24 de maio de 2011

Afinal os Americanos portam-se bem... porque estarão cada vez mais gordos?


O Calorie Control Council é uma associação sem fins lucrativos fundada em 1966 que representa a indústria alimentar "light" e “sugar-free”. Há poucos dias, esta organização publicou os resultados de uma sondagem acerca da sensibilidade dos Americanos para o problema do peso. Os resultados são esclarecedores. Os Americanos cumprem as recomendações dietéticas em vigor.


Apenas 8% [dos Americanos] seguem dietas restritivas ou programas de controlo de peso
“Apesar de todo o furor recente, as dietas restritivas como a de Dukan ou Atkins - e programas como o de Jenny Craig ou Weight Watchers - aparecem no fundo da lista dos métodos mais populares para perda de peso, de acordo com um novo inquérito nacional publicado esta semana pelo Calorie Control Council (CCC). No topo da lista estão o corte no açúcar, comer porções menores, utilizar produtos com menos calorias e sem açúcar e combinar a restrição calórica com exercício. 
Independentemente dos métodos usados, os Americanos estão a apanhar a mensagem. O inquérito do CCC verificou que 54% dos Americanos estão a tentar perder peso. 
[…] 
Os resultados do CCC - com indivíduos com mais de 18 anos - contrastam com muito do ênfase recente e notícias sobre dietas "reais" (o caso de Kate Middleton e a dieta de Dukan) e outros regimes de celebridades. Estas dietas e programas restritivos não representam a América, tal como outros métodos pouco populares entre os inquiridos: programas on-line para controlo de peso (7% dos inquiridos), drogas (13%) e saltar refeições (17%). No lado oposto da escala, cortar em alimentos ricos em açúcar foi mencionado frequentemente (86% dos inquiridos). Outros métodos de controlo de peso populares são consumir porções mais pequenas (85%) e optar por produtos de baixo valor calórico e sem açúcar (78%). Além disso, 73% dos Americanos que tentam perder peso dizem que tentam combinar a redução calórica com exercício físico. 
"As dietas restritivas, tal como cortar certos alimentos por completo, podem funcionar a curto prazo, mas geralmente não são eficazes a longo-termo", diz Beth Hubrick, uma dietista registada do CCC.”

Apesar do bom comportamento dos Americanos, a tendência da obesidade continua crescente, a uma taxa  cada vez mais assustadora e alarmante. Se as recomendações estão a ser seguidas, o problema estará onde? Nas pessoas ou nas recomendações?

De acordo com o press release, "… a maior parte dos que tentam perder peso admitem que estão frustrados com a sua falta de progresso." Porque é que isto não me surpreende? Quando as directivas se centram na redução do consumo energético e não no tipo de alimentos e boas-práticas, o resultado será o mesmo que temos tido até aqui. Como diria Einstein, louco é quem repete as mesmas coisas à espera de resultados diferentes.

"De facto, 50% dos adultos Americanos dizem agora que precisam de perder 4.5 Kg, contra os 40% de 2004. […] Para ser bem sucedido, os especialistas concordam que são necessárias modificações no estilo de vida. […] É tudo uma questão de calorias ingeridas e calorias gastas. Para uma perda de peso saudável, reduza as calorias numa dieta equilibrada, e queime energia através do exercício físico. […] Continuar a aumentar a actividade física e comer de forma mais inteligente, reduzindo as porções e limitando a gordura e o açúcar ajudará a perder peso de forma permanente".

Esta sondagem confirma algo que suspeitava há muito. Aliás, vários estudos apontavam já nesse sentido. O cerne do problema não está na indisciplina alimentar das pessoas, ou sedentarismo, nem tão pouco na falta de aderência às recomendações oficiais para perder peso. Depois de ouvir a mesma lenga-lenga vezes sem conta, todos sabemos o que é preciso fazer para perder peso. Desculpem… todos sabemos o que nos dizem que é preciso para perder peso. Os resultados estão à vista.

É interessante notar que a crescente obesidade acompanha o maior consumo de produtos dietéticos:


Aqui ficam também as preferências alimentares dos Americanos em dieta:


Mas existe luz ao fundo do túnel. Apesar de os responsáveis do CCC dizerem que "limitar a gordura e o açúcar ajudará a perder peso", os Americanos parecem mais virados para a questão do açúcar do que da gordura.


Se as pessoas consumem cada vez mais produtos dietéticos, não acham estranho a epidemiologia actual da obesidade? Não é contraditório com o crescimento exponencial que se tem verificado nos últimos anos? Talvez seja altura de desmascarar os lobbies da indústria alimentar e apontar os culpados: os alimentos processados que abusam da componente hedónica da alimentação. E estão incluídos todos esses produtos light e sugar-free que não são mais que lobos em pele de ovelha. A Natureza não nos quis gordos. Coma o que ela nos dá (dentro do razoável) e vai ver que não será fácil ir contra a sua vontade. Atrevo-me a dizer que  comida "a sério" é a solução.

PS: Adoraria utilizar dados da população portuguesa mas infelizmente são escassos ou inexistentes estudos do género. Aguardo ansiosamente por um.



3 comentários:

  1. Eles que repitam as sondagens mas desta vez no inverno.

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  2. Eu não sou totalmente contra o uso de produtos diet/light, embora reconheça que a maioria esmagadora seja um engodo total: tirar a gordura (em relação à fórmula "original") e adicionar carboidratos é o que mais vejo nos rótulos. Ou tretas parecidas com a da Pringles Multi Grain que vc já comentou aqui no blog.

    Mantendo o foco nessa questão de diet/light, e deixando de fora todos os outros enganos que as pessoas comentem quando querem emagrecer,o que eu observo é que as pessoas acham que se um alimento é diet elas podem comer à vontade.
    E exageram MESMO na quantidade e frequência com que fazem uso desses produtos.

    Acho que o diet/light é válido quando faz parte da exceção e não da dieta (alimentação diária) da pessoa. Eu gosto muito de doces e quando a vontade aperta muito, faço uso pastilhas sugar-free.

    Abraço

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  3. Exacto. Os produtos light têm um efeito halo e muitas vezes não são ingeridos em substituição mas como complemento, ou em doses que no fundo farão o mesmo efeito. Eu tenho uma visão muito particular dos adoçantes artificiais e afins. O efeito hedónico do acto de comer é muitas vezes um inimigo do sucesso numa dieta. Além disso existem alguns trabalhos a sugerir um efeito insulinotrópico através das incretinas e neuroendócrino. É um bom tema para discutir aqui e penso escrever algo sobre isso em breve.

    Muito obrigado pelo comentário e contributo.

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