22 de junho de 2011

O baixo consumo de sal pode aumentar a resistência à insulina em pessoas saudáveis


Uma das recomendações que mais ouvimos é para reduzir o consumo de sal. Supostamente isso iria diminuir o risco de doenças cardiovasculares, embora se saiba que o impacto da restrição de sódio na pressão arterial é mínimo. Qualquer um que o tenha tentado, sem medicação, sabe do que falo. Mas será aconselhável limitar seriamente o sal da dieta numa perspectiva global da saúde? Um estudo recente de uma equipa Norte-Americana sugere que não. Uma dieta pobre em sal parece estar associada a um aumento da resistência à insulina em pessoas saudáveis.


Estes resultados aparecem como uma surpresa para mim. Uma reduzida ingestão de sódio estimula a aldosterona através da activação do sistema renina-angiotensina-aldosterona (RAA). Esta hormona aumenta a reabsorção renal de sódio de forma a que este não seja eliminado na urina. Quando o consumo de sódio é superior ao requerimento orgânico, o excesso é excretado em condições normais. A aldosterona é inibida. A questão que se coloca é que tanto a aldosterona como a angiotensina aumentam a resistência à insulina (IR) em modelos animais e humanos. A ligação entre estes dois processos é evidente mas nunca antes os tinha associado até ao estudo de Rajesh Garg publicado há poucos dias na Metabolism, Clinical and Experimental.

Durante 7 dias, uma amostra de 152 pessoas foi submetida a uma dieta pobre em sal (LS) ou rica em sal (HS). O cumprimento foi assegurado pela análise à excreção de sódio na urina, um critério que serviu também para segregação dos grupos. Em HS foram admitidos aqueles com um teor de sódio na urina >150 mmol/dia, e em LS quem apresentou uma quantidade <20 mmol/dia.

O baixo consumo de sal mostrou-se associado a uma maior resistência à insulina avaliada por HOMA. Verificou-se um aumento de aldosterona, angiotensina II e norepinefrina nestes indivíduos, todas capazes de reduzir a sensibilidade insulínica. No entanto, nenhum destes factores foi capaz de explicar por si só a resistência à insulina na dieta LS. O consumo de sal continuou a ser um indicador independente do HOMA quando a aldosterona, angiotensina II ou norepinefrina eram incluídas na análise. É possível que existam outros mecanismos que expliquem a relação sal-IR, também influenciada pela grande variabilidade inter-individual nos componentes do sistema RAA.

É interessante que o sistema RAA não seja capaz de explicar por si o efeito verificado. Outros mecanismos deverão estar implícitos na forma como o organismo reage ao sódio da dieta. Este ião é também importante no metabolismo celular e transporte mediado. Mas a natrémia é mantida num intervalo tão estreito que não seriam expectáveis sintomas de carência em apenas 7 dias. Convém salientar que não foram controlados outros aspectos da dieta como a hidratação ou carga glicémica. A insulina estimula a reabsorção de sódio nos rins, explicando em parte o aumento da tensão e retenção de líquidos que algumas pessoas experimentam com dietas ricas em hidratos de carbono. Não estou certo de que a excreção de sódio seja o indicador ideal da sua ingestão.

O significado dos resultados obtidos por Garg não é ainda claro e o impacto na patogénese da diabetes e doença cardiovascular requer investigações futuras mais profundas. Não significam certamente que se deve comer sal à colherada, mas sugerem que é necessário encontrar um equilíbrio e que a restrição severa pode não ser tão benéfica como isso. O sal nem sempre fez parte da dieta humana, mas o sódio sempre esteve presente. As frutas e vegetais são ricos neste elemento. Mas com a pobreza da dieta moderna é possível que o sal se tenha tornado uma fonte importante de sódio e sem o qual o corpo funciona de uma forma subóptima. Ninguém precisa de sal, mas todos precisamos de sódio.



3 comentários:

  1. Uma das confusões que a maioria das pessoas fazem,é misturarem o sódio (esse tenebroso assasino)e o sal maritimo integral,tudo no mesmo saco,quando afinal o sal grosso de cozinha,até que é bem rico em outros minerais indespensáveis ao ser humano.
    Não há verdades absolutas.

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  2. sse estudo vale o que vale, ou seja, muito pouco IMO.

    1º de tudo, como estudante de dietética e nutrição, posso dizer que o consumo ideal de sal diário são de cerca 3g a 5g e encontrar alguém que faça uma ingestão alimentar de sal nestes parâmetros de forma crónica é extramamente improvável...uma vez que 3 a 5g é uma quantidade facílima de ultrapassar. Quando se recomenda á população baixar o consumo de sal(e bem) é pk os niveis medios de consumo são por si só altissimos. Penso que a média Portuguesa anda a volta dos 20g dias,mas já não posso garantir, ainda n actualizei essa informação. Portanto se alguém que consuma 20g baixe para metade(o que só é benéfico) ainda fica a consumir o dobro do recomendado lol.
    O consumo de sal deve ser o mais baixo possível, quanto a isso não á volta a dar.
    Falando no estudo, lendo-o na diagonal encontro uma série de problemas com ele. 1º de tudo não dizem a quantidade de sal administrada no grupo High Salt e Low Salt, segundo os participantes tinham uma média de IMC igual a 25,3 ou seja estão na escala excesso de peso/pré-obesidade portant não me parece uma bom grupo para avaliar a sensibilidade/resistencia insulinica sem risco de enviesamento.

    Concluindo, consumo de sal, 3g a 5g, traduzindo, baixo consumo de sal = consumo optimo de sal

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  3. O sal é o novo colesterol a temer e a eliminar. Mas é adequado consumir até 25% da energia em açúcar (2010 DGAC Meeting 1, Day 2, Slavin, pág. 71 - http://1.usa.gov/jjmxVY ). Curiosamente, as "novas" guidelines low-fat da USDA nem sequer impõem um limite superior em %en para o consumo de açúcar. Se a guerra anti-açúcar fosse tão forte quanto esta anti-sal, certamente se veriam resultados na redução de hipertensão e obesidade da população. Era óptimo que hipertensão só dependesse de sal, como pretendem fazer crer. A "lei do sal" portuguesa, reduzindo o sal nas padarias, só cria a falsa percepção de que o pão, um alimento de todo a evitar, está cada vez mais saudável, o que só faz aumentar ainda mais o seu consumo. A solução para a hipertensão só pode estar na dieta low-fat DASH, a qual por acaso se calhar até agrava doença cardiovascular e diabetes em quem já as tem, respectivamente.

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