8 de agosto de 2011

A maldição do número 4 e o efeito Baskerville


O que provoca as doenças cardiovasculares? Que factores poderão estar implicados no desencadear de um enfarte? A resposta para a primeira pergunta tem sido dada vezes sem conta: factores de risco, especialmente a dieta e tabagismo. Mas por mais que o repitam, não me convencem totalmente. A segunda questão já não é tão consensual e está ligada intimamente ligada à primeira. E se o número 4 pudesse causar um enfarte?


Na obra de Conan Doyle “The Hound of the Baskervilles”, Sir Charles Baskerville morre de enfarte devido a um evento stressante: o medo do fantasma. Para além de escritor, Doyle era também médico e levanta aqui uma hipótese não muito explorada e longe de respondida: pode o stress matar?



Em 2001, um grupo de autores encabeçado por David Philips publicou no British Medical Journal um pequeno estudo sobre a relação do stress com a mortalidade coronária. Uma maneira elegante de o fazer é recorrer a efeitos psicológicos no mundo real que afectem negativamente um grupo étnico específico. Os Chineses e Japoneses são supersticiosos em relação ao número 4 e é possível que o stress que lhes induz esteja relacionado com uma maior mortalidade coronária. O parágrafo seguinte é uma citação do artigo de Philips que explica a hipótese e os fundamentos em que assenta.

Nós abordámos o problema pela identificação de um fenómeno cultural com associações negativas para um grupo (Chineses e Japoneses) e associações neutras para outro (Americanos e Europeus brancos). Em Mandarin, Cantonês e Japonês, as palavras “morte” e “4” são pronunciadas de forma muito semelhante. A observação extensiva dos participantes por três dos nossos autores indica que o número 4 evoca desconforto e apreensão em alguns Japoneses e Chineses. Consequentemente, alguns hospitais na China e Japão não listam o 4º andar ou o quarto número 4. A foça aérea Chinesa omite o número 4 na designação dos aviões militares - uma omissão que deriva da ligação entre “4” e a morte. Alguns Japoneses evitam viajar no 4º dia do mês, e alguns pacientes Chineses mostram-se apreensivos em relação a esta data. A aversão ao número 4 é também evidenciada nos restaurantes que evitam este número. Se o número 4 traz stress supersticioso a alguns Chineses e Japoneses, e se a intuição médica de Conan Doyle estava correcta, a mortalidade cardíaca neste grupo deve ter um pico ao 4º dia de cada mês.

E foi precisamente isso que encontraram: um aumento significativo de mortalidade cardíaca ao 4º dia de cada mês, algo que não acontece nos Caucasianos da mesma cidade/estado (Califórnia):



Não é a primeira vez que me foco no stress como potenciador de doenças crónicas, em particular do foro cardíaco. Temos o mistério de Roseto e o paradoxo Japonês. Parece óbvio que o stress, o crónico típico das sociedades modernas Ocidentais, explica em muito a decadência da saúde humana. Não se trata apenas da dieta nem dos vícios. O estudo de Philips mostra também que o stress pode aumentar a probabilidade de ocorrência de um evento mortal.

Mas esta é uma hipótese tão desinteressante... O que podemos nós fazer quanto a isso? As implicações de assumir este tipo de stress como o factor de risco número um eram imensas. Toda uma estrutura social desmoronava como um castelo de cartas. O stress crónico faz parte das nossas vidas: problemas financeiros, pressão no trabalho, horas no transito, horários nocturnos, falta de suporte social, entre tantos outros. Basicamente são factores crónicos que definem a nossa sociedade.

Um problema com o stress, no sentido técnico e não popular, é que não pode ser medido e expresso em unidades. Isto é um problema para a ciência. Como podemos estudar uma variável que não é quantificável com precisão? Se não pode ser medida, então deve ser irrelevante. Coisas da mente... Não me parece. Acredito que o stress desempenha um papel central na decadência da saúde humana. O que fazer? Não tenho a mínima ideia...

É bem mais simples (e lucrativo) centrar as atenções nos aspectos modificáveis da vida, aqueles que podemos controlar. Pôr a culpa da doença nos comportamentos do próprio, sem questionar a perfeição do modelo social Ocidental. Escolhemos o que comemos, decidimos se fumamos ou bebemos. Mas o contexto socioeconómico não é uma escolha nossa. Aceitamos ou somos rejeitados.

É comum argumentar recorrendo a populações indígenas, ainda não tocadas pelo imperialismo Ocidental. Uma coisa parecem ter em comum, seja qual for a sua origem: são mais saudáveis que nós e livres de muitas das doenças crónicas que nos afligem. Os Inuit comem apenas peixe e focas, os Kitava muita fruta e hidratos de carbono no geral, os Masai sangue e leite. Todos são saudáveis com dietas tão diferentes. Consegue ver o que têm em comum? A dieta não é certamente.

Acredito que se está a dar importância em demasia a factores secundários, culpados por associação e não mais do que isso. O colesterol é um bom exemplo (se for um homem jovem caso contrário nem se aplica). Pode ser controlado por vontade própria e quando isso falha temos as drogas. Um dos negócios mais lucrativos do século. Mas e o stress? Podemos criar uma pílula contra o número 4?

Philips D, Liu G, et al. (2001). "The Hound of the Baskervilles effect: natural experiment on the influence of psychological stress on timing of death". BMJ. 323:1443.




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