose. Os resultados indicam uma redução na sensibilidade à insulina e uma menor capacidade em captar a glicose pelos tecidos, o que se traduz em hiperglicémia e hiperinsulinémia compensatória. Convém salientar que o impacto negativo da cafeína na glicemia, um aumento pós-prandial 18-26 % superior, é semelhante em amplitude às reduções que se verificam com drogas anti-diabéticas.

A primeira vez que se estudou a relação entre a cafeína e a hiperglicémia foi em 1967. Jankelson verificou que 2 cups (~480 mL) de café instantâneo (típico american coffee e não o espresso do sul da Europa) exagerava o aumento dos níveis de açúcar no sangue após uma infusão intravenosa de glicose, comparativamente a 2 cups de água quente. Embora muitos estudos se tenham seguido, os mecanismos que justificam este efeito estão ainda muito mal caracterizados.

Foram levantadas duas hipóteses explicativas: a cafeína é um antagonista dos receptores P1 (receptores de adenosina) e o estímulo à secreção de hormonas de stress, nomeadamente o cortisol e epinefrina (adrenalina). Esta última hipótese parece ser mais provável e foi verificada recentemente em 2 estudos com humanos.

Na verdade, os estudos epidemiológicos contradizem em grande parte os resultados experimentais, relatando que os adultos não-diabéticos que consumem quantidades substanciais de café, mais de 4 cups por dia, acarretam um menor risco de desenvolver a doença no futuro. Uma meta-análise dos resultados destes estudos observacionais estabelece que a cada cup consumido diariamente está associada uma redução de 7 % no risco de diabetes tipo 2.

No entanto, a mesma associação inversa foi obtida com o café descafeinado e chá. Explicações causais requerem mecanismos plausíveis ainda não estabelecidos. A especulação mais comum é que outros compostos que não a cafeína estarão na base deste efeito protector, embora não existam evidências de outros elementos bioactivos comuns ao café, descafeinado e chá. Uma meta-análise destes estudos sugere, em contraste, que os indivíduos que consomem apenas uma ou duas doses de café têm um risco 26 % maior de desenvolver diabetes do que quem tem um consumo inferior a um por dia em média. Portanto, a relação inversa com o risco de diabetes parece estar relacionada a um consumo massivo de café mas não com o moderado. Uma explicação possível é que um consumo muito acentuado de café esteja relacionado com um menor consumo de refrigerantes açucarados, implicados consistentemente com o desenvolvimento de doenças metabólicas.

James Lane conclui:

“Dada a magnitude dos efeitos observados da cafeína nestes estudos, a remoção destes efeitos adversos pode ser benéfica para a prevenção e controlo da diabetes. Embora seja prematuro recomendar aos diabéticos tipo 2 ou indivíduos de risco uma abstinência completa de produtos cafeinados, é certamente tempo de determinar se isso se prova benéfico. O passo seguinte para resolver a controvérsia corrente virá dos ensaios clínicos que estudem a abstinência ao café por parte de diabéticos tipo 2 consumidores frequentes, de forma a determinar se a remoção dos efeitos da cafeína no metabolismo da glicose melhora o controlo da glicemia e contribui para uma melhor gestão clínica da doença”.

Não entendo nestas palavras nenhuma sugestão de “um efeito protector da cafeína”, apenas da necessidade de mais estudos experimentais serem efectuados antes de uma posição ser assumida.

Acho prematuro e até irresponsável contradizer resultados de ensaios clínicos experimentais com base em estudos epidemiológicos, limitados pelas características observacionais e relações meramente estatísticas, alheias a qualquer relação causal. É quase como inverter o ónus da prova. Reparem nos seguintes mapas que representam a prevalência da obesidade nos EUA e a cobertura de rede móvel:



Dadas as semelhanças aparentes, posso concluir que a cobertura de rede celular é uma causa de obesidade? Ou que a gordura amplifica as ondas electromagnéticas? Terão alguma relação plausível? Vivemos num mundo de aparências que infelizmente também afectam a percepção geral da ciência, explorado até à exaustão pela má imprensa.

PS: Eu adoro café.





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