27 de maio de 2011

Reduzir o consumo de gordura pode proteger da diabetes? Será?


Há uns dias atrás deparei-me com uma notícia na minha caixa de correio (electrónico claro) intitulada "Reduzir o consumo de gordura pode afastar a diabetes, mesmo sem perda de peso". A primeira reacção foi pensar que já me tinham "lixado". Ando eu aqui a defender uma redução da carga glicémica da dieta e exclusão dos açúcares e comida processada, e vem um desgraçado deitar tudo a perder! Mas depois desci à terra e decidi ir ler o artigo com mais atenção. Agradeço aos autores por mais um contributo para fundamentar as posições que tenho vindo a assumir aqui no blogue.


Ora vejamos a dita notícia:

Reduzir o consumo de gordura pode afastar a diabetes, mesmo sem perda de peso 
Pequenas diferenças na dieta - mesmo sem perda de peso - podem afectar significativamente o risco de diabetes, de acordo com um estudo da University of Alabama at Birmingham publicado on-line a 18 de Maio, 2001, no American Journal of Clinical Nutrition. 
Neste estudo, 69 adultos saudáveis, com excesso de peso e sem diabetes - embora em risco - foram colocados em dietas com reduções modestas em gordura ou hidratos de carbono durante 8 semanas. 
"Às 8 semanas, o grupo com a dieta reduzida em gordura tinha maior secreção de insulina e melhor tolerância à glicose, com tendência para uma maior sensibilidade à insulina", disse Barbara Gower, PhD, professora no Departamente de Ciências da Nutrição da UAB e autora principal do estudo. "Estas melhorias indicam um menor risco para diabetes". 
Gower diz que a característica única deste trabalho é que os resultados são independentes da perda de peso. 
Os participantes foram alimentados com o exacto valor calórico requerido para manter o peso corporal, e os investigadores tiveram um consideração quaisquer flutuações de peso durante a análise. Então, os resultados deste estudo sugerem que aqueles que tentam minimizar o risco de diabetes a longo prazo podem considerar limitar a quantidade diária de gordura a cerca de 27% da calorias. 
"As pessoas verificam que é difícil perder peso", disse Gower. "O que é importante no nosso estudo, é que os resultados sugerem que a atenção à qualidade da dieta, não à quantidade, pode fazer a diferença no risco para diabetes tipo 2". 
Os resultados foram ainda mais robustos para os Americanos de descendência Africana, uma população com um risco elevado de diabetes. Gower diz que este grupo numa dieta low-fat mostra uma maior diferença na secreção de insulina comparativamente ao grupo low-carb, indicando que a dieta pode ser uma variável importante para controlar o risco de diabetes nesta população. 
Os participantes no grupo mais reduzido em gordura receberam uma dieta constituída por 27% de gordura e 55% de hidratos de carbono. A dieta do grupo restrito em hidratos de carbono era 39% gordura e 43% hidratos de carbono. Todos os alimentos para o ensaio de 8 semanas foram fornecidos pela equipa. 
"As dietas seguidas neste estudo são bastante moderadas", diz a dietista Laura Goree, co-autora do trabalho. "Indivíduos em risco de diabetes podem facilmente adoptar a dieta low-fat que nós aplicámos. Os nossos resultados indicam que a dieta restrita em gordura pode reduzir o risco de diabetes ou atrasar a progressão da doença". 
Um típico jantar na dieta low-fat iria incluir frango com sésamo e arroz, ervilhas e cenouras, brócolos congelados, queijo fat-free, laranjas e pão. 
[…] 
Gower diz que mais investigação terá de ser feita para determinar se a diferença no teor de gordura e glícidos entre as dietas foi responsável pelas diferenças nos parâmetros do metabolismo da glicose e para sondar uma potencial relação causa-efeito entre as respostas glicémicas e insulínicas à dieta.

Como é hábito, esta notícia é tendenciosa e não descreve fielmente o estudo efectuado pela equipa de Barbara Gower. Antes de mais, convém esclarecer algumas falsas ideias que são passadas acerca do desenho experimental. Passo a descrevê-lo sucintamente.

Americanos de descendência Africana e Europeia (N=69) e classificados como tendo peso excessivo ou obesidade foram recrutados por entrevista telefónica. No geral, eram pessoas saudáveis mas em risco de diabetes pelos critérios correntes. Para avaliar os comportamentos alimentares da amostra, foi-lhes pedido que mantivessem um diário alimentar durante 4 dias, antes da intervenção. No período inicial da experiência, todos os indivíduos foram submetidos durante 3 dias a uma dieta padrão, STD (55% hidratos de carbono; 27% gordura; 18% proteína), para "eliminar variações inter-individuais". Findo este período, um grupo de sujeitos foi designado para uma dieta mais reduzida em hidratos de carbono e com mais gordura, a que vou chamar HFLC, constituída por 43% de hidratos de carbono, 39% de gordura e 18% de proteína. O outro grupo continuou com a mesma dieta STD. Todos os regimes eram eucalóricos, com valores calculados através da equação de Harris-Benedict e com factores de actividade de1.3 para as mulheres e 1.5 para os homens.

Repare-se que apenas um grupo alterou a sua dieta após o período de harmonização. A dieta STD foi considerada a mais saudável à partida e o padrão a seguir. De qualquer forma, acham as diferenças na composição nutricional de ambas significativas? Curiosamente a equipa também não. "Estes resultados podem significar que a dieta HFLC não providenciou uma redução significativa nos hidratos de carbono ou aumento de gordura" para quem tinha já uma dieta semelhante. Algo que me irrita solenemente é a confusão propositada de dietas ricas em gordura com dietas ricas em gordura e hidratos de carbono simultaneamente. Uma dieta com 43% de hidratos de carbono e 39% de gordura não é carne nem peixe. É mais do que evidente que uma carga glicérica elevada em paralelo com um elevado consumo de gordura não é boa ideia. Porque se insiste nesta confusão?

Mas o mais caricato disto tudo é o plano alimentar seguido pelos grupos de estudo, exemplificado na tabela que se segue (clique para ampliar).



Portanto, a dieta HFLC é uma dieta de junk food. Ao pequeno-almoço temos uns muffins, queijo, leite, bacon e um sumo de maçã (muito rico em frutose). Seguem-se uns aperitivos de milho e um almoço de comida processada congelada, molho italiano e mais uns fritos. Ao lanche temos uma refeição "saudável" com um batido da "Weight Watchers" e umas sementes de girassol. O jantar é mais comida congelada (frango com espinafres e queijo Parmesão), cenouras, brócolos, margarina e pão.

Independentemente dos resultados obtidos, é suposto comparar o quê exactamente? Uma dieta STD (não muito melhor é certo) com uma mais rica em gordura ou com uma dieta mais rica em junk food e comida processada, elevada em gordura, açúcar e hidratos de carbono refinados? Sinceramente… estavam à espera que os resultados fossem melhores neste grupo?

É interessante também o facto de a gordura saturada ter sido mantida em ambas as dietas abaixo dos 10%, o nível máximo recomendado actualmente. Portanto, a haver algum efeito adverso da gordura, as culpadas seriam sempre as insaturadas. Na verdade, os autores confessam que os níveis de n3 e n6 eram bem superiores no grupo HFLC. É uma pena não discriminarem, já que pelos alimentos ingeridos suspeito que o consumo de n6 tenha aumentado consideravelmente mais.

A principal conclusão do estudo foi que a dieta com maior teor de gordura resulta numa menor resposta insulínica, independentemente da variação de peso corporal, sugerindo uma inibição da resposta pancreática. A AUC da glicose também mostrou uma relação inversa com a responsividade das cábulas beta a um teste de glicose. Bom… mas isso não seria expectável? Segundo os próprios autores, "o menor teor em hidratos de carbono, e subsequente menor necessidade de insulina, pode resultar numa diminuição da resposta insulínica". Parece-me lógico e redundante não acha? Na verdade, existem indícios de um efeito lipotóxico em animais por infusão de certos lípidos e as próprias gorduras saturadas parecem iniciar uma resposta inflamatória em certas condições particulares (através dos TLR4). No entanto, é algo que não pode ser concluído deste trabalho. "Se a menor resposta insulínica após uma dieta com maior teor em gordura pode ser considerada positiva ou negativa para o risco de doença metabólica não pode ser determinado neste estudo". Um pouco diferente do que nos é dito na notícia.

Curiosamente (ou não) a menor resposta insulina em que todo o trabalho se centra apenas difere significativamente em Americanos de descendência Africana. O seguinte gráfico representa precisamente isso.



As avaliações basais verificaram que a resposta insulínica a uma dose de glicose era menor nos indivíduos com ascendência Africana. Portanto, ao retirar-mos quaisquer conclusões deste trabalho temos de nos restringir a este grupo étnico em particular.

A resposta à intervenção também diferiu consoante os comportamentos alimentares habituais dos indivíduos. Pessoas que consomem mais hidratos de carbono no seu quotidiano tendem a verificar maiores reduções na resposta insulínica à glicose quando colocados numa dieta mais pobre em hidratos de carbono e com maior teor de gordura. Onde está a surpresa? Apenas estes tiveram uma alteração da dieta após o período de harmonização. Os autores sugerem que "indivíduos que consomem habitualmente dietas ricas em hidratos de carbono e pobres em gordura podem reduzir a responsividade das células beta e controlo da sua glicémia através do consumo de uma dieta mais pobre em hidratos de carbono e mais rica em gordura". Isto embora, na verdade, a dieta utilizada seja elevada em ambos, rica em açúcar, hidratos de carbono refinados e gorduras processadas. Qual será o culpado? Venha o diabo e escolha, porque se for um nutricionista é provável que recaia nas gorduras.

Contra as expectativas, não foram encontrados efeitos a nível da sensibilidade à insulina. A equipa conclui que "nem o mecanismo preciso através do qual a dieta alterou a responsividade das células beta, nem a natureza causa-efeito da relação entre esta resposta e a AUC da glicose, pode ser determinada neste estudo". Também me parece que não.

Mas a grande lição que podemos espremer deste artigo e da nota de imprensa é a confusão recorrente entre gordura, comida processada e açúcar. Nas palavras da pessoa mais insuspeita do mundo, Ancel Keys, “O facto de a incidência de doença coronária estar significativamente correlacionada com a percentagem média de calorias de açúcar na dieta é explicado pela inter-correlação da sacarose com a gordura saturada”. Não é a primeira vez que falo neste homem, o principal culpado, depois dos responsáveis políticos, pela epidemia exponencial da obesidade que se verificou após as recomendações dietéticas de 1977 nos EUA. Apesar de não ser preciso ir mais longe do que a principal referência para as recomendações dietéticas vigentes, o Seven Countries Study, ainda não foi possível afastar a sombra da gordura saturada e dos seus "terríveis" efeitos para a saúde. É claro como a água que o problema está na comida processada, junk food. O próprio Keys verificou isso "acidentalmente". A não ser que estejamos a estudar a relação entre o abacate e doenças cardiometabólicas, é capaz de me indicar um alimento natural que combine gordura e açúcar (ou farinha)?



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