4 de abril de 2011

O capitalismo liberal e a obesidade: existe relação?


Eu tenho uma forte convicção de que as causas para a epidemia de obesidade dos tempos modernos não se limitam a factores biológicos e que também têm um importante componente económico e social, uma artificialidade que influencia significativamente os nossos comportamentos. A disparidade de preços entre os alimentos é apenas uma delas. Avner Offer, economista da Universidade de Oxford, dá mais uma achega a esta temática num artigo relativamente recente publicado na revista Economics and Human Biology. A insegurança económica nos mercados liberais parece ser mais importante do que as próprias desigualdades sociais para o crescente fenómeno da obesidade.


Os rankings de obesidade indicam um agrupamento de países onde a prevalência é particularmente alarmante: os países anglo-saxónicos, nomeadamente os EUA, Reino Unido, Canada, Austrália, Irlanda e Nova Zelândia. Para explicar este fenómeno, Avner Offer testa a hipótese de que o liberalismo económico partilhado por esta cultura, que resulta numa insegurança económica individual, é uma causa de stress que potencia a obesidade. A estrutura institucional promovida pelas sociedades neoliberais favorece a insegurança e desigualdade, especialmente através dos baixos rendimentos e reduzida segurança no emprego. Esta incerteza no futuro é um factor reconhecido para o stress e doença.

Uma das respostas fisiológicas ao stress é ganhar peso e armazenar gordura. Trata-se de um mecanismo biológico de sobrevivência ilustrado com mestria no livro de SapolskyWhy Zebras Don’t Get Ulcers”. Os animais selvagens e em cativeiro respondem à incerteza de alimento com um aumento de peso e gordura, de forma a garantir reservas em períodos de escassez. Offer sugere que algo semelhante se passe nas sociedades humanas modernas e que a insegurança económica se traduza numa insegurança alimentar que incita uma série de mecanismos obesogénicos. O organismo reage da mesma forma a estímulos stressantes distintos.

São geralmente distinguidos dois tipos de capitalismo: os mercados liberais (EUA, Reino Unido, Austrália, Canada, Nova Zelândia e Irlanda) e os mercados coordenados da Alemanha, Japão, Suíça, Holanda, Bélgica, Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlândia e Áustria. Os países mediterrânicos, como Portugal, parecem ser mais “ambíguos” segundo o autor. De acordo com a hipótese levantada, as reformas liberais estimularam a competição no mercado de trabalho e consumo, sabotando a estabilidade e segurança individuais, com particular impacto nas classes mais desfavorecidas e desprotegidas a nível económico.

O economista comparou 11 países (EUA, Reino Unido, Canada, Austrália, Finlândia, França, Alemanha, Itália, Noruega, Espanha e Suécia) e verificou que os regimes de mercado liberal, o cluster de língua Inglesa (EUA, Reino Unido, Canada e Austrália), apresentavam uma prevalência média de obesidade 1/3 superior. Num extremo estavam os EUA, com uma prevalência de obesidade superior a 30%, e no outro a Noruega onde um censo verificou uma taxa de apenas 5%.

Offer conclui que os mercados liberais apresentam maiores taxas de obesidade e com um aumento mais acentuado. Uma razão apontada é a própria liberdade de mercado. O preço da fast food é consideravelmente inferior nas economias liberais, devido às menores taxas, exercendo um maior impacto sobre estes países que se reflecte na enorme prevalência de obesidade. Geralmente, as políticas económicas dos Estados liberais centram o investimento no estímulo à indústria, enquanto que as economias mais protectoras focam os recursos nos contribuintes.

Mas a influência mais poderosa que os autores encontraram foi a insegurança económica e no trabalho, especialmente no que diz respeito à protecção na saúde e rendimentos previsíveis. É curiosa a relação com a insegurança na saúde, mas facilmente explicável se tivermos em conta que as despesas médicas imprevistas são a principal causa de falência das famílias nos EUA, onde não existe um sistema de saúde público. A ausência de legislação de protecção laboral e uma cultura sindical, coloca os trabalhadores em incerteza quanto ao seu futuro e rendimento certo.


 “As políticas para reduzir a obesidade tendem a focar-se no encorajamento das pessoas para cuidar de si próprias, mas este estudo sugere que a obesidade tem maiores causas sociais. O aumento da obesidade começou durante os anos 80 e coincidiu com a emergência do liberalismo nos países de língua Inglesa. Pode ser que os benefícios económicos dos mercados flexíveis e abertos tenham um preço a pagar pelo indivíduo e saúde pública que raramente é tido em consideração. Basicamente, a nossa hipótese é que as reformas liberais estimularam a competição tanto no trabalho como naquilo que consumimos, diminuindo a estabilidade e segurança individuais”.

Mais uma vez fica justificada a minha admiração pela cultura nórdica, um capitalismo social-democrata altamente regulamentado. Não só conseguiram criar uma estrutura social forte e riqueza, como também gerem com distinção estas questões de saúde pública. Quando iniciaram uma política de taxação discriminatória dos alimentos, a população rapidamente compreendeu o objectivo e que se tratava de uma medida para o bem da comunidade, uma palavra que é realmente levada a sério.

Não julgo que seja alguma vez possível adoptar um modelo semelhante no nosso país. As diferenças culturais, e até de recursos sejamos justos, não o permitem. Apesar de o estudo não dizer respeito a Portugal directamente, deixa implícito algo assustador. Nos tempos inseguros que vivemos hoje, especialmente a nível de emprego onde a precariedade é a norma, é espectável que todos estes fenómenos socioeconómicos que resultam num ambiente obesogénico se amplifiquem. Como a produtividade está intimamente relacionada com a saúde, não é um cenário animador e o crescimento pode estar comprometido a médio-longo prazo.

Esta perspectiva de Avner Offer foi novidade para mim, mas não totalmente estranha. A economia é, a meu ver, o principal factor abiológico na génese da obesidade no mundo moderno, exercendo o seu peso de várias formas. Esta é apenas mais uma. Para ser sincero, acho fútil grande parte dos gastos em investigação de fórmulas mágicas para a obesidade quando a resposta mais eficaz está a nossa frente: uma política económica e social orientada. Não culpemos apenas o aumento do consumo de açúcares e calorias no geral. É preciso pensar nas condições que o permitiram, para as quais o incentivo à disparidade de preços e políticas económicas centradas na produção em massa contribuíram sunstâncialmente. Talvez o investimento no indivíduo tenha maior retorno, dando-lhe condições para fazer as melhores e mais saudáveis escolhas alimentares. É uma política perfeitamente compatível com a economia de mercado, tal como os países nórdicos nos ensinam. 

Sérgio Veloso
 





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1 comentário:

  1. O neoliberalismo aumenta o stress da maioria da população, mas também diminui a qualidade dos alimentos.
    O sector privado faz lobbying para ter mais rendimento. Para as mega empresas alimentares isso faz-se através de produtos mais baratos de produzir, com prazos de validade mais elevados e com produtos mais viciantes.
    Para os humanos é um instinto escolher coisas gordurosas, doces e salgadas. Depois existe a indoutrinação e a banalização do consumo destes alimentos, que não tem nenhuma força neutralizante.
    Existem umas campanhas contra a diabetes e obesidade que são minúsculas comparadas com a avalanche de marketing para produtos que são prejudiciais.
    Nas próximas décadas, o aumento da diabetes e da obesidade vai ter um custo muito elevado a nível humano e financeiro. Nessa altura é que o "povo" vai começar a pensar nisto.
    No ano passado fui aos EUA e nas estações de serviço e em hipermercados água era mais cara do que a coca cola! Como é que isso é possível? Só com muito lobbying, subsídios para a produção (HFCS) e economia de escala!

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