6 de julho de 2011

A redução no consumo de sal para prevenção das doenças cardiovasculares (uma Cochrane Review)


Um dos momentos mais polémicos na curta existência deste blogue foi certamente quando comentei um artigo que comete sacrilégio. E pecou porque sugeriu que o menor consumo de sal poderia favorecer a resistência à insulina. Se há coisa que ninguém dúvida é que o sal faz mal e deve ser reduzido. O consumo elevado de sal nas sociedades modernas, que ronda as 10 g/dia, é uma das principais causas da elevada incidência de hipertensão. É lógico pensar que ao reduzirmos o sal da dieta vamos atenuar o risco de doenças cardiovasculares e morte. Mas uma Cochrane Review acabadinha de sair desafia esta relação. Taylor verificou que, embora a redução no consumo de sal tenha um impacto marginal da tensão arterial, não tem influência na mortalidade. Na verdade, poderá até aumenta-la em pacientes com insuficiência cardíaca.


Já tive oportunidade de apresentar a Cochrane Collaboration e salientar o seu contributo para o conhecimento científico. A equipa de Taylor utilizou métodos estatísticos padronizados e rigorosos para analisar todos os estudos publicados até 2008 que obedecem aos seguintes critérios: 1) aleatórios, com acompanhamento mínimo de 6 meses, 2) a intervenção centrava-se na redução do consumo de sal, 3) a amostra era adulta, e 4) estavam disponíveis os dados da mortalidade e morbilidade cardiovasculares.

Os resultados principais foram os seguintes:

Seven studies (including 6,489 participants) met the inclusion criteria - three in normotensives (n=3518), two in hypertensives (n=758), one in a mixed population of normo- and hypertensives (n=1981) and one in heart failure (n=232) with end of trial followup of seven to 36 months and longest observational follow up (after trial end) to 12.7 yrs. Relative risks for all cause mortality in normotensives (end of trial RR 0.67, 95% CI: 0.40 to 1.12, 60 deaths; longest follow up RR 0.90, 95% CI: 0.58 to 1.40, 79 deaths) and hypertensives (end of trial RR 0.97, 95% CI: 0.83 to 1.13, 513 deaths; longest follow up RR 0.96, 95% CI; 0.83 to 1.11, 565 deaths) showed strong evidence of any effect of salt reduction. Cardiovascular morbidity in people with normal blood pressure (longest follow-up RR 0.71, 95% CI: 0.42 to 1.20, 200 events) or raised blood pressure at baseline (end of trial RR 0.84, 95% CI: 0.57 to 1.23, 93 events) also showed no strong evidence of benefit. Salt restriction increased the risk of all-cause death in those with congestive heart failure (end of trial relative risk: 2.59, 95% 1.04 to 6.44, 21 deaths). We found no information on participants health-related quality of life.

A revisão identificou sete ensaios controlados que obedecem aos critérios de inclusão. Verificou-se que não existem evidencias de que a restrição do sal reduza a mortalidade em normotensos ou hipertensos. Na verdade, um dos ensaios mostra até um aumento no risco de morte por qualquer causa (risco relativo: 2.59, 95% 1.04 a 6.44) em pacientes com insuficiência cardíaca submetidos a uma intervenção no sentido de reduzir o consumo de sal.

Os autores concluem que “embora coleccionando mais eventos [mortes] do que revisões sistemáticas anteriores, fomos incapazes de demonstrar um efeito estimado robusto da redução no sal dietético na mortalidade e morbilidade cardiovasculares em normotensos e hipertensos”.

Embora as conclusões do estudo sejam claras, mas limitadas por critérios estatísticos muito rigorosos, os autores defendem-se dizendo que “os nossos resultados são consistentes com a crença de que a redução no consumo de sal é benéfica em normotensos e hipertensos”. Esta é ciência que temos e crença é a palavra mais adequada para descrever as ideias pré-concebidas que carecem suporte factual.

Não quero dizer que esta revisão seja o golpe fatal num dos dogmas mais enraizados na medicina moderna. Poderíamos até fazer algumas críticas aos critérios de selecção ou ao reduzido número de eventos incluídos na análise. Elas já surgiram de diversas frentes. Mas as Cochrane Reviews são assim mesmo: criteriosas e independentes. A estatística pura não olha a ideias pré-concebidas e cabe-nos a nós interpretá-la. Infelizmente a ciência está tão espartilhada que o próprio autor renega e menoriza resultados que, inesperadamente, fogem ao paradigma tradicional. Aqui fica o artigo para os interessados.

Eu adoro polémicas e vou fomentá-las sempre que possível! Obrigam-nos a usar o cérebro...




2 comentários:

  1. It's Time to End the War on Salt http://www.scientificamerican.com/article.cfm?id=its-time-to-end-the-war-on-salt

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  2. Olá sr. Sérgio. Pelo que li parece ser benéfico a ingestão de sal. Não só por este artigo mas também pelo outro sobre a insulina. Mas eu não consigo meter sal na comida... Mas mesmo assim como muita carne, ovos e peixe. Será o sal contido nestes alimentos suficientes para não "sofrer" de baixa ingestão de sal?
    Ps: Quando me refiro a sal, quero dizer sódio.

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