18 de maio de 2011

"Who Made Me Fat?"


Eu tenho muita pena que em Portugal não haja verdadeiro jornalismo de investigação nos media audiovisuais. A BBC é um modelo a seguir nesse aspecto e conta com uma série de documentários muitíssimo interessantes sobre diversos temas, entre os quais a epidemia da obesidade e o lado podre da indústria alimentar. O “Who Made Me Fat?” (que poderia ser traduzido como “Quem me fez gordo?”) é um bom exemplo. Trata-se de um documentário satírico e irónico da jornalista Rebecca Wilcox sobre o ambiente obesogénico em que vivemos. Será o facto de estarmos a engordar apenas culpa do próprio?


Se não aterrou hoje no blogue, já sabe a minha resposta a esta pergunta. A nossa fracção de responsabilidade não é tão grande quanto se julga. Reduzir a questão ao “poder do individuo” é fácil e confortável, mas perigoso. Alimenta o estigma de que somos gordos porque queremos e tudo depende da força de vontade e livre-arbítrio.

O documentário “Who Made Me Fat?” aborda esta questão de forma humorística. A “dieta do estigma” vs a “dieta da conspiração”. Num bar comum nas ruas de Londres, há quem acredite que o estigma e descriminação são positivos. Ao chamarmos alguém “vaca gorda”, ela vai-se sentir presionada a perder peso e tornar-se-á uma pessoa mais saudável. Mais caricato ainda se torna quando quem o diz é um autêntico “porco gordo”. Ridículo, mas não é raro encontrar quem pense desta forma.

Mas que conspiração é esta? Olhe à sua volta e veja como tudo nos empurra para uma alimentação pouco saudável, cheia de açúcar e alimentos processados. Os Jogos Olímpicos de Londres serão patrocinados pela McDonalds, Coca-Cola e Cadburys. É no mínimo bizarro ver atletas de topo nos spots publicitários a comer junk food como se fosse a coisa certa a fazer. Terá a oportunidade de ver alguns no documentário. O efeito “halo” (“auréola") destas campanhas é extremamente lucrativo para estas companhias de junk food mas não é mais do que uma burla alimentada pela sede de dinheiro por parte de quem deveria pensar no consumidor acima de tudo.

Uma outra situação curiosa que felizmente não ocorre no nosso país, pelo menos que seja do meu conhecimento, é a presença da “Burger King” em hospitais públicos do Reino Unido. Os responsáveis evidenciam um grande desconforto em falar sobre o assunto, incluindo o próprio Ministro da Saúde, e recusam todos os pedidos de entrevista por parte da BBC.

Conscientemente ou não para o nós consumidores, os hipermercados manipulam os produtos que compramos. O comércio a retalho é dominado por meia dúzia de companhias que estipulam os preços no mercado. Repare nas promoções e destaques. Antes de chegarmos às carnes e vegetais, lá bem no fundo da loja, já enchemos o carrinho com batatas fritas, bolachas e chocolates. Pague 2 leve 3. Mais 20% de produto grátis. Será apenas nossa responsabilidade resistir à junk food ou deveria também haver uma preocupação por parte de quem vende em favorecer uma alimentação saudável? Não será também uma responsabilidade social?

Ponha-se no lugar de uma família com poucos recursos, uma dessas tantas a viver de subsídios e salário mínimo. Com a responsabilidade de alimentar os seus filhos, que opção faria? Muita junk food ou comida saudável que mal daria para alimentar uma pessoa? Não me parece uma escolha difícil.

Um dos momentos mais interessantes do documentário é quando Rebecca Wilcox soma o açúcar consumido na sua dieta “saudável”. A jornalista é mais uma fitness-dependente e que não dispensa uma larga gama de produtos light. Foi uma enorme surpresa quando descobriu que estava a ingerir mais de 160 g de açúcares adicionados em comida dita “saudável”, quase o triplo da dose recomendada. O engano dos produtos low-fat promove aquilo que é suposto combater. Está a tornar-nos mais gordos e doentes.

Não quero revelar tudo o que poderá ver no documentário. Infelizmente terá de saber inglês. A abordagem da jornalista é de puro senso-comum e a ciência é limitada ao compreensível para qualquer pessoa. Este documentário é muitas vezes citado nos círculos por onde ando como um bom exemplo do ambiente obesogénico dos tempos modernos. Ninguém nos obriga a comer aquela bolacha, mas a verdade é que tudo fizeram por isso.

Fiz upload do documentário para o Youtube mas aqui ficam também os links para download directo através do Rapidshare e Megashare.














2 comentários:

  1. Penso que tem a ver com o "bottom line", assim como a indústria dos media usa os conteúdos mais sensacionalista para obter um ROI favorável, também a indústria da alimentação usa a comida que mais estimula para obter um maior retorno.

    No fundo são as economias de escala a maximizar os receptores humanos. Os shareholders pouco se importam do que é importante ou moral. O sistema está-se a tornar demasiado complexo.

    Bem haja!

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  2. O ser humano em larga escala ainda é pouco dado a auto-moralidade, o desenvolvimento pessoal da ética, ou mesmo do pensar.
    Na maioria das vezes a moralidade, a ética, o pensar é definido no momento espreitando por cima do ombro a ver o que fazem os outros "Se toda a gente faz... é correcto" continua a ser o nosso guia. E também a crença ingénua de que alguém já pensou e decidiu que "isto" era o melhor.
    Existem "pessoas" de bata, que já filtraram tudo isto e só tenho de confiar e seguir. Neste sentido continuamos com mentalidade de rebanho confiantes nos bons pastores.

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