14 de maio de 2011

Revisitando o passado: uma caloria não é uma mera caloria (Kekwick e Pawan, 1956)


Hoje decidi tirar o pó aos arquivos e ressuscitar um artigo de 1956 esquecido nos anais da história, ou melhor, engavetado por ser bastante desconfortável. Trata-se do trabalho seminal de Alan Kekwick e Gaston Pawan, publicado no prestigiado The Lancet há mais de 50 anos. Este estudo é um dos mais brilhantes do seu tipo e merece ser recordado. Foi talvez a primeira prova consistente em humanos de que nem todas as calorias são iguais.


Estudos precedentes de Lyon e Dunlop e de Pennington já apontavam para a maior eficácia das dietas low-carb em induzir perda de peso. Não se sabia no entanto que factor tinha mais importância: a restrição energética ou a proporção de macronutrientes. Os investigadores isolaram um grupo de obesos admitidos no Hospital de Middlesex, maioritariamente mulheres, e realizaram uma série de 3 experiências muito elegantes que passo a descrever muito sucintamente.

Ensaio 1 – Foi fornecida aos participantes a dieta comum da época, constituída por 47 % hidratos de carbono, 33 % gordura e 20 % proteína. As proporções foram mantidas em regimes de diferente valor energético: 2000 kcal/dia, 1500 kcal/dia, 1000 kcal/dia e 500 kcal/dia. Os resultados vão ao encontro da teoria actual. Verificaram que havia uma relação entre a redução calórica e a perda de peso quando as proporções de macronutrientes eram mantidas. No entanto, essa relação não era linear, ou seja, a cada 400 g de peso perdido não correspondia um deficit energético de 3500 kcal, aproximadamente.

Ensaio 2 – Se a perda de peso depende directamente do deficit calórico, dever-se-ia observar uma perda de peso constante independentemente da composição da dieta. A equipa sujeitou 14 pacientes a dietas de 1000 kcal, dividindo-os em 3 grupos, cada um dos quais com uma dieta composta por 90 % gordura, proteína ou hidratos de carbono. Os resultados foram surpreendentes. O grupo com 90 % de gordura foi o que perdeu mais peso, seguido de perto pelo grupo com proteína e a uma enorme distância do grupo com 90 % de hidratos de carbono, na qual alguns até ganharam peso (ver o gráfico que se segue). Os autores concluem que “tão diferentes foram as taxas de perda de peso nestas dietas isocalóricas que a composição da dieta supera em importância o consumo de calorias”.



Ensaio 3 – De forma a confirmar este último ponto, uma terceira série de indivíduos, que se verificou conseguir manter o peso mais ou menos estável numa dieta "normal" (47:33:20) de 2000 kcal, foram colocados numa dieta de 2600 kcal constituída apenas por gordura e proteína. Todos menos uma perderam peso, independentemente do excedente de 600 kcal. Esse caso particular foi explicado pela propensão em reter água durante a menstruação que coincidiu com a experiência. Na verdade, como podemos observar na seguinte tabela, existe até uma tendência ligeira a ganhar peso na intervenção mais rica em hidratos de carbono.



Estou certo que os mais atentos já estão a pensar que a acentuada perda de peso nas intervenções low-carb se deve à perda de água que geralmente acompanha a fase inicial destas dietas. Essa hipótese não foi descurada pela equipa. O teor corporal em água foi avaliado e concluiu-se que “em todos os pacientes, a água disponível inicialmente representava 50-52.5 % do peso corporal. Ao fim de 4 semanas nas dietas, as proporções de água e peso corporal mantiveram-se (50-52 %)”. O rigor da equipa levou-os a avaliar também o teor hídrico dos alimentos e ajustar o consumo total para 3 L/dia. O mesmo foi feito em relação ao sal. A hipótese de uma absorção diferencial dos nutrientes também foi posta de parte experimentalmente. Na verdade, os relatos de colegas referem frequentemente que o rigor da equipa era doentio. Os pacientes eram mantidos isolados, pouco ético para os dias que correm, e os resultados eram descartados sob qualquer suspeita de um desvio ao protocolo.

Não é preciso um grande esforço mental para compreender as implicações deste estudo, apenas citado por quem tenta navegar contra a maré e questiona o paradigma actual do que é a dieta ideal para perda de peso. Convém salientar que, à luz deste trabalho particular, não são refutados argumentos como carências nutricionais ou implicações metabólicas de regimes extremos. É no entanto desmascarada a ideia de que "uma caloria não é mais do que uma caloria" e de que o metabolismo se resume à primeira lei da termodinâmica. O organismo não é um sistema isolado e nem toda a energia consumida está disponível para trabalho. Fica prometido um pequeno artigo sobre o assunto, se bem que terei de recordar primeiro alguma Física, uma disciplina que nunca foi um dos meus maiores talentos confesso.

É importante também deixar claro que não considero uma dieta composta por 90 % de gordura uma opção viável. Pelo que se sabe hoje, essas dietas muito extremas resultam numa acentuada perda de massa magra. A explicação é muito simples na verdade e não requer mais do que biologia do ensino secundário (julgo eu). O fornecimento inadequado de proteína ou glicose diminui a produção de esqueletos carbonados do ciclo de Krebs. Alguém se lembra da frase “as gorduras queimam à chama dos hidratos de carbono”? Este princípio não está correcto e deveria ser reescrito como “as gorduras queimam à chama do oxaloacetato”, um intermediário do ciclo de Krebs que se combina com o acetil-CoA derivado da oxidação lipídica (e da glicose também). Se a capacidade de produzir este composto for inferior ao necessário, o organismo canibaliza tecido muscular de forma a providenciar aminoácidos precursores de esqueletos carbonados do ciclo de Krebs, de forma a conseguir converter a gordura em energia útil. No entanto, o requerimento de proteína ou glicose dietética não é assim tão grande para alimentar esta via metabólica. Tratando-se de um ciclo, os compostos são regenerados e reciclados no processo. Todas as dietas ricas em gordura devem-no ser também em proteína. Arbitrariamente, eu diria que uma dieta não deve ultrapassar nunca os 70-80% de gordura de forma a conservar a massa muscular. É um valor que ainda não foi estabelecido e, como tal, é alvo de grande especulação.

Este estudo surgiu numa altura em que a mentalidade era bem mais aberta. As dietas low-carb não eram tão estranhas quanto isso e muitos médicos as recomendavam com bastante sucesso. Hoje dificilmente se realizariam ensaios deste tipo, em grande parte por implicações éticas e preconceitos descabidos. É evidente que existem limitações e a capacidade técnica da altura era uma sombra da que dispomos actualmente. O número de pacientes é também muito reduzido. De qualquer forma, foi um trabalho que lançou a semente para uma corrente científica marginal que não morreu com o estrangulamento dos anos 70-80, altura em que a política se sobrepôs à ciência. Alguns homens mantiveram-se firmes às suas convicções, mesmo comprometendo a sua carreira e reputação. Tenciono recordar aqui alguns dos seus trabalhos para que não caiam no esquecimento.

Este texto é uma reposição do artigo publicado no dia 12 de Maio, com o mesmo nome, apagado após o restauro do sistema por parte da Google. Os meus sinceros agradecimentos ao André por ter gravado uma cópia. Infelizmente o comentário de um leitor e a minha resposta foram apagadas irremediavelmente. Peço desculpa ao visado e sugiro que o reponha se for possível.



7 comentários:

  1. É um estudo muito interessante! Obrigada por partilhar. Gostava de tentar uma dieta deste género, no entanto, custa-me bastante imaginar as refeições que teriam de ser feitas para uma percentagem de gordura na casa dos 70-80%... Vem-me à cabeça uma linda imagem de comer manteiga às colheres! hehehe Terei de me informar melhor :)

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  2. Acredito que sim lol. Mas lembre-se que as percentagens são em energia e não em massa. 1 g de gordura tem 2.25 vezes mais energia que a proteina ou hidratos de carbono. Imagina que passava o dia a comer bifes de vaca com 20% de gordura (o que é normal para alguns cortes). Estaria com uma dieta composta por quase 70% de gordura, mesmo não comendo manteiga às colheres... :)

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  3. Viva Sérgio,

    Mas que bom blog!. Sigo atentamente e os artigos são de óptima qualidade. Isto sim merecia os estar nas revistas actuais de saúde, nutrição e desporto.

    Obrigado pelo blog e parabéns,
    David

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  4. Muito obrigado David por essas palavras.

    Desenvolver mais o blogue torna-se complicado por constrangimentos financeiros. O site não tem qualquer retorno a esse nível e os investimentos tornam-se proibitivos. Resta-me contar com os leitores para divulgar o blogue e fazê-lo crescer.

    Espero que o blogue continue a agradá-lo.

    Cumprimentos,

    Sérgio

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  5. Olá!
    Primeiro de tudo, gostaria de dar os parabéns pelo maravilhoso blogue que leio avidamente e me tem vindo a esclarecer tantas dúvidas e desmistificar tantas "informações".
    No meio de tantos blogues sobre dietas em que se encontra de tudo (muitas vezes disparatado) é uma muito refrescante ler este, com toda a informação devidamente referenciada!
    Fui eu a leitora que tinha comentado, no sentido de manifestar a minha surpresa com os resultados apresentados por este estudo! Nos meus 29 anos de existência, cerca de 16 foram passados em dieta (normalmente hipocalóricas e muito baixas em gorduras) e "recaída" cíclica e em todas as dietas experimentadas, a gordura sempre foi apresentada como "o monstro" e a pirâmide alimentar como o exemplo de alimentação saudável que ajuda a perder e manter o peso!
    Este blogue revolucionou a minha visão das coisas, no entanto, para uma pessoa como eu habituada às dietas "normais", tal quantidade de gordura numa dieta parece quase impossível a não ser, como tinha dito, "comendo manteiga às colheres" :)
    Vou continuar a ler os artigos mais antigos a ver se me "ilumino" :)

    Muito obrigada por este fantástico blogue!

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  6. Sei exactamente o que sente. Eu próprio confesso esporadicamente de forma tímida o meu passado de adolescente obeso. Também fiz as minhas dietas. Perder peso não foi difícil mas mante-lo já foi outra história. Sempre precisei de grande esforço para isso. E com passar dos anos e com o estudo que fui fazendo ao tema, dei conta das ilusões em que vivia-mos e o que dava-mos como certo muitas vezes não era mais do que opiniões de pessoas influentes mas infundadas.

    Como eu tinha respondido antes da Google me pregar uma partida, não é tão dificil assim conseguir atingir esses níveis de gordura. Pensemos na situação hipotética em que apenas come carne de vaca com 20% de matéria gorda, algo que não se afasta da realidade para alguns cortes de novilho. Se o fizesse, estaria numa dieta com 65-70% de gordura. É preciso lembrar que as percentagens são em energia e não massa. A gordura tem 2.25 vezes mais energia que a proteína e os hidratos de carbono.

    Eu não sou um defensor acérrimo destes regimes mais extremos mas, como já deu para entender, contesto fortemente a preponderância que os hidratos de carbono têm na deita tradicional. Certos grupos como os cereais e açúcares são totalmente dispensáveis. Sei bem o sacrilégio que é dizer tal coisa dos primeiros. Mas está à vista de todos onde isso nos trouxe.

    Obrigado eu por essas palavras e espero que o blogue continue do seu agrado.

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  7. No consumo de gordura devia-se ter medido a percentagem de massa gorda e muscular para comprovar o que disseste acerca da perda da massa magra, concordo com o que disseste e era interessante se houvesse essa confirmação.

    cumprimentos,
    Gordo

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