1 de junho de 2011

A fruta e a frutose: novo estudo agita a blogosfera


Como é sabido (ou vai ser a partir de agora), a minha posição em relação à fruta sugere alguma contenção no seu consumo. Longe de ser um alimento a evitar, não devemos cair no exagero. Ora, um novo estudo publicado ontem no Metabolism, Clinical and Experimental aborda a questão do consumo de fruta em dietas hipocalóricas. Os resultados apontam para que o consumo de 50-70 g/dia de frutose, proviniente exclusivamente da fruta, favorece uma maior perda de peso do que regimes com igual teor em hidratos de carbono, mas complexos. O buzz das redes sociais não tardou. Comam fruta! A frutose não faz mal a ninguém! O mito foi desmascarado! Será que foi mesmo?


Eu não sou anti-fruta. Geralmente consumo uma ou duas porções diárias, por vezes mais. Mas sou anti-frutose, o que para alguns pode parecer paradoxal. Se a maioria das frutas contêm uma quantidade apreciável de frutose, então todos os efeitos deletérios do seu consumo serão aplicáveis também à fruta! Não é bem assim…

Já expus aqui no blogue as implicações do consumo excessivo de frutose para metabolismo humano. Não me vou repetir, mas várias doenças e disfunções lhe foram já associadas como a hipertrigliceridémia, outras dislipidémias, hipertensão arterial, hiperuricemia, esteatose hepática, resistência à insulina, etc. A frutose tem também um impacto negativo na homeostase energética e regulação do apetite. Há décadas que é usada para induzir sintomas de síndrome metabólico em ratos, o que não impediu algumas mentes brilhantes de a recomendar a diabéticos na sua forma refinada, cristalina. Essas recomendações foram retraídas subtilmente, sem nunca admitir o erro grosseiro e estúpido.

Mas passemos ao dito estudo, encabeçado pela Dra. Magdalena Madera, do Instituto Nacional de Cardiologia Ignacio Chávez, México. A hipótese inicial da equipa baseava-se numa panóplia de estudos anteriores a sugerir que a restrição de frutose iria reduzir o peso corporal e atenuar algumas características de síndrome metabólico em indivíduos com excesso de peso e obesos. Além disso, pensaram que uma dieta em que a fonte de frutose se resumia às frutas naturais seria superior a uma em que o seu consumo era limitado.

Foram recrutados 131 pacientes com um IMC > 25, sem historial de diabetes, hipertensão, doença renal crónica, problemas hepáticos ou anemias. Desses 131, 65 foram alocados para um grupo com uma dieta baixa em frutose e os restantes 66 para a dieta moderada em frutose, providenciada apenas por frutos naturais.

Ambas as dietas apresentavam a mesma proporção relativa de macronutrientes: 55% de hidratos de carbono, 15% de proteína e 30% de gordura. O requerimento energético dos participantes foi calculado segundo a equação de Harris-Benedict, mas o valor calórico da dieta foi aproximado para planos alimentares pré-estabelecidos de 1500, 1800 e 2000 kcal. Um método pouco rigoroso a meu ver.

A intervenção durou apenas 6 semanas. O grupo com menor consumo de frutose, a que vou chamar LF, ingeriu menos de 10g nas primeiras duas semanas e menos de 20g nas seguintes 4. Este procedimento tem a sua lógica. Tanto a frutocinase como os transportadores GLUT5 parecem ser induzidos pela própria frutose. Quanto maior e mais frequente o consumo de frutose, maior a capacidade de a metabolizar e absorver. O inverso também é verdadeiro. O outro grupo, com um consumo moderado de frutose mas apenas de fontes naturais a que vou chamar MF, ingeriu 50-70g de frutose diariamente, durante as 6 semanas da intervenção. Agora lembre-se bem do que vou dizer a seguir. Em ambos os grupos, foram excluídos todos os açúcares extra provenientes de sumos de fruta, frutos secos, soft-drinks, produtos de pastelaria, chocolates, doces, enfim… de tudo o que é junk food. Não foi promovida qualquer alteração nos hábitos de actividade física.

Como disse, o teor relativo dos 3 macronutrientes foi mantido constante em ambos os grupos. Os cereais e a fruta foram os dois grupos alimentares manipulados para satisfazer os contrangimentos da dieta. O consumo de cereais em LF representava cerca de 45% do teor calórico e a fruta apenas cerca de 5%. Em oposição, MF era constituída por 20% e 30% respectivamente.

Algo que também convém analisar é a dieta prévia à intervenção. Em média, os participantes ingeriam 2999.7 kcal/dia e consumiam cerca de 530 kcal de fruta diariamente (141±119 g/dia de frutose). O consumo de cereais rondava as 900 kcal/dia, 30% do valor energético global. A representatividade dos macronutrientes era de 60:15:25 para os hidratos de carbono, proteína e gordura respectivamente. Portanto, o consumo de hidratos de carbono em dieta diminui 5% e de gordura aumentou 5%. O valor energético da dieta foi reduzido em mais de 1000 kcal na maior parte dos casos.

Estamos agora em condições para analisar os resultados, sintetizados na seguinte tabela (clique na imagem para ampliar).



O objectivo primário do estudo era avaliar as diferenças na perda de peso corporal. Ambas as dietas foram eficazes em induzir o efeito pretendido nas 6 semanas do estudo. No entanto, a perda de peso em LF foi bem inferior à verificada em MF (-2.94 Kg vs -4.07 Kg). Curiosamente, a relação cintura:anca apenas diminuiu significativamente no grupo LF (p<0.0001). Quererá isto dizer que a redução de gordura abdominal foi superior em LF, apesar da menor perda de peso? É impossível dizer e teria sido interessante uma análise à distribuição de gordura corporal. Lembre-mo-nos que a gordura visceral foi já associada ao consumo de frutose.

As melhorias em vários parâmetros metabólicos foram notórias. Ambas as dietas resultaram numa redução da pressão arterial, colesterol, triglicéridos, resistência à insulina e ácido úrico. No entanto, as diferenças entre grupos não se revelaram estatisticamente significativas. Comparando com outros estudos publicados, as alterações nestes parâmetros foram superiores ao que seria expectável pelo grau de redução no peso.

Será que este estudo permite concluir que uma dieta mais rica em frutose é melhor para perder peso? Claro que não. Que numa dieta hipocalórica o consumo de frutose pode ser benéfico? Também não. Repare que mesmo no grupo MF o consumo de frutose foi limitado a menos de metade do habitual. E mais importante que tudo: o consumo total de açúcares foi reduzido em ambas as dietas. Lembre-se dos alimentos excluídos e que constituíam uma parte significativa da dieta prévia à intervenção. Acredito que a acentuada melhoria nos parâmetros metabólicos se associa a esta restrição, daí a superioridade comparativamente a outras intervenções dietéticas. Os autores referem até que os seus resultados se aproximam dos obtidos com dietas muito restritas em hidratos de carbono e cetogénicas. Estaremos a confundir hidratos de carbono com açúcares e farinhas processadas?

Mas isto não explica a maior perda de peso no grupo MF. Será efeito de algum componente especial da fruta? Nada disso. A dieta LF tinha uma maior carga glicémica e índice glicémico (IG). Para manter as porporções de macronutrientes era impossível fixar estas duas variáveis. Um maior IG e carga glicémica associam-se a maiores níveis médios diários de insulina. Não é preciso explicar o que isso significa pois não? Um travão à perda de peso. Note que a glicemia apenas reduziu significativamente no grupo MF, tal como a resistência à insulina (HOMA). Isto significa que a frutose é benéfica para estes parâmetros? Longe disso. Significa que os níveis consumidos não são suficientes para exercer os efeitos deletérios conhecidos e o ponto de saturação hepática. O consumo de frutose de um ocidental comum é umas 3 vezes superior ao atingido pelo grupo MF deste estudo, aliado a um consumo energético bem maior. Não podemos pensar sequer em comparar duas realidades totalmente distintas.

Sejamos realistas. Para alguém que excluí todas as fontes concentradas de açúcar da sua dieta não é fácil atingir consumos elevados de frutose. O tecto máximo de 70g utilizado neste estudo equivale a 5 maçãs médias, 10 bananas, 12 pêssegos ou 2 Kg de morangos. Faça favor...

Embora este trabalho não prove o que tenho lido por essa internet fora, minutos após a publicação do estudo (aposto que muitos nem o leram), ensina-nos algo de muito importante e útil. Tire todos os açúcares extra da sua dieta e opte por um regime moderado em hidratos de carbono (55% numa dieta de 1500 kcal não é o mesmo que numa de 3000 kcal). Se o fizer, coma a fruta que desejar.

Madero M, Arriaga JC, et al. (2011). The effect of two energy-restricted diets, a low-fructose diet versus a moderate natural fructose diet, on weight loss and metabolic syndrome parameters: a randomized controlled trial. Metabolism, Clinical and Experimental. Epub AOP: May 27.



6 comentários:

  1. LOL por esta não esperava eu.

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  2. Olá Sérgio,
    Deste estudo conclui-se que…

    1 – A maioria das pessoas não lê mais do que o título do artigo, ou o comentário elaborado por alguém que também só leu o resumo. Sei que o “multitasking” é cada vez mais frequente mas como não temos “dualbrains”, a atenção e o tempo necessários para uma ANÁLISE CRÍTICA ficam inevitavelmente comprometidos;
    2- Cada vez se produz menos “ciência” e mais “investigação”... Para os mesmos resultados, as conclusões podem ser de tal forma distintas, que por vezes as publicações mais parecem “artigos de opinião”;
    3 – O método de revisão dos artigos precisa ele próprio de ser... revisto. Com as condicionantes que o Sérgio bem expõe, os revisores não deveriam aceitar e publicar um artigo com conclusões tão enviesadas.

    Felizmente, o Sérgio é capaz de realizar uma análise crítica bem construída, que julgo ser apreciada por todos os leitores habituais. Ainda que por vezes a participação activa seja diminuta (ver passatempo), há que manter-se motivado e continuar o bom trabalho!

    Abraço,
    César Chaves

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  3. A minha motivação é estimulada pelo feedback das pessoas, com comentários como o seu. Espero manter o blogue ao nível que os leitores pretendem.

    Muito obrigado.

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  4. Muito Bom o post.

    Parabens Sergio!!

    Abraço

    Daniel Cady

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  5. Este estudo faz-me lembrar Kitava (pequena ilha na Melanésia, pertencente à Papua-Nova Guiné), em que o consumo de hidratos de carbono é alto, não parece haver hiperingestão calórica (o Dr. Lindeberg, quando analisou a população, não encontrou ninguém com IMC > 25) e da dieta destes indivíduos não figuram açúcares isolados, gorduras isoladas (os tão saudáveis óleos e margarinas ricos em ácido linoleico), lacticínios nem cereais.

    A sua dieta é constituída apenas (pois o gasto per capita em alimentos importados era de apenas 1 DÓLAR por ANO) por vários tubérculos (base da dieta), coco (o fruto e não apenas o seu óleo), fruta (tropical, pelo que o consumo de frutose não é baixo) e peixe. Soma-se a isto viverem numa latitude perto do equador (UVB todo o ano), terem alguma actividade física regular (mas não muito elevada), aparente ausência de stress crónico, aparente ausência de exposição a xenobióticos, e o ciclo vigília-sono em consonância com a disponibilidade natural de luz.

    Mais curioso ainda é o facto de não apresentarem um bom rácio Triglicéridos/HDL_C e a sua de "novo lipogénese" ser, como seria de esperar numa dieta rica em hidratos de carbono, relativamente alta. NO entanto, apresentam insulina de jejum muito baixa, leptina baixa e ausência da maioria das doenças da civilização.

    Claro que não podemos esquecer que, contrariamente aos nativos da Papua-Nova Guiné e Austrália (que chegaram ali há mais de 40 mil anos e parecem apresentar um perfil metabólico mais adaptado para uma dieta pobre em hidratos de carbono), os habitantes de Kitava chegaram ali muitos milénios depois e os seus antepassados parece ser do Sudeste Asiático.


    Continua o bom trabalho Sérgio e quando tiveres um tempinho, gostava muito de ver um post teu sobre Kitava.

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  6. Oi Sérgio,

    Como você eu também não sou contra as frutas e também consumo 2 porções por dia (sendo que uma delas é sempre abacate).

    Acho esse estudo não chegou (de fato) à conclusão nenhuma. Os dois grupos deveriam ter utilizado frutas com mesma carga/índice glicêmico para um resultado mais acurado.

    Não tinha conhecimento da publicação desse estudo, obrigada por partilhar e pelo excelente post..como sempre! :)

    Abraços

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