17 de junho de 2011

Tensão arterial, envelhecimento e civilização


A pressão arterial sistólica (TA sist) é reconhecida como um importante factor de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Acredita-se também que é modificável, ou seja, que alterações de comportamento ou intervenção farmacológica podem atenuar o risco que representa. Alguns estudos em populações ocidentais indicam que a TA sist tem uma tendência crescente com a idade, sugerindo que o envelhecimento poderia estar relacionado com uma deterioração da reactividade vascular, função endotelial e rigidez arterial. Os próprios valores de referência admitem pressões médias superiores com o avançar da idade. Um estudo recente em 8 coortes no Reino Unido aponta nesse sentido, embora reconhecendo a importância de outros factores biológicos e socioeconómicos. Mas e se considerar-mos outras populações humanas, isoladas da civilização moderna? Como é que a tensão arterial varia?


A maioria dos estudos sobre a variação da pressão arterial com a idade são transversais, ou seja, avaliam o parâmetro num ponto específico apenas e procuram correlações entre as variáveis. Não são sensíveis às variações individuais com o avançar da idade. Este estudo publicado há dias no PLoS Medicine tem a particularidade de ser longitudinal, acompanhando a evolução das coortes no tempo.

O gráfico seguinte resume os dados obtidos pela equipa do Dr. Andrew Wills para as diferentes coortes, bem como a prevalência de tratamentos farmacológicos anti-hipertensivos (clique na imagem para ampliar):

Observações da mediana, 10º e 90º centis para a pressão arterial sistólica (mmHg) nas coortes estudadas. Os pontos e curvas junto à base representam a prevalência de tratamentos com fármacos anti-HTA.


Sem um ajustamento a outras variáveis, os resultados indicam 4 fases cronológicas: 1) um aumento muito acentuado na TA sist que coincide com o pico de crescimento na adolescência, 2) um crescimento menos acentuado no início da fase adulta, 3) uma aceleração por volta dos 40 anos e 4) uma desaceleração na velhice, por volta dos 70 anos.

Se olharmos para as curvas que representam o tratamento com anti-hipertensores, verificamos que esta terapia aumenta exponencialmente a partir dos 40 anos. O declive é particularmente acentuado na fase de desaceleração que se observa por volta dos 70 anos, quando quase 40% dos indivíduos estão sob tratamento. Quando os autores incluem apenas os indivíduos que não tomam medicação, este fenómeno é bastante atenuado e quase desaparece. Parece que este decréscimo aparente se deve em grande parte ao uso de drogas na fase final da vida adulta.

Mas o que acontece noutras populações ainda não “ocidentalizadas”? Será que a evolução da TA sist com a idade tem o mesmo comportamento? Sem recurso a anti-hipertensores, que tendências se observam para a pressão arterial na velhice?

O Dr. Lindeberg estudou exaustivamente os Kitava, uma população de agricultores tradicionais na Papua Nova Guiné. Comparados à população sueca, os Kitava entre os 60 e os 86 anos de idade tinham uma TA sist significativamente mais baixa. A média na população sueca para esta classe etária era de 146 mmHg, face aos 129 mmHg dos Kitava. Nas mulheres, apenas diferia a partir dos 60 anos de idade. No entanto, verificou-se também uma tendência aparentemente crescente muito ligeira com a idade nos Kitava.

William Oliver, Edwin Cohen e James Neel estudaram a pressão arterial dos índios Yanomamo, um povo caçador-recolector do Norte do Brasil. Os resultados foram os seguintes:

in "The western diet and lifestyle and diseases of civilization"


A TA sist não parece aumentar com a idade e nos homens tem até uma tendência decrescente ligeira. O consumo de sal é praticamente inexistente nos índios Yanomamo e os autores sugerem esse facto como uma possível explicação. Mas o consumo de sal explicará a evolução da TA sist com a idade nas populações ocidentais modernas? Pouco provável.

Mas já no inicio do séc. XX se sabia que a hipertensão é uma “doença da civilização”. Em 1938, o Dr, Cyril Donnison publicou a obra “Civilization and Disease”, um trabalho seminal sobre a relação entre a saúde humana e a prosperidade do mundo moderno. A pressão arterial média em populações isoladas com dietas tradicionais era baixa, mas não diferente da verificada em ocidentais jovens. A hipertensão era inexistente e a pressão sanguínea decrescia com a idade, ao contrário do que acontece nas sociedades modernas. Em 1929, Donnison relatou as medições da pressão arterial em mais de 1000 Quenianos nómadas e verificou que era similar à dos Europeus até aos 40 anos. Mas a partir dai, a TA tem tendência a decrescer nos Africanos enquanto que “nas raças brancas continua na sua tendência crescente até à oitava década”. A componente genética está descartada porque em populações nativas expostas a uma dieta e estrutura social ocidentalizada, a pressão arterial parece aumentar com a idade, tal como acontece com “as raças brancas”.

O aumento da pressão arterial com a idade não parece ser um fenómeno condicionado pela nossa biologia. Os valores de referência estipulados actualmente variam com a idade, mas em populações nativas essa variação parece não existir ou até ser inversa. O sal seria uma hipótese tentadora, mas como justificar o efeito num grupo etário particular? Que outros factores estarão em jogo? Talvez a pequena cidade de Roseto nos ajude a responder. Provavelmente será uma acumulação de factores ao longo do tempo e, talvez, uma alteração estrutural da parede dos vasos induzida pela elevada glicemia ao longo da vida (formação de ligações-cruzas no colagénio pelos produtos de glicação). De qualquer forma, se a hipertensão é patológica, são os nossos hábitos que nos estão a por doentes.





Andrew K. Wills, Debbie A. Lawlor, Fiona E. Matthews (2011).Life Course Trajectories of Systolic Blood Pressure Using Longitudinal Data from Eight UK Cohorts. PLoS Medicine. 8(6)


Pedro Carrera-Bastos, Maelan Fontes-Villalba, James H O’Keefe, et al (2011). The western diet and lifestyle and diseases of civilization. Research Reports in Clinical Cardiology. 2:15-35


Lindeberg S, Nilsson-Ehle P, Terént A, Vessby B, Scherstén B. (1994) Cardiovascular risk factors in a Melanesian population apparently free from stroke and ischaemic heart disease: the Kitava study. J Intern Med. 236(3):331-40.


WJ Oliver, EL Cohen and JV Neel (1975). Blood pressure, sodium intake, and sodium related hormones in the Yanomamo Indians, a "no-salt" culture. Curculation. 52:146-151.


Taubes G. (2007). The Diet Delusion. Vermilion, London. pp 147.

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