15 de junho de 2011

Uma dieta low-carb hiperproteica reduz a incidência e progressão do cancro


As células tumorais dependem quase em exclusividade da glicose como substrato energético para sustentar a sua elevada taxa de divisão e metabolismo. Além disso, a insulina é também um factor de crescimento que pode estimular a proliferação destas células. Daqui não é abusivo levantar a hipótese de uma dieta low-carb pode de alguma forma impedir ou atrasar a progressão da doença. Uma equipa de investigadores do British Columbia Cancer Research Center mostra num artigo publicado ontem no Cancer Research que uma dieta low-carb é capaz de restringir o desenvolvimento e progressão do cancro em ratos, ao contrário do que se verifica num regime ocidental típico.


A equipa de Gerald Krystal implantou células tumorais humanas em ratos e alocou-os em grupos com dietas distintas. Um regime tradicional, constituído por 55% hidratos de carbono, 23% proteína e 22% gordura, ou uma dieta low-carb hiperproteica com quantidades variáveis de hidratos de carbono e proteína (8-15% Hidratos de carbono, 58-69% proteína e 23-26% gordura). Todas as dietas eram isocalóricas. Os autores decidiram manipular a quantidade de proteína e não de gordura pelo receio de que esta última pudesse favorecer os tumores e pelos benefícios reconhecidos da suplementação com aminoácidos. Um critério discutível mas fundamentado por estudos prévios em ratos. Além disso, 70% dos hidratos de carbono fornecidos pelas dietas low-carb era na forma de amilose, um tipo de amido com um menor índice glicémico.

Os resultados indicam que uma dieta low-carb hiperproteica e de baixo índice glicémico reduz os níveis de glicose, insulina e taxa glicolítica. Este regime inibe o crescimento de tumores e reduz a sua incidência. Mais de metade dos ratos pré-dispostos e alocados na dieta tradicional desenvolveram cancro no primeiro ano de vida, enquanto que nenhum foi verificado nos grupos low-carb. Esta intervenção tem potencial terapêutico e actua em conjunto com drogas existentes, nomeadamente os inibidores de mTOR e COX-2. Os efeitos são independentes da perda de peso.

Segundo o Dr. Krystal e o editor da Cancer Research, George Prendergast, estes resultados devem também ser considerados em humanos e representam não só uma alternativa terapêutica mas também uma adição às práticas existentes.

“Isto mostra que algo tão simples como mudar a deita pode ter impacto no risco de cancro”, disse o Dr. Gerald Krystal.
“Muitos pacientes de cancro estão interessados em fazer mudanças nas áreas que podem controlar, e este estudo dá definitivamente crédito à ideia de que alterações na dieta podem ser benéficas”, disse o Dr. Prendergast.

Existem bastantes evidências epidemiológicas de uma associação entre a glicemia e/ou insulina com a incidência de cancro no Homem, sugerindo que estes resultados serão relevantes também para cancros humanos, particularmente aqueles que foram já associados a altos níveis de glicose ou insulina: pâncreas, mamário, colo-rectal, endométrio e esófago. Além destes, uma dieta restrita em hidratos de carbono parece ser benéfica em estados iniciais do cancro da próstata.

É provável que os efeitos benéficos dos regimes testados neste trabalho não se devam em exclusivo à redução da glicemia e efeitos que daí derivam. Para além de “matar as células tumorais à fome”, é possível que o aumento considerável na proteína alimentar tenha um papel estimulador do sistema imunitário ou anti-inflamatório. De qualquer das formas, trata-se uma abordagem a considerar no tratamento e prevenção do cancro, fundamentada, sem riscos e que se tem mostrado eficaz em modelos animais e in vitro. Dá também para pensar nos factores que terão levado a uma incidência tão elevada de cancro nos países ocidentais.




Ho VW, Leung K, et al. (2011). A Low Carbohydrate, High Protein Diet Slows Tumor Growth and Prevents Cancer Initiation. Cancer Research. Epub AOP 14 June. doi: 10.1158/0008-5472.


EurekAlert! 14 June, 2011: Low-carbohydrate, high-protein diets may reduce both tumor growth rates and cancer risk.

1 comentário:

  1. Este artigo está muito bom, so que coloco grandes duvidas nesta questão de alimentação porque o Dr. Barcelos tem uma dieta que é complectamente o oposto. Baixa em proteina(aminoacidos) vejam este artigo, fiquei confuso com estas duas formas distintas de combater as celulas cancerigenas.

    http://correcotia.com/cancer/index.html

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