10 de junho de 2011

Ranking de dietas no US News: Paleo em último? O Dr. Cordain diz que não (e eu concordo)


Há poucos dias, a US News publicou aquilo que parece ser um ranking das melhores dietas. Reuniram um painel de "especialistas" que analisaram uma série de dietas populares e mais em voga, segundo critérios que passaram pela perda de peso, benefícios cardiovasculares, adequação a diabéticos, segurança, preço, praticabilidade, etc. Não fosse o regime Paleo ter ficado em último, nem perdia tempo com o assunto. É um trabalho claramente sensacionalista e que coloca a ciência na gaveta. No fundo, mais do mesmo. As críticas não tardaram, e vieram de cima. Podia deixar aqui a minha opinião, mas quem em melhor posição do que o Professor Loren Cordain para o fazer?


A resposta do Professor Loren Cordain foi rápida e incisiva. É difícil ir contra uma pilha de estudos científicos que dão fundamento a uma dieta estilo Paleo, ou pelo menos a algo diferente do que tem sido recomendado. Um dos critérios de juízo foi a adequação às directivas dietéticas nacionais. Neste ponto sim, a dieta Paleo pode ficar com um orgulhoso último lugar.

Mas não no que toca aos restantes pontos. A avaliação global do painel foi a seguinte:


Overall
Weight Loss Short-term
Weight Loss Long-term
Easy to Follow
Nutrition
Safety
For Diabetes
For Heart Health


Antes de passar ao cometário de Loren Cordain, parece que o rating do público não está em concordância com o dos "especialistas". Vamos comparar com o primeiro classificado, a dieta DASH. Trata-se de um regime desenvolvido para gerir o problema da hipertensão crescente nas sociedades Ocidentais. Segundo o público que votou e que experimentou a dieta, 39% refere que a dieta DASH funcionou. Quando fazemos o mesmo exercício para a dieta Paleo, 94% das pessoas que a experimentaram mostram-se satisfeitas com os resultados. Curiosamente, a proporção de pessoas satisfeitas com o regime Paleo supera em larga escala qualquer um dos outros. Se calhar os "especialistas" deviam experimentar e dar-lhe uma oportunidade antes de a julgarem pelo preconceito da dieta das cavernas.

O painel fez ainda algumas afirmações relativas aos aspectos considerados na avaliação. O Dr. Cordain responde da única forma credível: ciência referenciada.

1. "Vai perder peso com a dieta Paleo?"

Painel: "Impossível dizer"

Cordain: "Obviamente, o autor deste artigo não leu o estudo de O'Dea [6] ou a experiência mais robusta de 3 meses levada a cabo por Jonsson e colaboradores [9] que demonstra o superior potencial para perda de peso de uma dieta Paleo rica em proteína e com uma baixa carga glicémica. Resultados idênticos de dietas similares foram relatados recentemente no maior ensaio controlado de sempre com crianças e adultos.

Um ensaio "randomizado" de 2010 que envolveu 773 indivíduos e que foi publicado no NEJM [8] confirmou que uma dieta hiperproteica e com uma baixa carga glicémica era a estratégia mais eficaz para manter um peso favorável. Os mesmos resultados foram demonstrados de forma dramática no maior ensaio controlado de nutrição alguma vez conduzido, o DiOGenes. Crianças alocadas para dietas pobres em proteína e com elevada carga glicémica engordaram significativamente nos 6 meses da experiência, enquanto que crianças com excesso de peso ou obesidade em dietas hiperproteicas e de baixa glicémia perderam peso"

2. "A dieta Paleo tem benefícios cardiovasculares?"

Painel: "Desconhecido"

Cordain: "Este comentário mostra o quanto desinformado o autor está. Claramente esta pessoa não leu os seguintes artigos [1-6] que mostram inequivocamente os efeitos terapêuticos das dietas Paleo em factores de risco cardiovasculares.

Painel: "Toda esse gordura preocupa a maioria dos especialistas"

Cordain: "Esta afirmação representa uma táctica de intimidação que não é substanciada pelos dados. Como eu, e quase toda a comunidade nutricionista, salientei previamente, não é a quantidade de gordura que eleva o risco de doença cardiovascular ou cancro, ou qualquer outro problema de saúde, mas a qualidade da mesma. As dietas Paleo contemporâneas contêm altas concentrações de ómega-3, ácidos gordos monoinsaturados e polinsaturados de cadeia longa que reduzem o risco de doenças crónicas [10-18]".

3. "Pode prevenir ou controlar a diabetes?"

Painel: "Desconhecido"

Cordain: "Este é outro exemplo de jornalismo irresponsável e tendencioso que não deixa os factos falarem por si próprios. Obviamente, o autor não leu o estudo de O'Dea [6] ou Jonsson [2] que mostram melhorias dramáticas em diabéticos tipo 2 que consomem dietas Paleo"

Painel: "Mas a maioria dos especialistas em diabetes recomendam uma dieta que inclui cereais integrais e lacticínios"

Cordain: "Num ensaio controlado, 24 rapazes com 8 anos consumiram 53g de proteína como leite ou carne diariamente [19]. Após apenas 7 dias da dieta com leite, os rapazes tornaram-se resistentes à insulina. Esta é uma condição que precede o desenvolvimento de diabetes tipo 2. Em contraste, no grupo com carne, não houve um aumento da insulina ou resistência à mesma. Além disso, no estudo de Jonsson [2], dietas sem leite ou cereais mostraram resultados superiores na melhoria dos sintomas da diabetes"

4. "Existem riscos para a saúde?"

Painel: "Possivelmente. Por excluir lacticínios e cereais está em risco de um deficit em muitos nutrientes"

Cordain: "Mais uma vez, esta afirmação mostra a ignorância do autor e o flagrante desprezo pelos factos. Uma vez que as "dietas ancestrais contemporâneas" excluem alimentos processados, lacticínios e cereais, elas são na verdade mais densas em nutrientes (vitaminas, minerais e fitoquímicos) do que as dietas recomendadas pelo Governo como a pirâmide alimentar [agora um prato (ou pizza)]. Eu salientei estes factos num artigo publicado no American Journal of Nutrition em 2005 [13] em conjunto com outro artigo no qual analisei o teor nutricional das dietas Paleo dos dias modernos [12]. Muitos nutricionistas sabem que os alimentos processados feitos com cereais refinados, açúcares e óleos vegetais têm uma baixa concentração de vitaminas e minerais, mas poucos compreendem que os lacticínios e cereais integrais contêm significativamente menos das 13 vitaminas e minerais que a população Americana mostra maior carência, comparativamente às carnes magras, peixe, fruta fresca e vegetais [12,13].

Painel: "Se não tem cuidado com as escolhas em carnes magras, vai rapidamente aumentar o risco de problemas cardíacos"

Cordain: "Na verdade, as meta-análises mais recentes não mostram que o consumo de carne vermelha fresca, seja magra ou gorda, seja um factor de risco significante para doenças cardiovasculares [20-25], apenas carnes processadas como o salame, bacon e salsichas [20]"

Portanto, a resposta dos especialistas é "impossível dizer", "desconhecido" e "possivelmente". Não há uma única referência a observações científicas credíveis e devidamente escrutinadas pelos pares. Mas não é grave! O que o painel ignora tem sido respondido por investigadores de renome como Cordain, Lindenberg, Frassetto, Jonsson, O'Dea, Astrup, Muskiet, Ramsden, Hoppe, entre muitos outros. Recentemente, o investigador Português Pedro Carrera-Bastos reviu toda esta informação que compilou no artigo "The western diet and lifestyle and diseases of civilization". Alguém devia fazer chegar o trabalho às caixas de correio dos ditos "especialistas".

A resposta do Professor Cordain estende-se e pode (e deve) ser lida na integra aqui. É difícil para alguém como eu aceitar artigos como o da US News, altamente mediáticos mas que distorcem os factos à medida de preconceitos e interesses. O jornalismo não é livre de responsabilidades e são artigos como este que moldam a opinião pública. Poucos querem saber da ciência, e menos ainda lhe têm acesso ou a compreendem sem "digestão prévia". Quando a própria impressa lhes nega o direito a informação credível e fundamentada, o que nos resta? Apenas criar espaços alternativos como este e não deixar estas situações passar em claro.





[1] Frassetto LA, Schloetter M, Mietus-Synder M, Morris RC, Jr., Sebastian A: Metabolic and physiologic improvements from consuming a paleolithic, hunter-gatherer type diet. Eur J Clin Nutr 2009.

[2] Jönsson T, Granfeldt Y, Ahrén B, Branell UC, Pålsson G, Hansson A, Söderström M, Lindeberg S. Beneficial effects of a Paleolithic diet on cardiovascular risk factors in type 2 diabetes: a randomized cross-over pilot study. Cardiovasc Diabetol. 2009;8:35

[3] Jonsson T, Granfeldt Y, Erlanson-Albertsson C, Ahren B, Lindeberg S. A Paleolithic diet is more satiating per calorie than a Mediterranean-like diet in individuals with ischemic heart disease. Nutr Metab (Lond). 2010 Nov 30;7(1):85

[4] Jonsson T, Ahren B, Pacini G, Sundler F, Wierup N, Steen S, Sjoberg T, Ugander M, Frostegard J, Goransson Lindeberg S: A Paleolithic diet confers higher insulin sensitivity, lower C-reactive protein and lower blood pressure than a cereal-based diet in domestic pigs. Nutr Metab (Lond) 2006, 3:39.

[5] Lindeberg S, Jonsson T, Granfeldt Y, Borgstrand E, Soffman J, Sjostrom K, Ahren B: A Palaeolithic diet improves glucose tolerance more than a Mediterranean-like diet in individuals with ischaemic heart disease. Diabetologia 2007, 50(9):1795-1807.

[6] O'Dea K: Marked improvement in carbohydrate and lipid metabolism in diabetic Australian aborigines after temporary reversion to traditional lifestyle. Diabetes 1984, 33(6):596-603.

[7] Osterdahl M, Kocturk T, Koochek A, Wandell PE: Effects of a short-term intervention with a paleolithic diet in healthy volunteers. Eur J Clin Nutr 2008, 62(5):682-685.

[8] Larsen TM, Dalskov SM, van Baak M, Jebb SA, Papadaki A, Pfeiffer AF, Martinez JA, Handjieva-Darlenska T, Kunešová M, Pihlsgård M, Stender S, Holst C, Saris WH, Astrup A; Diet, Obesity, and Genes (Diogenes) Project. Diets with high or low protein content and glycemic index for weight-loss maintenance. N Engl J Med. 2010 Nov 25;363(22):2102-13

[9] Papadaki A, Linardakis M, Larsen TM, van Baak MA, Lindroos AK, Pfeiffer AF, Martinez JA, Handjieva-Darlenska T, Kunesová M, Holst C, Astrup A, Saris WH, Kafatos A; DiOGenes Study Group. The effect of protein and glycemic index on children's body composition: the DiOGenes randomized study. Pediatrics. 2010 Nov;126(5):e1143-52

[10] Cordain L. Saturated fat consumption in ancestral human diets: implications for contemporary intakes. In: Phytochemicals, Nutrient-Gene Interactions, Meskin MS, Bidlack WR, Randolph RK (Eds.), CRC Press (Taylor & Francis Group), 2006, pp. 115-126.

[11] Cordain L, Miller JB, Eaton SB, Mann N, Holt SH, Speth JD. Plant-animal subsistence ratios and macronutrient energy estimations in worldwide hunter-gatherer diets.Am J Clin Nutr. 2000 Mar;71(3):682-92.

[12] Cordain L. The nutritional characteristics of a contemporary diet based upon Paleolithic food groups. J Am Nutraceut Assoc 2002; 5:15-24.

[13] Cordain L, Eaton SB, Sebastian A, Mann N, Lindeberg S, Watkins BA, O'Keefe JH, Brand-Miller J. Origins and evolution of the Western diet: health implications for the 21st century. Am J Clin Nutr. 2005 Feb;81(2):341-54.

[14] Kuipers RS, Luxwolda MF, Dijck-Brouwer DA, Eaton SB, Crawford MA, Cordain L, Muskiet FA. Estimated macronutrient and fatty acid intakes from an East African Paleolithic diet. Br J Nutr. 2010 Dec;104(11):1666-87.

[15] Ramsden CE, Faurot KR, Carrera-Bastos P, Cordain L, De Lorgeril M, Sperling LS.Dietary fat quality and coronary heart disease prevention: a unified theory based on evolutionary, historical, global, and modern perspectives. Curr Treat Options Cardiovasc Med. 2009 Aug;11(4):289-301.

[16] Cordain L, Eaton SB, Miller JB, Mann N, Hill K. The paradoxical nature of hunter-gatherer diets: meat-based, yet non-atherogenic. Eur J Clin Nutr. 2002 Mar;56 Suppl 1:S42-52

[17] Cordain L, Watkins BA, Florant GL, Kelher M, Rogers L, Li Y. Fatty acid analysis of wild ruminant tissues: evolutionary implications for reducing diet-related chronic disease. Eur J Clin Nutr. 2002 Mar;56(3):181-91

[18] Carrera-Bastos P, Fontes Villalba M, O’Keefe JH, Lindeberg S, Cordain L. The western diet and lifestyle and diseases of civilization. Res Rep Clin Cardiol 2011; 2: 215-235.

[19] Hoppe C, Mølgaard C, Vaag A, Barkholt V, Michaelsen KF. High intakes of milk, but not meat, increase s-insulin and insulin resistance in 8-year-old boys. Eur J Clin Nutr. 2005 Mar;59(3):393-8.

[20] Micha R, Wallace SK, Mozaffarian D. Red and processed meat consumption and risk of incident coronary heart disease, stroke, and diabetes mellitus: a systematic review and meta-analysis. Circulation. 2010 Jun 1;121(21):2271-83

[21] Micha R, Mozaffarian D. Saturated fat and cardiometabolic risk factors, coronary heart disease, stroke, and diabetes: a fresh look at the evidence. Lipids. 2010 Oct;45(10):893-905. Epub 2010 Mar 31.

[22] Mozaffarian D, Micha R, Wallace S. Effects on coronary heart disease of increasing polyunsaturated fat in place of saturated fat: a systematic review and meta-analysis of randomized controlled trials. PLoS Med. 2010 Mar 23;7(3):e1000252.

[23] Siri-Tarino PW, Sun Q, Hu FB, Krauss RM. Saturated fatty acids and risk of coronary heart disease: modulation by replacement nutrients. Curr Atheroscler Rep. 2010 Nov;12(6):384-90.

[24] Siri-Tarino PW, Sun Q, Hu FB, Krauss RM. Saturated fat, carbohydrate, and cardiovascular disease. Am J Clin Nutr. 2010 Mar;91(3):502-9

[25] Siri-Tarino PW, Sun Q, Hu FB, Krauss RM. Meta-analysis of prospective cohort studies evaluating the association of saturated fat with cardiovascular disease. Am J Clin Nutr. 2010 Mar;91(3):535-46

3 comentários:

  1. 3 palavras: cambada de parvos.

    Quem fez a organização do ranking usou ali uma bela quantidade de clichés e mitos que demonstram um "grande conhecimento de nutrição". Gostei particularmente de:

    - Painel: "Toda esse gordura preocupa a maioria dos especialistas"
    - Painel: "Possivelmente. Por excluir lacticínios e cereais está em risco de um deficit em muitos nutrientes"

    Retrógrados que não aceitam ideias mais hardcore, anti-pirâmide dos alimentos. Enfim...

    Artigo interessante, mais uma vez. Sempre muito acessível e ao mesmo tempo extremamente rico.

    Um abraço,
    Tomás (Jok3r)

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  2. É prá rir ou chorar dessa idiotice?

    As ditas revistas sobre alimentação e dieta (que no Brasil, são inúmeras) ganham rios de dinheiro fazendo o quê?
    Dizendo o que as pessoas querem ouvir!
    "Perca peso comendo brigadeiro", A Dieta do Sanduíche" (sandes).
    A maioria das pessoas simplesmente adora laticínios e cereais açucarados e não querem abrir mão deles! Além do mais foram ensinados que o que engorda é GORDURA. Quantas pessoas conheço que se GABAM de terem uma alimentação super saudável porque bebem leite magro, iogurte magro, se enchem de frutas o dia inteiro e não comem carne vermelha? INÚMERAS!
    Agora pergunte quantas delas estão em forma? Uma ou duas.

    Tudo isso prá dizer que a classe médica continua em negação (por comodismo ou sei lá o quê), a população mal informada segue fazendo tudo errado e esse tipo de pesquisa irresponsável não ajuda em absolutamente nada!
    Como diria um professor meu da faculdade:
    "QUEM NÃO ATRAPALHA JÁ AJUDA"

    Abraços

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  3. Palavras sábias do teu professor. E se te deixa mais confortada, aqui em Portugal passa-se precisamente o mesmo (e pelo que sei em todo o mundo "civilizado")...

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