2 de maio de 2011

O "Peso Pesado": as minhas primeiras impressões e expectativas


Começou ontem na SIC o programa “Peso Pesado”. Conheceram-se os participantes e levantou-se um pouco do véu que tanta expectativa criou no público. Prevejo que o concurso, porque não é mais do que isso mesmo, um concurso, crie furor e quem sabe até motivação para um estilo de vida mais saudável e activo. Para ser sincero, não gostei muito do que vi ontem, mas espero que tenha sido ainda um contacto muito superficial e que o objectivo mais nobre do programa não se desvirtue no meio de tanto sensacionalismo e apelo à compaixão.


Para ser sincero, o “Peso Pesado” não é de todo o meu tipo de programa. Não suporto reality shows e a minha vida já me preocupa o suficiente para me interessar pela dos outros. À semelhança do que acontece com o original Americano, o “Peso Pesado” usa e abusa do turbilhão de emoções que se geram à volta do drama de ser gordo. Isso tem prós e contras. Por um lado cativa a parte humana dos espectadores e mostra um pouco do sofrimento que é ser gordo numa sociedade que cultiva tanto a imagem. Mas existe também um lado perverso que estigmatiza o obeso e faz com que seja visto como “diferente”.

A relação entre os participantes e a comida também está a ser explorada em demasia e de forma simplista. Todos sabemos que a comida é um refúgio para as amarguras da vida que gera uma bola de neve. Comemos para aliviar as tristezas que o ser gordo nos traz. Este lado psíquico é muito tentador mas reduz o fenómeno da obesidade a algo muito perigoso. Fica implícito que ser obeso é apenas uma questão de força de vontade, de opção, e que perder peso só necessita de perseverança. Esta é a razão número um para o estigma da obesidade, uma doença multifactorial que depende não só do excedente energético como da qualidade (tipo) dos alimentos, factores socioeconómicos, ambientais e também genéticos.

Mas o “Peso Pesado” tem um lado virtuoso que merece ser exaltado. É uma oportunidade de mudar a vida de um grupo de eleitos e aumentar a sua auto-estima. Não são apontadas soluções milagrosas e terapias mágicas que queimam a gordura em poucas semanas. Isso não existe. Pelo contrário, é apontado o caminho do esforço e dedicação, uma lição que fica para a vida e não se limita à perda de peso.

Na verdade, a mudança individual que eventualmente ocorrerá nos participantes pouco importa. Deixo isso para eles se preocuparem e felicitarem. Não sou egoísta, apenas não tomo as árvores pela floresta. Vejo no “Peso Pesado” um enorme potencial para despertar o interesse da população no que são hábitos de vida saudável e provar que o esforço compensa. E trata-se de uma população que bem precisa já que ter excesso de peso passou de excepção a regra.

Para ser sincero, a abordagem que aparenta ter sido adoptada pela produção não me parece a melhor. Quem acompanha este blogue facilmente compreende porquê. Não vou comentar agora a dieta mas irei faze-lo num próximo artigo. É um aspecto de grande importância e que diferencia um regime com resultados para a vida de um com efeitos rápidos mas efémeros. O que mais me assustou no ginásio foi não ter visto um único peso livre e estar atafulhado com máquinas de cardiofitness. Tenho esperanças que eles estejam por ali escondidos algures e que o treino de resistência muscular assuma o importante papel que tem para uma vida saudável, plena e "magra". A versão Americana não descurou esse aspecto e espero que não o façam aqui. É com grande satisfação que vejo os concorrentes Americanos a treinar HIIT e crosstraining, algo que me surpreendeu pela positiva e conquistou o meu respeito pelo programa.

Podia também ser um pouco má-língua e, como já tenho lido por aí, dizer que os treinadores poderiam estar em melhor forma. Mas não vou cair nessa tentação. A competência de um profissional do desporto não se avalia pela forma física. Claro que um treinador com um corpo atlético seria mais cativante para quem está de fora, mas ao mesmo tempo serviria para vender uma ilusão e um estereótipo. O Rui Barros é uma pessoa com uma aparência totalmente vulgar e um modelo que qualquer pessoa pode atingir. Esta “vulgaridade” pode ajudar a criar uma ligação entre os concorrentes e os treinadores, um aspecto imprescindível para o sucesso do treino e motivação. É muito cedo para comentar a qualidade da equipa e dou-lhes o benefício da dúvida e um voto de confiança. Espero é que tirem os alteres e pesos da cartola rapidamente…

Mas muito me admirava se algo de ridículo não se tivesse passado. Falo obviamente do “comando”, uma personagem pitoresca que só pode ter saído de uma mente conturbada. Mas quem se lembraria de uma coisa daquelas? Pergunto-me qual será o papel dele no programa mas não prevejo que venha coisa boa.

Quanto à apresentadora, encaixa no programa que nem uma luva. Não me lembro de ninguém melhor para apresentar um programa deste tipo, o que não é propriamente um elogio mas a constatação de um facto. Uma óptima escolha da SIC que lhe paga por mês tanto quanto será o prémio do vencedor do “Peso Pesado”. Eles lá saberão os retroactivos que têm.

Não vou falar sobre os participantes individualmente porque, como já disse, isso pouco me interessa. Estou mais atento ao fenómeno social que pode emergir do programa. Pareceu-me um grupo de obesos comuns, com as suas histórias de vida, e com quem muita gente se vai identificar e acarinhar. Mas façam-me um favor… não se exponham demasiado porque o sentimento de “pena” é demasiado degradante, embora muito apelativo para a produção de um reality show. Pelo menos é assim que eu penso e encaro a vida.

Este será o primeiro de vários artigos sobre o “Peso Pesado”. Não sei se vou ser um espectador assíduo mas não vai ser difícil manter-me a par dos desenvolvimentos mais recentes do programa. Apesar de não concordar com os meios, não me podia identificar mais com o fim. Aguardo com expectativa a resolução desta temporada e especialmente o impacto que terá na comunidade. Potencial não lhe falta, só espero que seja aproveitado da melhor forma.



7 comentários:

  1. Concordo com muito do que foi escrito, sobretudo a questão do treino de força vs cardio. Numa entrevista anterior com os treinadores eles referiram que o fundamebtal seria o treino cardiovascular, o que me deixou desconfiado. Ontem ao ver o programa e através das opções interactivas reparei que a treinadora Sara não possui formação superior na árpea do exercício, "apenas" cursos de fitness e pt. Com tabnos profissionais da área do exercício e com qualidade não percebo porque foram arranjar alguém que frequentou e não concluiu arquitectura e que não tem formação superior específica...
    Quanto ao comando, nem comento...
    Só discordo com a opinião que não havia outra apresentadora possível/melhor para o programa. A júlia pinheiro está muito ligada a reality shows com outro perfil e acho que a mais valia deste programa é fornecer infomação útil aos concorrentes e sobretudo aos espectadores. Pode ajudar de facto a mudar a mentalidade, se for algo mais que caminhadas, natação e conceitos clássicos de nuição. Deviam ter arranjado alguém com um perfil mais tranquilo e deixar que o programa esteja centrado no essencial e não na vida dos concorrentes.

    Abraço

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  2. Penso que me interpretou mal porque estamos plenamente de acordo... a Júlia Pinheiro assenta que nem uma luva no programa porque o objectivo da produção é que o Peso Pesado seja um reality show... penso que isso ficou bem patente ontem. Eu pessoalmente preferia que assim não fosse.

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  3. Então estamos de acordo :)

    Abraço

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  4. Desde já os meus parabéns pelos artigos expostos ;) ajudam a mudar mentalidades , e a demonstrar que não é tudo preto e branco.
    Gostaria apenas de "corrigir" num pormenor, como já abordou a obesidade como uma doença (penso eu), tente só evitar utilizar a expressão "obesos" substituindo-a por "pessoas com obesidade", tal como não chamamos a uma pessoa com cancro "cancerosa". Deixo apenas o reparo, de resto agradeço toda informação disponibilizada.
    Cumprimentos.

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  5. Sérgio,fantastica visao de mais um programa de tv...pco vai passar disso...qual a motivação que este programa dá a estes concorrentes para fazerem o que ate hoje não fizeram na sua vida???dinheiro???prémio???sera preciso isso para mudarem nao só o seu aspecto,pelo que vi na apresentação é o que os preocupa mais,mas também todos os seus hábitos alimentares,o exercicio fisico e principalmente melhorarem a sua saude???força de vontade,dedicação esforço...nada que não conseguissem no dia a dia...mas o portugues é mesmo assim...protagonismo,ganancia,popularidade,facilidades...pois nao sera apenas o que vao perder/ganhar no concurso,mas sim as portas que se vão abrir no futuro,pois tdas elas em termos esteticos no futuro e depois de um grande trabalho alimentar e fisico terao que ser sujeitos a intervençoes cirurgicas esteticas...espero não estar errado no que digo...muitas portas se vão abrir...aí ta a motivação destas pessoas e mtas mais por este pais fora...
    Cumprimentos e parabéns pelos magnificos posts deste site...tem-me ajudado muito na minha ainda curta(que vais ser longa,assim espero!)caminhada...

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  6. Ola
    Depois de ver o americano e o tuga as diferenças estão a vista, o nosso é um concurso o outro não, basta ver o treino :( acho que os treinadores não estão a fazer nada não sabem incentivar nem os obriga a mexer, só sabem falar da vida e chorar.

    Pode ser que esteja errada mas ali ou mudam a direção do programa ou então ninguém perde peso.
    Vejam a alimentação o americano comem papas de aveia ao pequeno almoço e ao almoço é peru com legumes ou aquelas sandes de legumes o nosso e sopinha e ainda macarrão com carne e tem um pequeno almoço bem recheado, assim não perdem peso.
    Acho que o nosso só tem audiência porque o povo tuga gosta de ver a desgraça alheia.

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  7. O grande objectivo para quem quer perder peso não é somente perde-lo mas sim manter essa perda ao longo dos anos. E aí é que eu gostava de contrapôr a abordagem deste programa, claramente baseada numa motivação extrinseca Vs uma abordagem baseada em príncipios de modificação comportamental como a Entrevista Motivacional e a teoria da Autodeterminação. Concordo no ponto em que refere que este Programa tem um bom fim, mas os meios há muito por criticar. E temos bons exemplos de como chegar ao mesmo fim com resultados comprovados com o teste do passar dos anos.

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