2 de abril de 2011

O mistério de Roseto, Pennsylvania


Quando falamos em epidemiologia cardiovascular, é incontornável mencionar o “efeito Roseto”. Deparei-me com este estudo diversas vezes enquanto pesquisava para a minha tese e não é raro ainda vê-lo citado em artigos da especialidade. Roseto é uma pequena cidade de imigrantes na Pennsylvania que deu lugar a um dos estudos mais curiosos e empolgantes da medicina moderna. Conhecer e compreender os resultados deste trabalho é essencial em algumas temáticas que tento abordar aqui no blogue. Ilustra na perfeição a ideia de que o ambiente que criamos define aquilo que somos. Podia seleccionar um dos vários textos técnicos sobre o tema ou escrever um, mas não o fiz. Optei por traduzir e adaptar o primeiro capítulo do livro “Outliers, the Story of Success”, da autoria de Malcolm Gladwell, um jornalista e sociólogo britânico residente nos EUA, considerado um dos colunistas mais influentes da actualidade. O autor consegue transmitir como nenhum outro as implicações do estudo nas suas várias dimensões. Como dá para depreender do título, o livro trata o que há de diferente nas pessoas bem sucedidas e que deixaram a sua marca no mundo, tal como Stewart Wolf, o cérebro por detrás do estudo de Roseto, um homem admirável e que, nos anos 60, mudou para sempre a forma de pensar medicina.



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Roseto Valfortore fica a 150 km SE de Roma, no sopé dos montes Apeninos na província Italiana de Foggia. Ao estilo das vilas medievais, a cidade está organizada à volta de uma grande praça central. Enfrentando a praça está o Palazzo Marchesale, o palácio da família Saggese, um antigo grande proprietário da região. Uma arcada lateral leva à igreja Madonna del Carmine. Degraus estreitos de pedra seguem pela encosta, flanqueados por casas de pedra de dois andares e telhados de telha vermelha.

Durante séculos, os paesani de Roseto trabalharam nas pedreiras de mármore locais ou cultivaram os campos no vale, descendo 6 e 7 km de montanha pela manhã e fazendo a mesma longa jornada ao final do dia. A vida era difícil. Os aldeões eram pouco instruídos e desesperadamente pobres, sem esperanças de uma melhoria económica, até que uma notícia chegou a Roseto no final do séc. XIX sobre uma “terra de oportunidades” no outro lado do oceano.

Em Janeiro de 1882, um grupo de 11 Rosetanos, 10 homens e um rapaz, partiram para Nova Iorque. Passaram a primeira noite na América a dormir no chão de uma taverna em Mulberry Street, na Little Italy de Manhattan. Depois aventuraram-se para oeste, encontrando trabalho numas pedreiras de ardósia a 100 km oeste da cidade de Bangor, na Pennsylvania. No ano seguinte, 15 Rosetanos deixaram Itália pela América, e vários elementos desse grupo acabaram também em Bangor, juntando-se aos seus compatriotas no trabalho da pedreira. Esses imigrantes deram notícias de volta à cidade natal sobre a promessa do Novo Mundo, e logo, grupo após grupo de Rosetanos fez as malas e partiu para a Pennsylvania. Apenas em 1894, cerca de 12 000 Rosetados requisitaram passaportes para a América, deixando as ruas da sua cidade natal ao abandono.

Os Rosetanos começaram a comprar terrenos numa encosta rochosa ligada a Bangor por um caminho íngreme e esburacado. Construíram casas de dois andares com telhas vermelhas ao longo da encosta. Ergueram uma igreja com o nome Our Lady of Mount Carmel e baptizaram a rua principal, onde ficava a igreja, de Garibaldi Avenue, em honra do grande herói da unificação Italiana. No início, eles chamaram à sua vila New Italy, mas depressa mudaram para Roseto, muito apropriado visto que quase todos eles provinham da mesma vila em Itália.

Em 1896, um jovem e dinâmico padre chamado Pasquale de Nisco assumiu a igreja de Our Lady of Mount Carmel. De Nisco estabeleceu sociedades espirituais e organizou festivais. Ele encorajou os aldeões a limpar a terra e plantar cebolas, feijões, batatas, melões e árvores de fruta nos grandes quintais nas traseiras das suas casas. A cidade nasceu. Os Rosetanos começaram a criar porcos e a cultivar uvas para fazer o seu próprio vinho. Escolas, um parque, um convento e um cemitério foram construídos. Pequenas lojas, padarias, restaurantes e bares abriram ao longo de Garibaldi Avenue. Mais de uma dúzia de fábricas de camisas emergiram. A vizinha Bangor era maioritariamente britânica e a outra cidade mais próxima era alemã, a razão porque, dadas as más relações entre ingleses, alemães e italianos, Roseto ficou estrita aos Rosetanos. Se vagueasse pelas ruas de Roseto no inicio de 1890, ouviria apenas o dialecto Italiano do sul. Roseto, Pennsylvania, era o seu próprio pequeno e auto-suficiente mundo, desconhecido da sociedade circundante, e poderia muito bem ter ficado assim se não fosse um homem chamado Stewart Wolf.

Wolf era médico e professor. Ele estudava a digestão e o estômago e ensinava na escola de medicina da Universidade de Oklahoma. Passava os seus Verões numa quinta na Pennsylvania, não muito longe de Roseto. “Uma das vezes em que estivemos lá durante o Verão, fui convidado para dar uma conferência na sociedade médica local”, disse Wolf mais tarde numa entrevista. “Quando a palestra terminou, um dos médicos locais convidou-me para beber uma cerveja. Enquanto bebíamos ele disse ‘Sabe, eu exerço medicina há 17 anos. Recebo pacientes de todo o lado e raramente encontro alguém de Roseto com menos de 65 anos que sofra de doenças cardíacas’”.

Wolf foi apanhado de surpresa. Estávamos na década de 1950, anos antes da invenção das drogas para o colesterol e medidas agressivas para prevenir as doenças cardiovasculares. Os ataques cardíacos eram uma epidemia nos EUA, a principal causa de morte em homens abaixo dos 65 anos. Era impossível ser um médico e não ver doenças cardiovasculares.

Wolf decidiu investigar. Assegurou a ajuda de alguns dos seus alunos e colegas de Oklahoma. A equipa reuniu os certificados de óbito dos residentes de Roseto. Analisaram os todos relatórios médicos. Verificaram o historial clínico e construíram árvores genealógicas inteiras. “Nós estávamos atarefados”, disse Wolf. “Decidimos fazer um estudo preliminar. Começámos em 1961. O presidente da câmara disse-nos, ‘as minhas irmãs vão ajudá-lo’. Ele tinha quatro irmãs. Ele disse, ‘pode ficar com a sala do conselho’. As senhoras traziam-nos almoço. Tínhamos pequenos gabinetes onde podíamos retirar amostras de sangue e fazer electrocardiogramas. Estivemos lá quatro semanas. Depois falei com as autoridades. Deram-nos a escola durante o Verão e convidámos toda a população de Roseto para ser testada”.

Os resultados foram surpreendentes. Em Roseto, virtualmente ninguém com menos de 55 anos morreu de ataque cardíaco ou mostrou sinal de doença cardiovascular. Para os homens acima dos 65 anos, a taxa de mortalidade por doença cardíaca era metade da observada a nível nacional. As taxas de mortalidade por todas as causas eram de facto 30-35% mais baixas em Roseto do que no resto dos EUA.

Wolf trouxe um amigo seu para o ajudar, um sociólogo de Oklahoma chamado John Bruhn. “Contratei estudantes de medicina e sociologia como entrevistadores e fomos de casa em casa para falar com todas as pessoas da cidade com mais de 21 anos”, lembrou Bruhn. “Não havia suicídio, alcoolismo, vícios em drogas, e o crime era raro. Depois procurámos úlceras gástricas. Dessas também não tinham. Estas pessoas estavam a morrer de velho e apenas isso”.

A profissão de Wolf tinha um nome para um local como Roseto – um lugar que ficava fora da experiência quotidiana, onde as regras normais não se aplicavam. Roseto era um outlier.

Os primeiros pensamentos de Wolf foram que os Rosetanos deviam ter mantido algumas práticas alimentares do Velho Mundo que os deixaram mais saudáveis do que os outros Americanos. Mas rapidamente se apercebeu que isso não era verdade. Os Rosetanos cozinhavam com banha em vez do azeite utilizado em Itália. A pizza em Itália era uma fina base com sal, azeite e talvez alguns tomates, anchovas ou cebolas. Pizza na Pennsylvania era massa de pão com linguiça, peperoni, salame, presunto e ovos. Doces como biscoitos e taralli costumavam ser reservados para o Natal e Páscoa; em Roseto, eles eram comidos durante todo o ano. Quando dietistas analisaram os hábitos alimentares dos Rosetanos, verificaram que 41% das calorias provinham de gorduras. Também não era uma cidade em que as pessoas se levantassem de madrugada para fazer yoga e correr 10 km. Os Rosetanos da Pennsylvania fumavam e muitos eram obesos.

Se a dieta e exercício não explicavam as observações, então e a genética? Os Rosetanos eram um grupo aparentado da mesma região de Itália, e o pensamento seguinte de Wolf foi que eles poderiam estar protegidos da doença. Então, ele procurou parentes dos Rosetanos que viviam em outros locais dos EUA para ver se partilhavam da mesma notável boa saúde. Não partilhavam.

Ele olhou então para a região onde os Rosetanos viviam. Seria possível que houvesse alguma coisa acerca de viver naquela encosta que fosse benéfico para a sua saúde? As duas cidades mais próximas eram Bangor, logo abaixo da montanha, e Nazareth, a alguns km de distância. Ambas eram do mesmo tamanho de Roseto e ambas eram habitadas pelo mesmo tipo de trabalhadores europeus imigrantes. Wolf procurou nos registos médicos dessas cidades. Para homens com mais de 65 anos, a taxa de mortalidade por doença cardíaca eram 3 vezes superiores à de Roseto. Mais um beco sem saída.

O que Wolf começou a compreender foi que o segredo de Roseto não era a dieta ou exercício, genes ou localização. Era a própria Roseto. Enquanto Bruhn e Wolf caminhavam pela cidade, eles perceberam porquê. Observaram como os Rosetanos se visitavam uns aos outros frequentemente, paravam para conversar na rua ou passavam o tempo a cozinhar para os vizinhos no quintal. Eles perceberam a estrutura social da cidade, estruturada em clãs familiares. Viram como cada casa albergava 3 gerações debaixo do mesmo tecto, e o respeito que os avós comandavam. Eles experimentaram o efeito unificador e calmante da igreja. Contaram 22 organizações cívicas diferentes numa cidade com menos de 12 000 habitantes. Eles aperceberam-se da ética comunitária que desencorajava os ricos de ostentar o seu sucesso e ajudava as pessoas a ofuscar os seus fracassos.

Ao transplantarem a cultura peasani do sul de Itália para as montanhas a Este da Pennsylvania, os Rosetanos criaram uma poderosa e protectora estrutura social, capaz de os isolar das pressões do mundo moderno. Os Rosetanos eram saudáveis por causa de onde eram, por causa do mundo que criaram para eles próprios na sua pequena cidade da montanha.

“Lembro-me de ir a Roseto pela primeira vez e ver três gerações sentadas à mesa, as pessoas a andar pela cidade, sentarem-se nos alpendres a conversar”, disse Bruhn. “Era mágico”.

Quando Bruhn e Wolf apresentaram pela primeira vez as suas descobertas à comunidade médica, pode imaginar o tipo de cepticismo que enfrentaram. Eles foram a conferências onde os seus pares apresentavam longas tabelas de dados, referindo-se a este ou aquele gene, a este ou aquele processo fisiológico, e eles estavam ali a falar sobre os benefícios misteriosos e mágicos de as pessoas pararem para conversar na rua e em ter 3 gerações debaixo do mesmo telhado. Viver uma vida longa julgava-se depender em grande parte daquilo que somos, dos nossos genes. Dependia nas decisões que fazíamos e como éramos tratados pela medicina. Ninguém pensava na saúde nos termos da comunidade.

Wolf e Bruhn tiveram de convencer o lobbie médico a pensar sobre saúde e ataques cardíacos de uma forma totalmente nova. Levaram-nos a entender que não seriam capazes de perceber porque razão alguém era saudável se estivessem limitados a pensar nas escolhas e acções pessoais no isolado. Tinham de entender a cultura de que fazia parte, quem eram os seus amigos e famílias, e de onde vinham os seus parentes. Tinham de apreciar a ideia de que os valores do mundo em que vivemos e as pessoas à nossa volta têm um efeito profundo naquilo que somos.
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5 comentários:

  1. Excelente. Como a componente social tem quase tanta importância como a dieta.

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  2. Com base nisto é de prever um futuro pouco brilhante em Portugal !

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  3. Este é dos meus artigo preferidos. É senso comum que viver feliz e ser aceite numa comunidade faz bem à saúde, mas provado cientificamente é bastante engraçado.

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