1 de julho de 2011

O número de refeições é o principal responsável pelo aumento do teor energético da dieta Americana


Pensa-se que o teor energético da dieta aumentou substancialmente nos últimos 30 anos e alguns estudos apontam para um valor perto das 500 kcal/dia. Este aumento poderá estar obviamente ligado ao fenómeno da obesidade crescente. Sabemos também que o decréscimo nos níveis de actividade física não explicam esta tendência. Se estamos a comer mais e pior, qual o motivo? Aumento das porções? Aumento da densidade energética? Segundo um estudo recente publicado há dias no PLoS Medicine, o aumento no número de refeições diárias poderá ter dado o maior contributo para o valor calórico acrescido da dieta actual.


Os EUA são um caso de estudo que reflecte parcialmente as tendências das sociedades modernas no que diz respeito aos padrões alimentares. Além disso, nos EUA todas as estatísticas são estudadas à exaustão e publicadas para escrutínio geral, o que não acontece tanto na Europa.

Quando falamos num aumento do valor energético da dieta, existem três possibilidades evidentes: um aumento no tamanho das porções de comida e bebida, uma maior densidade energética dos alimentos ingeridos, e um aumento na frequência das refeições. Todos estes componentes foram já estudados mas nunca antes analisados em conjunto, o que não deixa de me surpreender. Dufey e Popkin, investigadores da Universidade da Carolina do Norte, recorreram a 4 censos alimentares relativos aos períodos 1977-1978, 1989-1991, 1994-1996 e 2003-2006 para estudar as contribuições relativas da frequência das refeições, densidade energética e tamanho das porções no teor energético total da dieta em adultos, entre 1977 e 2006.

Os autores verificaram que o valor energético total médio diário aumentou de 1803 kcal em 1977-1978 para 2374 kcal em 2003-2006, um acréscimo de 570 kcal/dia. Olhando para as alterações em cada censo, Dufey e Popkin mostram que o aumento das porções foi responsável por um acréscimo de 15 kcal entre 1977-1976 e 1989-1991, enquanto que a alteração no número de refeições apenas explica um aumento de 4 kcal. Mas entre 1994-1998 e 2003-2006, o maior número de refeições foi responsável por mais 39 kcal, enquanto que o tamanho das porções apenas 1 kcal. Notavelmente, das 570 kcal/dia acrescidas nos últimos 30 anos, 229 kcal foram numa década apenas, entre 1994-1998 e 2003-2006.

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Estes resultados mostram que o contributo mais relevante para o aumento do consumo energético nos EUA foi o maior número de refeições diárias (22 kcal/dia/ano), embora o aumento das porções tenha tido um impacto global significativo (10 kcal/dia/ano). Mas convém notar que entre 1994-1998 e 2003-2006, o tamanho das porções diminuiu, tal como a densidade energética dos alimentos. Na verdade, a densidade energética tem vindo a decrescer, talvez por uma tendência de redução no consumo de gordura. O número médio de refeições aumentou de 3.8/dia em 1977-1978 para 4.9/dia em 2003-2006.

A equipa evidencia também que o tamanho das porções das bebidas aumentou mais do que dos alimentos, mas os últimos contribuem muito mais para o intake energético total. É provável que a aderência às soft-drinks dietéticas explique este fenómeno.

Se aceitarmos a teoria prevalente de que o fenómeno da obesidade é causado pelo maior consumo energético e que a actividade física não se modificou significativamente nas últimas três décadas, então não será abusivo dizer que o maior número de refeições diárias é o grande responsável por essa epidemia.

Mas afinal não é o que nos mandam fazer? Não devemos comer várias vezes ao dia, de 2 em 2 horas ou de 3 em 3? Se calhar não é tão boa ideia manter um estado pós-prandial quase que permanente ao longo do dia. Há algum tempo que o defendo e estes resultados apontam nesse sentido, apesar das limitações inerentes à natureza epidemiológica do estudo. É apenas um desabafo meu para além do âmbito deste trabalho. Também já fui uma marioneta do sistema e acreditava na clarividência dos responsáveis oficiais pela nossa saúde. Mas quando mergulhei a fundo nas evidências científicas, quando comecei a usar o cérebro, tudo se tornou mais claro.






Duffey KJ, Popkin BM (2011). Energy Density, Portion Size, and Eating Occasions: Contributions to Increased Energy Intake in the United States, 1977-2006. PLoS Med. 8(6): e1001050.
Number Of Daily Meals And Snacks Contributes Most To Increase In Kilocalories Consumed By US Adults

6 comentários:

  1. É por estas e por outras que eu sou viciada neste blog (e volto a dar os parabéns ao autor pela qualidade e base científica apresentadas em tudo quanto escreve).
    Desde que por aqui "ando", houve imensas coisas em que eu acreditava sem questionar que foram desmistificadas, esta é mais uma delas... A "ameaça" das gorduras e a utlização dos produtos light são outros exemplos...
    E depois uma pessoa questiona-se porque passa a vida inteira a fazer dietas e nunca tem uma solução definitiva apesar de ter muitas temporárias!
    Obrigada por ir abrindo os olhos àquilo que para muitos de nós vai passando despercebido ou ficando deliberadamente escondido!

    Cumprimentos

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  2. Não é na ingestão de multiplas refeições diárias que reside o problema,mas sim no indice glicémico ou calórico de cada uma.
    É tão simples como isso.

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  3. @Child of The 90's Mto obrigado!

    @pedrinho Trata-se de um estudo epidemiológico e muito se pode especular dele, mas poucas conclusões concretas. A única coisa que podemos dizer é que nos últimos 30 anos, o aumento no número de refeições diárias foi o principal responsável pelo maior teor energético da dieta. Mas não menos importante é o facto da densidade energética ter um papel negativo, o que alias está de acordo com uma tendência decrescente no consumo de gorduras e não o aumento que é geralmente percepcionado pelo público em geral.

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  4. Os nutricionistas dizem exactamente o contrário, sistematicamente insistem na ideia de se comer continuamente. http://bit.ly/kVAjXK

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  5. Há já 40 anos,que um grande mestre de culturismo com quem eu tive a sorte conviver e treinar dizia que para engordar,uma das melhores maneiras era comer só uma vez ao dia.
    Coisa de antigos,ou talvez não.

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  6. Pensando em termos de evolução,nossos antepassados não faziam multiplas refeicoes por dia,e a raça humana evoluiu com este habito alimentar de poucas refeicoes(nosso organismo assim evoluiu),pensando assim o habito de varias refeicoes seria uma modificaçao desta dieta

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