13 de julho de 2011

"Boas Práticas de Perda de Peso", a posição do Conselho Cientifico da Plataforma Contra a Obesidade


O Conselho Científico da Plataforma Contra a Obesidade produziu um texto de consenso sobre cuidados a ter na perda de peso, tendo em conta a época do ano e a necessidade de utilizar práticas seguras para combater esta doença crónica. Embora sem explicitar, é óbvio que este documento surge em resposta ao programa da SIC "Peso Pesado". A Plataforma Contra a Obesidade e a ADEXO têm-se mostrado muito apreensivas desde início. Qual a vossa opinião?


Boas Práticas de Perda de Peso

A obesidade é um problema de saúde pública em toda a Europa. Em Portugal cerca de 3 milhões de adultos têm peso excessivo, incluindo cerca de 400.000 com obesidade e dentro destes cerca de 36.000 com obesidade mórbida. Entre as crianças e jovens um terço tem peso excessivo, incluindo obesidade. As causas são múltiplas e complexas, incluindo suscetibilidade genética, mas com forte influência de fatores decorrentes da atual sociedade “obesogénica”. As instâncias oficiais têm que travar uma luta em várias frentes contra esta epidemia, nas cidades, na escola, na comunicação social, na indústria agroalimentar, nas estruturas do Serviço Nacional de Saúde. O combate é contra a obesidade e não contra a pessoa com obesidade.

A exibição da obesidade severa, tal como no passado se fazia no circo ou nas feiras, faz das pessoas em causa vítimas do espetáculo e acentua o estigma que a sua aptidão física determina e que deve ser combatido. As experiências de estigmatização e discriminação diminuem comprovadamente o bem‐estar psicológico dos visados mas também a sua capacidade de adotarem e manterem comportamentos conducentes a um peso mais saudável. A ética biomédica determina que, a par da promoção do bem estar e da não‐discriminação, o respeito pela pessoa e pela sua autonomia é um princípio orientador primordial das práticas profissionais na área da Saúde.

O dispêndio energético pelo exercício físico é um importante coadjuvante para a perda de peso, mas o doseamento individual tem de garantir um acesso fácil, suportável e sustentável, com condições de segurança, sendo que na obesidade mórbida esta necessidade é muito importante. São desaconselhadas práticas predominantemente baseadas na intensidade do esforço e na procura da superação, nomeadamente em pessoas com fragilidades musculares e articulares. Procedimentos de natureza espetacular que mais se assemelham a praxes podem não ser consentâneos com práticas seguras, podem comprometer a aquisição de importantes recursos de autorregulação individual, incluindo a automotivação, e podem limitar o desenvolvimento do prazer associado à prática de atividade física no futuro.

A maioria das pessoas com obesidade tenta perder peso enquanto continua a sua vida quotidiana. A modificação das práticas alimentares e a restrição energética deve ter em conta esta situação e ser organizada por especialistas para se diminuir de uma forma sustentada a ingestão de energia. A terapia alimentar deve ser pensada a longo prazo e nunca com duração inferior a seis meses, com a implementação obrigatória de um programa de manutenção posterior. Os objetivos de perda de peso devem ser realistas. Nos primeiros seis meses, a redução de peso deve ter como objetivos a perda de 500g a 1 kg por semana.

É sabido que a obesidade grave pode estar associada a dificuldades psicossociais, tanto nas suas causas como nas suas consequências. A exposição individual do sofrimento psicológico não significa ultrapassar esse sofrimento, nem é o mesmo que a sua compreensão, quer pelo próprio quer pelos outros. A vivência emocional atual dessas problemáticas, sem a adequada contenção psicológica por um profissional de saúde mental, pode conduzir a perturbações anteriormente não sentidas. Essa exposição pode acentuar, mais tarde, e fora de certos ambientes aparentemente mais protetores, ainda que não o sendo na realidade, sentimentos de embaraço e de perda de autoestima e cimentar a ideia de que a pessoa com obesidade é portadora de problemas emocionais e comportamentais difíceis e descontrolados. Contra esta ideia se têm batido as associações de doentes e a comunidade científica.

Conselho Cientifico da Plataforma Contra a Obesidade


Documento em pdf



4 comentários:

  1. Olá, como é para opinar, vou opinar!
    Nem tanto ao mar nem tanto à terra... Não sou nenhuma entendida da matéria, mas 500g a 1Kg por semana numa pessoa obesa parece-me uma boa perda de peso para o caso do conselho dado ter sido "Não coma batatas fritas ao jantar", caso tenha sido feita uma boa avaliação e indicada uma dieta adaptada ao caso bem como um plano de exercícios que, ainda que não levando a pessoa ao limite da lesão, a faça saír um pouco da sua zona de conforto, as perdas vão sempre ser superiores e ainda bem...
    Desmotivante não é o esforço, é a falta de resultados, e para quem precisa, como alguns concorrentes do Peso Pesado e sabe-se lá quantas mais pessoas em Portugal, de perder 50 Kg ou mais, a um ritmo de meio kilo por semana, a pessoa de certeza vai desmotivar!
    Claro que para ter a intensidade do Peso Pesado, são necessárias as condições que no programa existem mas que cá fora, muito difilmente se conseguirão (acompanhamento especializado permanente), mas sem chegar a extremos, também não é necessário tratar uma pessoa com excesso de peso ou obesidade como sendo inválida porque, na maioria dos casos, não o é!
    Cumps :)

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  2. "A maioria das pessoas com obesidade tenta perder peso enquanto continua a sua vida quotidiana" Acho que esta frase resume tudo, tendo em conta que o resultado é a médio, longo prazo, para o resto da vida e não 6 meses! 1Kg por semana é pouco? são cerca de 52Kg por ano!(claro que as contas não são lineares). Obviamente que a pessoa portadora de obesidade não é inválida, mas a relação benifício/risco também tem de ser tida em conta!Se aparecem lesões e a pessoa fica impossibilitada de continuar a exercitar-se qual é o benifício? Apesar de haver um esforço por parte do programa em atenuar a verdade, o objectivo é principalmente orientado - com um primado extrínseco - para um prazo de 6 meses. As hipótesse a testar, para quem quer debater seriamente o assunto é testar a hipótesse de no longo prazo a % de "reganho" de peso ser menor/maior nos indivíduos que perderam peso mais rapidamente ou naqueles que perderam o mesmo mas em períodos de tempo mais alargados.

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  3. Não se sai do estado de obesidade com "falinhas mansas".
    Partindo com a atitude de "vou fazer isto mas não quero ser radical", não vão haver resultados. Os ginásios estão cheios de gente que está mais concentrada no programa de televisão que tem à frente do que no treino.
    Quanto à dieta, nem vale a pena dizer nada... este Blog diz tudo.
    Se me virem ao lanche, a sacar de um "tupperwere" com feijão verde cozido, ovo cozido, pescada cozida e azeite, acham-me doido e obsecado... ...já se ao lado passar um miúdo gordo a comer um bollicao e a beber sumol é naturalíssimo e adequado à refeição em causa (lanche).

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  4. "feijão verde cozido, ovo cozido, pescada cozida e azeite"

    Esta é a chamada Dieta Hospitalar, é mesmo muito boa, ahahaha;))

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