4 de junho de 2011

A TV não é amiga do seu coração, diz Yudkin


Dizem-nos que cada garfada de gordura animal é um ponto acrescido no risco de doença coronária. Ancel Keys foi provavelmente o principal responsável por esta assumpção. No seu Seven Countries Study, Keys tenta mostrar que os níveis séricos de colesterol estão relacionados com o consumo de gordura saturada, e que esta se correlaciona com a mortalidade por doença coronária. Isto para sete países escolhidos a dedo: Finlândia, Grécia, Itália, Japão, Holanda, Estados Unidos e Jugoslávia. Porquê utilizar apenas estes quando Keys tinha dados relativos a mais de duas dezenas de países? A resposta morreu com ele mas as razões parecem óbvias. Se todos fossem incluídos, nenhuma relação teria sido encontrada. Na verdade bastaria incluir a França para que a ideia de Keys fosse pelo cano. Mas, como iremos ver, a estatística até tem coisas engraçadas.


O professor John Yudkin dedicou a sua vida ao estudo da relação entre a dieta e a mortalidade cardiovascular. No seu artigo de 1957 "Diet and Coronary Thrombosis: Hypothesis and Fact", Yudkin analisa a associação de diversos factores dietéticos e demográficos com o número de mortes por doença coronária em Inglaterra e Gales. "De longe, a melhor correlação que encontrei com a tendência de mortalidade coronária é o número de licenças para televisões e rádios" (na altura era necessário licença para possuir estes aparelhos). A relação era mais forte do que com qualquer factor nutricional. Mais tarde, Uffe Ravnskov reaviva o assunto no seu livro "The Cholesterol Myths".

Consumo de gordura animal, número de televisões e rádios licenciados e
mortalidade por doença coronária em Inglaterra e Gales entre 1930 e 1956 (adaptado).

Ficou claro do trabalho de Yudkin que o estatuto socioeconómico e padrão de vida eram melhores indicadores do que a gordura ou outro nutriente qualquer. Segundo o autor, "Isto suporta a noção de que um possível factor na trombose coronária possa ser a relação entre a actividade física e o nível geral da dieta, expresso em calorias em vez de um qualquer nutriente singular". Mais tarde, Yudkin defendeu a relação entre o açúcar da dieta e a doença coronária, tornando-se um dos maiores opositores de Ancel Keys.

Será possível estabelecer uma causalidade entre o número de aparelhos de TV e rádio com a morte por doença coronária? Foi possível em relação à gordura por muito menos e baseando-se em dados distorcidos. Devemos mandar as TVs pela janela para gozar de uma vida mais longa? Será que estes aparelhos emitem algum tipo de radiação desconhecida que aumenta o risco de doença cardiovascular? Ninguém pensou muito neste assunto, e ainda bem. Ninguém confundiu uma associação estatística com causalidade.

Esta é apenas uma das muitas curiosidades que acompanha a temática, e especialmente o Seven Countries Study. Outras há bem mais interessantes, mas isso fica para um próximo episódio...



2 comentários:

  1. Curiosamente(?), no CHINA PROJECT também se constata uma forte associação entre televisões e variadas doenças da civilização, incluindo a "doença" colesterol alto (ver em http://bit.ly/bK6kCO ).

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  2. Curioso é... artefactual é que se calhar não :)

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