28 de junho de 2011

Dieta extrema reverte a diabetes? Será a anorexia a cura?


Tenho recebido vários alertas relativos a um novo estudo muito divulgado na imprensa nacional e estrangeira. Os resultados sugerem, supostamente, que uma dieta hipocalórica de 600 kcal/dia (quase anorexia portanto) consegue curar a diabetes tipo 2 em apenas 8 semanas. Na verdade, logo após os primeiros 7 dias de intervenção as melhorias parecem notórias. “Viste este estudo?”, “o que achas?”, “não o comentas no blogue?”. Eu vi o estudo no dia em que saiu. Muito dificilmente me tinha escapado com todo o hype que se gerou à volta dele. Não comentei porque simplesmente não vale a pena. Mas se calhar até merece umas palavrinhas.


No dia 24, o jornal Público publicou a seguinte notícia:

Dieta extrema reverteu diabetes do tipo 2 em doentes 
A diabetes do tipo 2 pode não ser incurável. Uma dieta extrema aplicada a pessoas que descobriram há poucos anos que sofriam da doença, conseguiu reverter o seu estado e repor a produção de insulina no pâncreas. A descoberta fez parte de um estudo da Universidade de Newcastle, Reino Unido, que foi apresentado hoje numa conferência da Associação Americana dos Diabetes. 
A diabetes do tipo 2 é causada pelo consumo excessivo de açúcar que acaba por pôr em causa o funcionamento da insulina – a substância que ajuda a metabolizar o açúcar (glicose) no sangue. Por um lado, as células do corpo ganham resistência à insulina, por outro a produção desta hormona no pâncreas é debilitada.

Sem a hormona, a glicose acumula-se no sangue em valores altos, a chamada glicemia, e se não é controlada vai causando efeitos cada vez mais perigosos para o corpo, desde cegueira, problemas de circulação que podem obrigar os doentes a amputar as extremidades, até aos ataques cardíacos. Medicação, uma dieta cuidada e exercício físico podem controlar a diabetes por anos mas não curam o problema. 
A investigação feita na Universidade de Newcastle em onze indivíduos que tinham descoberto há menos de quatro anos a doença, submeteu-os a uma dieta extrema. Durante oito semanas, os diabéticos ingeriram apenas 600 calorias por dia, menos de um terço da dose diária recomendada. A alimentação passava por líquidos nutritivos e vegetais sem amido. 
Passados três meses, sete dos onze indivíduos não tinham diabetes. “Ter pessoas livres de diabetes depois de anos nesta condição é marcante – e tudo por causa de uma dieta de oito semanas”, disse citado pelo Guardian Roy Taylor, professor da Universidade de Newcastle, que liderou o estudo. Depois da dieta, os pacientes voltaram a uma alimentação normal, com aconselhamento sobre os alimentos e as quantidades que deveriam ingerir. 
Ao fim de uma semana da dieta, análises feitas aos pacientes mostravam já uma concentração normal de açúcar antes do pequeno-almoço. Mais tarde, os exames feitos ao pâncreas destes doentes mostraram que a acumulação de gordura tinha diminuído e que o órgão tinha voltado a produzir insulina de uma forma normal. 
“Acreditamos que isto mostra que a diabetes do tipo 2 está relacionada com o balanço de energia no corpo”, disse Taylor. “Se se come mais do que o que se gasta, o excesso é acumulado no fígado e no pâncreas em gordura, o que pode levar à diabetes do tipo 2 em algumas pessoas. O que precisamos de examinar mais é porque é que algumas pessoas são mais susceptíveis ao desenvolvimento da doença do que outras.” 
Segundo o investigador, só cerca de cinco a dez por cento das pessoas é que serão capazes de se manter numa dieta tão dura quanta a necessária. Um regime destes deverá sempre ser supervisionado por um médico.

Lendo este e outros artigos jornalísticos parece que de facto estamos perante uma descoberta importante e que promete algo muito tentador: a cura da diabetes no seu estado inicial, e sem drogas. Passar fome durante 8 semanas seria a solução. Obviamente que não aceitei isto de barato e fui ler o artigo ao pormenor. O que significam estes resultados? São novidade? Poderá alguém beneficiar deles um dia?

Uma equipa britânica da Universidade de Newcastle submeteu 11 indivíduos adultos, diabéticos à menos de 4 anos e com um BMI >25 a uma dieta altamente restritiva durante 8 semanas. O regime consistia exclusivamente de um substituto de refeição da Nestlé, o OptiFast (46.4% hidratos de carbono, 32.5% proteína e 20.1% gordura) e 3 porções diárias de vegetais pobres em amido. No geral, a dieta fornecia 600 kcal/dia, cerca de 4 vezes menos  do que os requisitos de um homem adulto.

Não nota logo algo de estranho nesta dieta (ou familiar se acompanha o blogue)? Eu fiz as contas e verifiquei que a ingestão de hidratos de carbono era inferior a 85 g por dia, cerca de 16% de uma dieta padrão com 2000 kcal. A apresentação dos valores em percentagem da energia pode induzir em erro quando um regime é altamente hipocalórico. Mas na verdade, estamos perante uma dieta low-carb. E mais curioso ainda é o facto de a adesão ao regime ter sido avaliada através da cetonúria.

Que a restrição dos hidratos de carbono na diabetes ou pré-diabetes é benéfica, já todos aqui vimos. Que podem reverter os parâmetros de diagnóstico também. Qual é então a novidade deste estudo? Nenhuma. Apenas a artimanha de não assumir este como um regime low-carb e catalogá-lo de hipocalórico, bem mais fácil de aceitar pelos doutores do paradigma. Experimentem com 600 kcal de hidratos de carbono a ver se conseguem os mesmos resultados. E tentem num regime praticável em condições normais. Quem conseguiria seguir religiosamente uma dieta com um batido e umas folhas de alface? Bem… há quem consiga mas o preço é demasiado alto e a saúde não o recomenda. Ou será a anorexia um regime terapêutico?

É interessante também notar o ênfase que os autores dão à redução acentuada nos triglicéridos circulantes e ectópicos, acumulados no fígado e pâncreas. Mas lendo o texto até parece que a gordura alimentar é a culpada disso, quando na verdade é bem sabido que os triglicéridos estão relacionados com o consumo de hidratos de carbono em níveis superiores à tolerância individual. Não é novidade que uma dieta hipocalórica ou low-carb reduz as inclusões de gordura nos órgãos centrais em pouco tempo. Bons exemplos disso são as dietas relâmpago para reduzir o fígado gordo antes de uma cirurgia.

Também a HbA1c melhorou consideravelmente, o melhor marcador de risco na diabetes. Trata-se de hemoglobina glicada. Formada como? Adivinharam! Quando os níveis de glicose no sangue atingem níveis elevados e formam produtos de glicação altamente deletérios.

Na metodologia encontramos igualmente aspectos duvidosos. Uma amostra de 11 indivíduos em que 7 são curados é demasiado pequena para retirar qualquer conclusão. Podemos estar perante um mero fenómeno probabilístico chamado acaso. Além disso o grupo controlo não acompanha a experiência, tendo sido avaliado apenas na situação basal, ponto que serviu de comparação ao longo da experiência.

Mas ao navegar pela blogosfera apercebi-me de algo ainda mais curioso. Estes resultados foram divulgados na véspera das “Scientific Sessions” da American Diabetes Association. Não se trata apenas de uma conferência de divulgação, mas de uma oportunidade para pescar financiamentos. A cura para a diabetes aparece sempre por esta altura do ano.

Não existe nada neste estudo que seja importante ou novidade. E convenhamos... se houvesse o artigo não teria sido publicado no Diabetologia, mas sim numa revista de alto impacto. Estamos a falar da cura da diabetes!  É bem sabido que a redução no consumo de hidratos de carbono tem resultados idênticos a esta suposta dieta terapêutica de choque, sem a necessidade de uma privação tão severa. Infelizmente é mais aceite um regime anoréctico low-carb à socapa do que uma dieta low-carb perto das necessidades energéticas do individuo. Isto implica um aumento no consumo de gordura, uma heresia que os médicos do dogma não irão cometer.




Lim EL et al. (2011). Reversal of type 2 diabetes: normalisation of beta cell function in association with decreased pancreas and liver triacylglycerol. Diabetologia. Eupb June 9.

2 comentários:

  1. a Cura para os diabetes não é economicamente viável infelizmente!

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  2. A cura da diabetes tipo 2 é diminuir a ingestão de carboidratos. Pessoas que comem mal durante 20 anos, têm hipertensão, colesterol alto, excesso de peso ou obesidade, não fazem exercício... e depois admiram-se que tem diabetes!

    Uma vida a comer porcaria não se resolve tomando um comprimido por dia quando o mal já está feito!

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