11 de abril de 2011

O leite, opióides e Síndrome de Morte Súbita Infantil


Como sabem (ou vão ficar a saber), eu não sou propriamente fã do leite e produtos lácteos no geral. Tenho vários motivos para isso e tenciono brevemente fazer uma curta revisão à literatura para justificar a minha posição. Mas muito recentemente foi publicado um artigo na revista Neuropeptides que me chamou a atenção. Uma equipa de investigadores polacos liderada por Elzbieta Kostyra estabeleceu uma possível relação entre o consumo de leite e o síndrome de morte súbita em crianças recém-nascidas.


Como o próprio nome sugere, o síndrome de morte súbita infantil (SIDS) é reconhecido quando uma criança morre inesperadamente e sem uma causa evidente após autópsia. Na patogénese do SIDS julga-se que esteja envolvida uma prematuridade neurológica, infecções respiratórias, factores genéticos ou apneia anémica. Estão mais susceptíveis ao SIDS as crianças expostas a factores pós-natais como dormir de barriga para baixo, tabagismo passivo e temperaturas elevadas no quarto durante o sono.

Mas existem evidências crescentes de que alguns casos de SIDS são despoletados pelo leite de bovino através das β-casomorfinas (BCMs). As β-casomorfinas são análogos dos opiatos libertados da caseína bovina ou humana durante a digestão ou processamento industrial. São péptidos bioactivos que actuam através dos receptores MOP e com efeitos semelhantes à morfina. A penetração destes BCMs no sistema nervoso central imaturo das crianças pode inibir o centro respiratório no cérebro levando eventualmente a hipoxia, apneia e morte. Material imunoreactivo às casomorfinas é encontrado frequentemente nos tecidos de crianças que morreram de SIDS.

Existe uma ideia generalizada de que a o epitélio intestinal apenas é permeável a aminoácidos e, portanto, qualquer péptido bioactivo perde a sua função durante o processo digestivo. Na verdade, é hoje evidente que tal não acontece e muitos oligopéptidos permanecem intactos e são absorvidos dessa forma, como as exorfinas. Especialmente susceptíveis são os recém-nascidos que apresentam uma maior permeabilidade intestinal devido a uma mucosa ainda imatura. A BCM bovina é muito rica em prolina, o que a torna resistente às enzimas proteolíticas. No entanto, ela pode ser inactivada pela dipeptidil-peptidade IV (DPPIV), uma aminopeptidase membranar presente no epitélio dos tecidos. Uma forma solúvel desta enzima aparece também no sangue, urina, sémen e líquido amniótico. Embora a sua função exacta seja ainda desconhecida, pensa-se que esteja envolvida na modificação, processamento ou inactivação de hormonas, citocinas, neuropeptidos, factores de crescimento e certos péptidos derivados da alimentação como a β-casomorfina e outras exorfinas.

A equipa avaliou a concentração no sangue de beta-casomorfina-7 bovina (bBCM-7) em crianças com risco elevado de SIDS e em saudáveis, entre os 2 e os 7 meses de idade. A bBCM-7 tem uma sequência aminoacídica semelhante à BCM-7 humana excepto em 2 aminoácidos, implicando diferenças na afinidade ao MOP e tempo de vida no organismo.

Todas as crianças analisadas apresentaram bBCM-7 no sangue, incluíndo as saudáveis alimentadas apenas com leite materno. Uma vez que todas as mães que participaram no estudo relataram beber leite com frequência, os autores supõem que o péptido seja transferido para a glândula mamaria e libertado no leite. No caso das crianças de risco alimentadas com leite materno, a concentração de bBCM-7 não diferiu substancialmente dos controlos. No entanto, no subgrupo de risco alimentado com proteína whey ou caseína modificados, as quantidades medidas de bBCM-7 foram até 4x superiores relativamente a saudáveis alimentadas também artificialmente. Vários estudos independentes revelam que as fórmulas sintéticas infantis têm bBCM-7 ou libertam-na em quantidades apreciáveis durante a digestão, especialmente em produtos à base de leite de vaca integral e hidrolisados de caseína.

Existem várias hipóteses que apontam para a participação destas exorfinas na patogénese do SIDS. Sabe-se que têm a capacidade de penetrar no sistema nervoso e activar uma série de áreas cerebrais. Convém salientar que nas crianças a barreira hematoencefálica está também subdesenvolvida e é permeável a algumas macromoléculas. Uma influência directa da bBCM-7 no centro respiratório é apresentada como o mecanismo primário da sua possível participação na patogénese do SIDS. Adicionalmente, alguns estudos recentes implicam níveis reduzidos de serotonina com a ocorrência de SIDS e a bBCM é um reconhecido antagonista dos receptores de serotonina, sugerindo mais um mecanismo não mediado por MOP.

A presença de bBCM-7 em todas as crianças indica que não é a sua aparição que as coloca em risco, mas sim a sua quantidade e persistência no sangue. Como tal, a actividade de DDPIV também foi quantificada. Nas crianças saudáveis, verificou-se uma actividade enzimática de 99 U/L, significativamente maior do que o encontrado em todas as crianças de risco, 57 U/L, independentemente do tipo de alimentação. Embora não se conheça uma explicação para estas diferenças, é possível concluir que existe uma menor capacidade em metabolizar a bBCM-7 em crianças de risco, o que é comprovado não só pelos níveis sanguíneos mas também pela maior presença desse péptido no grupo de crianças de risco alimentadas com leite de vaca modificado.

Os autores concluem que "os resultados da nossa pesquisa sugerem a existência de uma relação entre a ocorrência de β-casomorfina-7 na dieta e a apneia em crianças pré-dispostas".

Este estudo tem a validade que tem e não representa mais do que dados preliminares para uma investigação futura mais robusta. A amostra é muito pequena e existem algumas variáveis estranhas que podem influir nos resultados. No entanto, não é o primeiro trabalho a implicar as exorfinas em disfunções humanas. Para além da caseína, existem outras fontes destes péptidos bioactivos como o glúten do trigo. Num mundo em que falar mal do leite é sacrilégio, cada vez que surge um estudo nesse sentido ele merece a minha atenção. Se estas casomorfinas são capazes de interagir com os receptores de opiatos e de serotonina, é expectável que tenham outros efeitos no organismo e a regulação do apetite é uma delas, que pretendo explorar numa próxima oportunidade.



6 comentários:

  1. Não tenho duvidas que o leite materno (não contaminado) é excelente para os bébés. O leite de vaca e as formulas é que podem trazer problemas.

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  2. O estudo aponta precisamente nesse sentido

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  3. Relativamente às beta-Casomorfinas, é interessante saber que, por exemplo, a beta-casomorfina 7 e a 8 do leite bovino não têm a mesma sequência de aminoácidos que a beta-casomorfina 7 e 8 do leite humano.

    Kaminski S, Cieslinska A, Kostyra E. J Appl Genet. 2007;48(3):189-98.

    A teoria das exorfinas tem sido apontada como possível explicação para os potenciais efeitos benéficos da dieta sem glúten e caseína para crianças autistas, mas tanto quanto sei não há boa evidência científica a suportá-la.

    De qualquer modo, existem evidências que esses 2 alimentos possam ter um papel causal na auto-imunidade e existem diversos trabalhos a apontar a auto-imunidade e disfunção ao nível da permeabilidade intestinal como outra possível explicação para ao autismo.

    Finalmente, e isto é que me parece realmente importante, muitos pais de crianças autistas relatam grandes melhorias nos sintomas quando submetem os seus filhos a uma dieta isenta de leite e cereais com glúten.

    Algumas referências sobre autismo:

    Warren RP et al. Strong association of the third hypervariable region of HLA-DR beta 1 with autism. J Neuroimmunol 1996;67:97-102.


    Vojdani A, O'Bryan T, Green JA, Mccandless J, Woeller KN, Vojdani E, Nourian AA, Cooper EL. Immune response to dietary proteins, gliadin and cerebellar peptides in children with autism. Nutr Neurosci. 2004 Jun;7(3):151-61.

    Vojdani A, Bazargan M, Vojdani E, Samadi J, Nourian AA, Eghbalieh N, Cooper EL. Heat shock protein and gliadin peptide promote development of peptidase antibodies in children with autism and patients with autoimmune disease. Clin Diagn Lab Immunol. 2004 May;11(3):515-24

    Vojdani A, Pangborn JB, Vojdani E, Cooper EL. Infections, toxic chemicals and dietary peptides binding to lymphocyte receptors and tissue enzymes are major instigators of autoimmunity in autism. Int J Immunopathol Pharmacol. 2003 Sep-Dec;16(3):189-99.

    Vojdani A, Campbell AW, Anyanwu E, Kashanian A, Bock K, Vojdani E. Antibodies to neuron-specific antigens in children with autism: possible cross-reaction with encephalitogenic proteins from milk, Chlamydia pneumoniae and Streptococcus group A. J Neuroimmunol. 2002 Aug;129(1-2):168-77

    Enstrom AM, Van de Water JA, Ashwood P. Autoimmunity in autism. Curr Opin Investig Drugs. 2009 May;10(5):463-73.

    Castellani ML, Conti CM, Kempuraj DJ, Salini V, Vecchiet J, Tete S, Ciampoli C, Conti F, Cerulli G, Caraffa A, Antinolfi P, Galzio R, Shaik Y, Theoharides TC, De Amicis D, Perrella A, Cuccurullo C, Boscolo P, Felaco M, Doyle R, Verrocchio C, Fulcheri M. Autism and immunity: revisited study. Int J Immunopathol Pharmacol. 2009 Jan-Mar;22(1):15-9.

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    White JF. Intestinal pathophysiology in autism. Exp Biol Med (Maywood). 2003 Jun;228(6):639-49.

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  4. Obrigado pelo excelente contributo Pedro

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  5. Bom Dia Sérgio,
    Estou pesquisando sobre o tema aqui citado e peço se possível o senhor encaminhar o artigo ou mesmo mais referências sobre o assunto.Atenciosamente
    Heloise Morais
    heloise.morais@hotmail.com

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  6. O grande problema e que naso sabemow o que os caras estao relamente colocando na racoes dos animais,pra mim dai vem o problema..e nao o pasto normal..esta avendo uma mutacao genetica serissima...so Deus sabe como nascerao as criancas daqui alguns anos!:_( ja basta a soja que praticamente no BRasil e vendida so modificada,em um pais que poderia ser o maior produtor de sementes do MUNDO!..mais todo estao se vendendo,para uma big empresa que esta monopolizando a area de fertilizantes..

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