7 de junho de 2011

Suplementação com ácido araquidónico (X-Factor)


Há já algum tempo que tencionava escrever um artigo sobre o “cabeça de cartaz” da Molecular Nutrition, o X-Factor, agora na sua versão Advanced. Na verdade, surge como consequência inevitável de um trabalho que realizei na faculdade sobre a suplementação com ácido araquidónico. O tema foi ressuscitado no seminário promovido pela NutriScience, no qual participei, e onde se abordou as implicações inflamatórias do tipo de ácidos gordos ingeridos. O X-Factor sempre me suscitou muitas dúvidas, e passo a explicar porquê.


É fácil avaliar um produto quando este se baseia em apenas um único estudo, patrocinado pela própria Molecular Nutrition. Foi submetido em 2006 e publicado no ano seguinte no Journal of the International Society of Sports Nutrition, uma revista de acesso livre. Um factor relevante mas que abordaremos a seu tempo. O trabalho foi dirigido pelo Dr. Richard Kreider da Universidade de Baylor e intitula-se “Effects of arachidonic acid supplementation on training adaptations in resistance-trained males”.

Antes de mais, vamos sintetizar as claims da companhia para o seu produto:

“Devido ao seu papel central no processo de crescimento muscular, o AA é o nutriente anabólico mais eficaz disponível para suplementação, capaz de sustentar maiores e mais rápidos ganhos de massa muscular, força, e perda de gordura”. 
“Ensaios clínicos controlados demonstraram um surpreendente aumento em 600% do pico de potência muscular, em conjunto com tendências significativas de melhoria da 1RM no supino (44%), potência muscular média (223%), resistência muscular (250%), quando tomado durante 50 dias por atletas experientes. Os participantes também verificaram uma redução no parâmetro inflamatório IL-6”.

Tendo estas afirmações em mente, vamos então analisar o estudo com um pouco de detalhe.

Foram recrutados 31 atletas, do sexo masculino, saudáveis, com pelo menos um ano de experiência e sem qualquer contacto com suplementos nutricionais ou anabolizantes nos 3 meses prévios ao ensaio. O estudo teve a duração de 50 dias, com avaliações no tempo 0, 25 e 50. Foram medidas a força máxima (1 RM no supino plano e prensa de pernas a 45°), potência muscular (teste de Wingate), composição corporal (DXA), teor proteico do músculo e parâmetros bioquímicos do sangue diversos, com particular interesse em marcadores inflamatórios.

O estudo foi double-blinded, ou seja, nem os participantes nem os avaliadores sabiam quem estava no grupo suplementado com ácido araquidónico (AA) ou no grupo placebo (PLA). O grupo AA recebeu 4 cápsulas de 250 mg de ácido araquidónico, enquanto que o PLA tomou uma dose equivalente de óleo de milho. Todos os participantes foram instruídos a aumentar o aporte calórico em 500 kcal/dia e a manter um consumo proteico na ordem das 2 g/kg de peso corporal. Adicionalmente, foi-lhes pedido que evitassem ingerir alimentos ricos em ácidos gordos essenciais e que não tomassem drogas anti-inflamatórias não-esteróides.

Durante o período da intervenção, todos os indivíduos seguiram o mesmo protocolo de treino, constituído por um split-body 4 vezes por semana, com periodização linear.

Antes de passar aos resultados propriamente ditos, convém explicar brevemente a teoria por detrás deste estudo. O ácido araquidónico (20:4n6) é um ácido gordo com 20 carbonos e que pertence à família dos ómega-6, precursor de um grupo de hormonas chamadas eicosanóides. Entre estas, estão as prostaglandinas, geralmente reconhecidas como importantes mediadores do processo inflamatório. Mas para além deste efeito muito bem caracterizado, estudos antigos com inibidores da COX-2 (ciclooxigenase-2), uma enzima que participa na via de conversão dos ácidos gordos com 20 C em prostaglandinas (a maioria dos anti-inflamatórios não-esteróides actuam inibindo a COX), revelam que estas hormonas têm uma grande influência no turnover proteico muscular, particularmente a PGF2α e PGE2. Desenvolver um suplemento que modele os seus níveis poderia ser de facto muito interessante em nutrição desportiva.

E é aqui que entra o ácido araquidónico, o precursor destas duas prostaglandinas. Embora vários ácidos gordos insaturados com 20 C possam ser convertidos em prostaglandinas, apenas o AA é transformado em PGF2α e PGE2 pela ciclooxigenase, a chamada série 2 de prostaglandinas. De um modo genérico, a COX-2 adiciona 2 oxigénios à molécula de ácido gordo, removendo-lhe uma dupla-ligação por cada oxigénio acrescentado. Uma vez que o AA tem 4 pontos de insaturação, após a oxigenação mantém dois. Daí a designação do número da série. Ácidos gordos 20:3 dão origem a PGF1 e PGE1, ácidos gordos 20:5 dão origem a PGF3 e PGE3. Tão simples como isto. Cada uma destas hormonas tem efeitos diferenciais no organismo.

A dieta actual não é uma fonte muito rica de AA (embora não conheça sintomas de carência), mas o organismo possui ferramentas para o sintetizar a partir dos ácidos gordos essenciais, em particular dos ómega-6. Construí o seguinte esquema que ilustra precisamente isso.



Repare que também o EPA, da família nos ómega-3 (n3), pode ser convertido em eicosanóides por acção da COX. Uma vez que contém 5 duplas ligações, as hormonas produzidas pertencem á série 3. Como disse anteriormente, os participantes no estudo foram instruídos para evitar alimentos ricos em outros ácidos gordos essenciais. Os n3 irão competir com a suplementação testada por incorporação na membrana celular e podem aumentar a produção de outros eicosanóides com efeitos distintos no organismo.

Todas estas hormonas são importantes mediadores inflamatórios. Como saberá certamente, a inflamação é um processo intimamente relacionado com o exercício físico, neste caso com o treino de resistência muscular. A reparação do dano induzido pelo treino requer a acção de células imunitárias que removem os detritos e estimulam processos regenerativos. Entre os vários mediadores químicos envolvidos está o IL-6, um agente com um papel dual em todo este processo como iremos ver. A inflamação é geralmente tida como um processo deletério, o que não é correcto. Sem ela, a um nível agudo e não crónico, as adaptações funcionais ao treino seriam impossíveis.

Os anti-inflamatórios não-esteróides são capazes de suprimir totalmente a síntese proteica após o treino. É péssima ideia tomá-los continuamente quando se pretende maximizar as adaptações ao exercício. Esta inibição está relacionada com o bloqueio da produção de PGF2α e PGE2. No entanto, embora o PGE2 estimule a síntese proteica, parece que aumenta muito mais a proteólise e tem um efeito global negativo no balanço azotado. Por seu lado, o PGF2α é anabólico por excelência e até utilizado como um agente dopante pouco convencional. É provável que nunca tenha ouvido falar do PGCL, uma prostaglandina sintética que mimetiza os efeitos do PGF2α e que é utilizada nos circuitos underground do culturismo. Não é um composto muito usado devido aos seus efeitos secundários pouco convidativos (diarreia, contrição das vias respiratórias e desidratação).

Portanto, desenvolver uma estratégia de suplementação que aumente os níveis de PGF2α parece interessante. Em teoria seria possível “sustentar maiores e mais rápidos ganhos de massa muscular, força, e perda de gordura”. O ácido araquidónico seria o primeiro candidato lógico.

Julgo que estamos agora em condições de olhar para os resultados do estudo em questão. A suplementação com AA não parece acarretar quaisquer efeitos adversos a curto-prazo, o que aliás tinha está de acordo com trabalhos prévios.

A tabela que se segue sintetiza as alterações a nível de força e composição corporal em ambos os grupos de estudo (clique para ampliar).



A massa corporal, massa magra, massa gorda e % gordura corporal não diferem significativamente entre o grupo AA e PLA (evidenciado por uma significância grupo x tempo >0.05). No entanto, podemos observar que o aumento de massa magra foi ligeiramente superior no grupo placebo (+2 Kg vs +1.2 Kg nos 50 dias) e a massa gorda aumentou apenas no grupo suplementado com AA (+0.5 Kg). Note também que o grupo AA tinha à partida uma massa gorda mais elevada, e mesmo assim foi capaz de aumentá-la após o mesmo regime que permitiu ao grupo PLA mantê-la.

Em relação às cargas máximas, também não foram encontradas diferenças com significância estatística. Um olhar mais desatento poderia levar a concluir que o aumento na 1RM do supino plano foi superior no grupo AA (+11.4 Kg vs 8.0 Kg). Mas repare bem no ponto de partida de ambos os grupos. O grupo PLA era notoriamente mais forte, apesar da ligeira diferença no peso corporal, o que me levanta sérias questões quanto à randomização deste estudo. A dimensão dos resultados depende também da situação inicial não lhe parece?

O resultado que mais se destaca neste estudo é o aumento notório na capacidade anaeróbia máxima, a maior potência gerada durante um intervalo do teste de Wingate (clique para ampliar).



É certo que existe um efeito grupo x tempo significativo, mas mais uma vez o grupo suplementado com AA partiu de uma base muito inferior. Após 50 dias, apenas igualou o valor médio do PLA. “Um surpreendente aumento em 600% do pico de potência muscular”, dizem. Uma artimanha estatística que em vez de comparar com estado basal do grupo, compara com os valores obtidos em PLA.

A tabela seguinte representa a variação nos parâmetros bioquímicos do sangue analisados pela equipa (clique para ampliar).



Não houve qualquer alteração digna de nota nos níveis de testosterona e cortisol. No entanto, a IL-6 diminuiu significativamente no grupo AA. Ora, este resultado não é novo e já Ferrucci tinha verificado o mesmo efeito do AA nas citocinas pró-inflamatórias, nomeadamente IL-6. Menos novidade ainda é o mecanismo pelo qual o AA exerce a sua acção. Os ácidos gordos n6 ligam-se aos PPAR -α e -γ, factores que reprimem a transcrição de certos genes e a produção de algumas citocinas pró-inflamatórias.

Mas a questão que se coloca é: será assim tão benéfico reduzir os níveis de IL-6? Depende. Admitindo que o período entre uma sessão de treino e a análise não foi muito longo, a incapacidade em produzir IL-6 pode comprometer a recuperação e não o inverso. Como disse inicialmente, a inflamação é um processo fisiológico normal que precede a resposta adaptativa ao exercício e a regeneração dos tecidos. Os mediadores inflamatórios mais importantes são o TNF-α, IL-1 e IL-6. Expressos de uma forma aguda, com flutuações promovidas pelos períodos de treino e descanso, estas citocinas estão longe de serem deletérias. Irão promover a remoção de detritos e estimular o complexo sistema de reparação muscular. Os primeiros a surgir são o TNF-α e o IL-1. Segue-se o IL-6, estimulado pelo IL-1. Embora o IL-6 seja pró-inflamatório, é também o primeiro passo para o que se chama “resolver a inflamação”. O IL-6 actua no hipotálamo e estimula a produção de ACTH. A ACTH estimula a produção de corticosteróides que irão pôr fim a esta resposta primária. A recuperação de um atleta depende de um balanço entre estes mecanismos e não me parece claro até que ponto a inibição de IL-6 possa ser benéfica, a não ser obviamente em situações extremas em que os seus níveis estão cronicamente elevados (no overtraining por exemplo).

Mas retornemos à tabela para o que é talvez o resultado mais paradoxal deste estudo. Repare que de facto existe uma tendência para um aumento de PGF2α e PGE2 no grupo AA e diminuição em PLA, embora sem significância estatística. Vemos também que a PGE2 aumentou consideravelmente mais do que a PGF2α no grupo AA (44% vs 27%). Com isto em mente, vejamos o que se passou com as adaptações intramusculares e expressão de MHC (cadeia pesada da miosina).



Não nota nada de estranho? A proteína muscular total diminuiu no grupo suplementado e aumentou no grupo placebo. Houve uma redução nos elementos contrácteis e proteína muscular em AA. Em ambos os grupos houve um aumento dos níveis da cadeia pesada de miosina do tipo IIa, mas o decréscimo nos outros tipos foi mais acentuado em AA.

Estes resultados são contraditórios com a promessa de aumento de massa muscular. Como referi na parte introdutória, a PGE2 é uma prostaglandina que, embora estimule a síntese proteica, estimula mais ainda a sua degradação. O aumento mais acentuado desta prostaglandina está de acordo com a redução na composição proteica que se verificou, um indicador da massa muscular funcional.

Como já deu para notar, eu coloco sérias dúvidas a este estudo. Não me parece de todo que se tenha respeitado o princípio da aleatoriedade. Inicialmente, o grupo AA tem mais massa gorda, menos massa magra, é mais fraco nos exercícios testados e tem uma capacidade anaeróbica basal inferior. Isto para mim é uma tentativa de forçar resultados positivos, mas falhada por sinal.

Saliente-se também que a dieta seguida pelos participantes no estudo não é a mais adequada à prática desportiva e muitos menos à saúde. Foram restringidas todas as fontes alimentares de ácidos gordos essenciais para tentar isolar os efeitos da suplementação. Além idsso, o óleo de milho que o grupo placebo tomou é muito rico em n6. Como vimos, o n6 pode ser convertido em AA. Mas nas condições do ensaio, onde os ácidos gordos essenciais estão limitados, não é de esperar uma conversão significativa, podendo resultar em deficit. Por este motivo, questiono se os resultados obtidos no estudo terão algum significado em condições normais, onde a dieta é ampla e fornecesse os nutrientes necessários para sustentar todos estes processos.

Desde a minha primeira análise ao estudo, a fórmula do X-Factor mudou. Agora é constituído por uma combinação de ácidos gordos, nomeadamente ácido araquidónico e ómega-3. Apesar de ser reconhecido que existe uma competição entre ambos, o equilibro é fundamental para garantir uma compensação entre mecanismos pró- e anti-inflamatórios, bem como uma eficaz resolução da inflamação.

Um outro aspecto que convém focar, e que fica como lição para críticas futuras, é a revista onde o estudo foi publicado. O Journal of the International Society of Sports Nutrition é um suporte open access, onde os artigos estão disponíveis ao público sem qualquer encargo. Esta questão tem sido muito debatida na comunidade científica nos últimos tempos. Por mais isentas que sejam, estas revistas necessitam dos contributos de quem nelas publica. Sem o financiamento de uma companhia, como neste caso a Molecular Nutrition, não é fácil manter o acesso gratuito à informação. Em alguns casos, os próprios autores pagam para manter os seus artigos livres. São os primeiros a ter interesse nisso, mas o dinheiro muito raramente lhes sai do bolso e fará parte do projecto ou é coberto por alguma entidade interessada. Até que ponto é possível manter a isenção e rigor científico? É uma questão ainda em aberto. Será que este trabalho seria aceite noutra publicação de acesso limitado?

O fundador da Molecular Nutrition é um homem muito famoso nos círculos do culturismo. O William Llewellyn é o autor do livro Anabolics, actualizado anualmente, e participa activamente em vários fóruns internacionais com artigos e opiniões. Julgo que não será desapropriado pensar que o seu mediatismo é meio caminho para o sucesso do X-Factor, independentemente dos resultados obtidos nos testes clínicos. Devo dizer-vos que o William é uma pessoa bastante acessível e quando iniciei a minha pesquisa ele mostrou-se entusiasmado pelo meu interesse no seu produto, embora tenha assumido que não dominava os mecanismos bioquímicos por detrás da acção do X-Factor. Ofereceu-se para disponibilizar toda a informação que eu precisasse e isso é algo digno de nota.

Já li críticas positivas em relação ao X-Factor. A olhar para os resultados do estudo, são questionáveis. De qualquer forma dou o benefício da dúvida e acredito que alguns atletas possam ter experimentado algum tipo de efeito positivo. Mas de acordo com os dados retirados do único ensaio clínico disponível, não me parece um suplemento eficaz e pode até comprometer os objectivos dos atletas mais exigentes. Toda uma indústria de suplementação desportiva vive em torno de uma utopia: se um elemento tem um efeito positivo, então uma dose adicional exógena vai potenciar esse efeito. Isto raramente acontece e aqui parece também não ser o caso.






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