8 de julho de 2011

O seu cocktail matinal de drogas e hormonas


Uma equipa espanhola e marroquina desenvolveu um método de cromatografia gasosa que permite quantificar uma série de drogas e hormonas presentes no leite. O leite de vaca é onde se encontram maiores concentrações destes compostos, que vão desde anti-inflamatórios, analgésicos e antibióticos administrados ao gado. Apesar de se tratarem de resultados extraídos de uma amostra pequena, não generalizáveis portanto, fique ciente do bónus que pode obter desse copo de leite matinal. Se não é bom para a saúde, ao menos parece sê-lo para as dores.


Nota: Verifiquei que este artigo casou algum furor, muito dele exagerado. Para além de se tratar de uma amostra pequena e restrita a uma região espanhola, os níveis detectados não podem ser considerados perigosos para o Homem. Não é surpresa para ninguém que estes xenobióticos fazem parte da nossa cadeia alimentar. As próprias autoridades de saúde estão conscientes disso e estabelecem limites de segurança com margens confortáveis. De qualquer forma, gostava que fosse possível consumir alimentos sem estes químicos. E o que mais me intriga nem são as hormonas e antibióticos (apesar do seu uso indiscriminado estar a favorecer as multi-resistentes). Estes já todos sabemos que são usados na produção em massa. A variedade de anti-inflamatórios é que me deixa mais apreensivo.


Beatriz Jurado-Sánchez, Evaristo Ballesteros, Mercedes Gallego. Gas Chromatographic Determination ofN-Nitrosamines, Aromatic Amines, and Melamine in Milk and Dairy Products Using an Automatic Solid-Phase Extraction System. Journal of Agricultural and Food Chemistry, 2011


New Method Used to Detect 20 Drugs in Cow, Goat and Human Milk


It's not all white: The cocktail of up to 20 chemicals in a glass of milk


10 comentários:

  1. Como se diz aqui no Brasil, "tá tudo dominado" - até o leite materno! - quer dizer... culpar o leite de vaca não parece muito justo... até porque, os índices são praticamente desprezíveis (The hormone was detected at three millionths of a gram in every kilogram of milk, while the highest dose of niflumic acid was less than one millionth of a gram per kilogram of milk.) e as amostras vindas de uma mesma área geográfica, o que não dá para generalizar. A reportagem também não esclarece se as amostras eram de leite pasteurizado - embora possamos dizer que sim, exceto o leite materno, claro.

    De qualquer forma, aparentemente a pasteurização elimina ou reduz a maior parte desses químicos - ao menos é o que afirma este médico: "Pasteurization, though much criticized in the natural health community, occurs between 63C for 30 min., or 72C for 16 seconds or 138C for 2 seconds. Temperature and time enough at temperature to denature hormones. (...) As to the antibiotics, not much survives pasteurization and cooking either." http://www.totalityofbeing​.com/FramelessPages/Articl​es/anti_milk_meat.html

    Você tem alguma informação sobre isso?

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  2. Obrigado pelo comentário.

    Tem toda a razão em relação ao facto de este problema não ser exclusivo do leite de vaca. Todo o leite é um óptimo veículo para este tipo de substâncias, incluindo o materno. Mas de qualquer forma, os referidos xenobióticos não deveriam estar presentes em alimentos de consumo massivo como o leite de vaca, independentemente das quantidades. Mas a minha inteção não é alarmar ninguém. Na verdade, quem é que já não sabia que anda a consumir estas substâncias inconscientemente? O leite é só uma das várias fontes.

    Quanto à outra questão que coloca, neste estudo em particular apenas foram detectados em leite que, segundo os autores, foi "comprado no mercado local", integro e magro. Também testaram raw milk e curiosamente não encontraram nada.

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  3. Obrigada, Sérgio!
    Certamente já se foi o tempo em que o que se comia podia ser considerado livre desse tipo de contaminação... =(

    Achei muito interessante e instigante a ausência dos xenobióticos no leite cru! Possivelmentede proveniente de animais criados fora do processo industrial...(?) Alguma explicação/hipótese para esse "fenômeno"?

    Tenho lido que o processo digestivo dos ruminantes tem uma capacidade incrível de "limpar" seu leite e mesmo sua carne de substâncias indesejáveis, nisso incluindo o excesso de poliinsaturados provenientes de uma dieta antinatural à base de grãos. O mesmo não ocorreria com animais não-ruminantes, como porcos e aves, cujos produtos refletiriam muito mais diretamente o tipo de alimentação a que são submetidos. Não consegui checar se isso reflete a realidade, mas talvez possa esclarecer muita coisa ainda indecifrável!

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  5. É bem possível Angela. Os autores referem que as amostras de raw milk foram obtidas de "local farmers". Depreendo que sejam pequenos produtores espanhóis que recorrem a métodos "mais tradicionais", ou pelo menos não tão intensivos.

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  6. Nao sei o estado da producao de leite nao pasteurizado na Europa, mas nos EUA todo o leite que consumo e' "raw", "organic" e "grass-fed" (o que tambem implica free-range), para alem de relativamente local. Alias, outra coisa nao faria sentido. Ja nao tenho palavras para descrever a diferenca entre este leite e o industrial convencional (grain-fed, antibioticos, pasteurizadoe possivelmente homogeneizado). O mesmo se aplica aos dois tipos de carne. A titulo de curiosidade, hoje em dia ja' e' possivel comprar carne grass-fed (e/ou organic) em Portugal? Leite tenho a certeza que nao, ate' poque nao acho que a populacao iria ter coragem para o beber. Afinal de contas, esta' carregadinho de germes...

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  7. Isso é uma boa questão e tanto quanto sei, as únicas denominação que existem cá são "Biológico" e criado em regime extensivo. Qualquer conclusão relativa à forma como são alimentados é pura adivinhação.

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  8. Nunca tinha lido a expressao regime extensivo :) Espero que Portugal comece a acordar rapidamente para estas questoes e que a producao de carne e ovos caminhe na direcao de regime extensivo e biologico. O mesmo para o leite e derivados, e que a nao pasteurizacao comece a pelo menos estar disponivel aqui e ali.

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  9. Caro Sérgio,

    o artigo científico não está preocupado com as possíveis contaminações do leite.
    Eles estavam, apenas, a testar um método analítico, que aplicaram ao leite.

    «A reliable analytical method was presented for the simultaneous determination of six N-nitrosamines, nine aromatic amines, and melamine in milk and dairy products using gas chromatography coupled with mass spectrometry.»

    Como cientista, devia ter filtrado o sensacionalismo dos jornalistas.
    É evidente que pegar naquele artigo, para escrever sobre contaminações no leite, é abusar do objectivo dos cientistas, pois não foi para isso que eles o publicaram.
    Aliás, tanto que assim é que a amostra é local e pequena.
    Claro!
    Eles só queria testar o método!
    Logo, para quê recolher amostras, em larga escala, em locais diferentes?!

    Já agora, porque razão usa tantos termos ingleses naquilo que escreve?!
    Por exemplo: Raw milk - leite crú.

    Cumprimentos,
    Pedro Alves - Eng. Alimentar

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  10. Olá Pedro,

    Sim... Eu sei que este estudo em particular visou apenas validar um método de análise. No entanto, a contaminação do leite, e de outros alimentos com menor ou menor relevância, com estes compostos é conhecida. Eu não disse que eles deviam ter usado uma amostra maior e representativa, mas apenas que os resultados não são generalizáveis devido à natureza da amostra.

    Em relação aos termos em inglês que uso, tem muito a ver com o facto de ter estudado em inglês. Saiem naturalmente, mas é um aspecto que tenho de melhorar.

    Cumprimentos

    Sérgio

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