16 de junho de 2011

A estatura e saúde humana na Revolução Agrícola


Há pouco tempo numa discussão amigável acerca da necessidade do leite na alimentação humana surgiu o argumento da estatura. Sem razão aparente, as pessoas julgam que a Revolução Neolítica e transição agrícola estiveram associadas a uma tendência crescente na altura das populações. Mesmo dispondo de alguns indícios do contrário, faltou-me uma prova cabal e robusta que sistematize a informação dispersa e por vezes contraditória numa disciplina que não domino. Uma revisão recente poderá preencher essa lacuna. Amanda Mummert e George Armelagos esmiuçaram os dados mais recentes e concluem que quando as populações à volta do mundo se viraram para a agricultura há cerca de 10 000 anos, independentemente da sua localização e espécies cultivadas, houve uma tendência similar: a altura e saúde das pessoas entraram em declínio.


“Este padrão abrangente e consistente mantêm-se quando se olha para estudos de esqueletos inteiros nas populações”, diz Amanda Mummert, uma estudante de antropologia em Emory. Mummert liderou a primeira revisão abrangente e global da literatura respeitante à estatura e saúde durante a transição Neolítica, a ser publicada no Economics and Human Biology.

“Muitas pessoas têm uma imagem pré- estabelecida da ascensão da agricultura e a aurora da civilização moderna, e assumem que uma fonte de alimento mais estável nos torna mais saudáveis. Mas os primeiros povos agrícolas experimentaram deficiências nutricionais e tinham dificuldades de adaptação ao stress, provavelmente porque se tornaram dependentes de culturas particulares, em vez de terem uma dieta mais diversificada”, disse Mummert.

Ela acrescenta que o aumento da densidade populacional estimulado pela agricultura levou a um aumento de doenças infecciosas, provavelmente exacerbadas por problemas de saneamento e proximidade com animais domesticados e novos vectores de doença.

Eventualmente, a tendência para uma menor estatura reverteu e as alturas médias da maioria das populações começou a aumentar. A tendencial é particularmente notável no Mundo desenvolvido durante os últimos 75 anos, após a industrialização dos sistemas alimentares. A elevada disponibilidade de alimentos com grande densidade calórica deverá justificar este fenómeno. “Precisamos de calorias para alongar os ossos, mas precisamos de nutrientes para os tornar mais fortes”.

“Culturalmente, somos chauvinistas agrícolas. Nós pensamos que produzir alimento é sempre benéfico, mas o quadro é bem mais complexo do que isso”, diz o antropologista George Armelagos, co-autor da revisão. “Os humanos pagaram um elevado custo biológico pela agricultura, especialmente no que diz respeito à variedade de nutrientes. Mesmo agora, cerca de 60% das nossas calorias derivam do milho, arroz e trigo”.

Em 1984, Armelagos e Cohen escreveram um livro, “Paleopathology at the origins of agriculture”, que descreve um declínio na saúde quando as sociedades passaram de nómadas a agrícolas. O livro era controverso na altura, mas a relação entre a transição agrícola e a deterioração da saúde tornou-se aceite no novo ramo da bioarqueologia.

Esta revisão foi feita para comparar dados de estudos mais recentes que envolvem diferentes regiões do Mundo, culturas e espécies domesticadas. Os trabalhos incluem populações da China, Sudeste Asiático, América do Norte e Sul, e Europa. Todos os artigos seguem métodos padronizados e validados para avaliar a saúde a um nível individual e examinaram como os factores stressantes eram exibidos no esqueleto completo, e não num elemento ou condição particular. “A não ser que considere um esqueleto total, não está a obter uma imagem completa do estado de saúde. Pode ter um indivíduo com dentes perfeitos, por exemplo, mas sinais sérios de infecção noutro local”, disse Mummert.

A altura adulta, cáries dentárias, densidade óssea e fracturas saradas são alguns dos marcadores usados para obter um quadro completo das condições de saúde nas populações ancestrais. “Os ossos estão constantemente num processo de remodelação. Os esqueletos não nos dizem necessariamente a causa de morte, mas permitem quase sempre vislumbrar a capacidade adaptativa e de sobrevivência.”

“A forma como o corpo humano se adaptou às alterações por nós impostas no ambiente há 10 000 anos podem ajudar-nos a compreender como os nossos corpos se estão a adaptar neste momento”, disse Mummert. “Julgo que é importante considerar o significado concreto de ‘boa saúde’. A modernização e comercialização de alimentos pode estar a ajudar-nos providenciando mais calorias, mas essas calorias podem não ser boas para nós”.

Econ Hum Biol. 2011 Jul;9(3):284-301. Epub 2011 Apr 1.
Stature and robusticity during the agricultural transition: Evidence from the bioarchaeological record.
Mummert A, Esche E, Robinson J, Armelagos GJ.

Department of Anthropology, Emory University, 207 Anthropology Building, 1557 Dickey Drive, Atlanta, GA 30322, United States.

Abstract

The population explosion that followed the Neolithic revolution was initially explained by improved health experiences for agriculturalists. However, empirical studies of societies shifting subsistence from foraging to primary food production have found evidence for deteriorating health from an increase in infectious and dental disease and a rise in nutritional deficiencies. In Paleopathology at the Origins of Agriculture (Cohen and Armelagos, 1984), this trend towards declining health was observed for 19 of 21 societies undergoing the agricultural transformation. The counterintuitive increase in nutritional diseases resulted from seasonal hunger, reliance on single crops deficient in essential nutrients, crop blights, social inequalities, and trade. In this study, we examined the evidence of stature reduction in studies since 1984 to evaluate if the trend towards decreased health after agricultural transitions remains. The trend towards a decrease in adult height and a general reduction of overall health during times of subsistence change remains valid, with the majority of studies finding stature to decline as the reliance on agriculture increased. The impact of agriculture, accompanied by increasing population density and a rise in infectious disease, was observed to decrease stature in populations from across the entire globe and regardless of the temporal period during which agriculture was adopted, including Europe, Africa, the Middle East, Asia, South America, and North America.





Amanda Mummert, Emily Esche, Joshua Robinson and George J. Armelagos (2011). Stature and robusticity during the agricultural transition: Evidence from the bioarchaeological record. Economics & Human Biology. 9(3):284-301


ScienceDaily (June 15, 2011) - Dawn of Agriculture Took Toll on Health.

2 comentários:

  1. Oi Sergio!

    Assistir nesse final de semana a nova série de documentários da BBC - Human Planet
    Se ainda não tomou conhecimento vale muito a pena conferir.
    Se tiver que escolher um episódio, escolha o nº 4 The Jungle.
    Segue o link: http://filmescomlegenda.net/?s=human+planet

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  2. Não conhecia! Obrigado pela dica Daniel. Costumo gostar bastante deste tipo de documentários.

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