3 de maio de 2011

As dietas low-carb assumidas como uma abordagem plausível para o controlo da diabetes


A Diabetes UK, a principal associação dedicada ao estudo da diabetes no Reino Unido, publicou hoje a sua posição oficial acerca da aplicação de dietas low-carb para o controlo da diabetes tipo 2. As recomendações anteriores focavam-se no tipo de hidratos de carbono e advogavam o consumo de alimentos ricos em amido e integrais, com uma restrição concomitante da gordura. Embora muito timidamente, a Diabetes UK admite agora que as dietas low-carb podem ser uma boa opção para o controlo de peso e níveis de glicose.


É com regozijo que vejo uma autoridade “do sistema” a assumir, embora a custo, que as dietas low-carb se têm mostrado promissoras para o tratamento de doenças metabólicas como a diabetes. A Diabetes UK considera uma dieta low-carb qualquer regime com um teor em hidratos de carbono inferior a 45% (incluindo as mais extremas), a recomendação mínima actual para o que se diz ser uma dieta “saudável”.

Embora o comunicado seja ainda muito tímido e com muitos “se” e “mas”, é dito com clareza que uma revisão a 10 anos de publicação científica não mostra qualquer efeito adverso das dietas low-carb e que estas podem ser extremamente benéficas para manter a HbA1c (o principal marcador de risco em diabéticos que traduz o controlo da doença) em níveis seguros e estáveis.

A Diabetes UK salienta que apenas foram efectuados ensaios a curto-prazo, um aspecto que limita a certeza de que as dietas low-carb são benéficas e seguras como um regime para a vida. Não são claros na literatura os efeitos a longo-prazo deste tipo de dietas, sendo apenas possível afirmar que são promissoras em intervenções até um ano, simplesmente porque não existem ensaios controlados de maior duração. É ainda reforçada a necessidade de um acompanhamento médico para todos os que decidirem enveredar por esta abordagem e o plano deve ser estruturado por um profissional de forma a satisfazer todas as necessidades em vitaminas e minerais. A medicação terá também de ser ajustada de acordo com as modificações alimentares.

Não tenho dúvidas de que a Diabetes UK tem razão no que diz respeito à insuficiência de estudos interventivos de longa duração. Apenas a experiência pessoal tem sido prova da sua segurança e aplicabilidade no controlo de doenças cardiometabólicas ou simplesmente para manter uma saúde invejável. A questão é que as dietas tradicionais também falham neste requisito e têm sido assumidas como adequadas sem a robustez que só a ciência pode conferir. Talvez seja altura de estas entidades oficiais e prestigiadas procederem a ensaios que possam provar de uma vez por todas os benefícios que a moderação nos alimentos de elevada carga glicémica pode trazer. São elas que têm os recursos que permitem financiar estes estudos, proibitivamente dispendiosos para serem executados sem um apoio deste tipo.

São pequenos passos como este que me deixam esperançoso de uma mudança de paradigma num futuro não muito distante. Mais do que para tratar doenças, está também implícita uma prevenção que deverá reduzir grandemente o avultado impacto socioeconómico das doenças não-transmissíveis, assumidas há poucos dias pela OMS como o foco da sua atenção nos próximos anos. A posição da Diabetes UK é uma tímida gota no oceano, mas tijolo a tijolo se vai construindo uma base sólida de evidências que mais tarde ou mais cedo vão ter de entrar na agenda de quem tem poder de decisão.




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