20 de agosto de 2011

O colesterol na silly season: "voltamos de férias mais doentes"


Assisti recentemente, por recomendação do meu colega ex-Canibal e Rei, a uma rubrica do programa da RTP “Bom Dia Portugal” [1], serviço público de excelência e ficção de primeira. Uma nutricionista foi convidada para explicar um fenómeno do entroncamento: parece que o colesterol dos Portugueses aumenta no Verão. Somos de facto pessoas muito peculiares...


Digo isto porque os estudos indicam-nos que a colesteremia aumenta no Inverno. A variação sazonal é um fenómeno bem descrito na literatura médica que passo a ilustrar com alguns exemplos.

O Dr. David Gordon estudou a variação sazonal do colesterol no sangue em 1446 homens que participavam como controlos no Lipid Research Clinics Coronary Prevention Trial (LR-CCPT) [2]. Os resultados foram publicados em 1987 na revista Circulation, uma das mais conceituadas entre os cardiologistas. Ora vejamos...

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Ao que parece, o pico, zénite, é atingido em Dezembro-Janeiro. Os resultados foram muito consistentes entre os 12 centros de investigação que colaboraram no LR-CCPT.

Em 2004, Ira Ockene publicou no Archives of Internal Medicine os resultados do SEASONS [3], um grande estudo com residentes em Massachusetts. Compare os seguintes gráficos com o anterior:

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Foi encontrado exactamente o mesmo padrão. A colesteremia parece aumentar nos meses frios. Mas no trabalho de Ockene podemos ver que essa tendência se verifica para vários parâmetros da lipidémia, nomeadamente o colesterol total, LDL-C, HDL-C e triglicéridos.

Antes de fazer uma breve discussão destes resultados, cito também um trabalho iraniano de 2006 [4] que, para grande surpresa, encontrou exactamente a mesma variação sazonal na colesteremia, desta vez mais acentuada nos homens. A prevalência de hipercolesteremia nos homens foi 26.2% mais elevada no Inverno do que no Verão. Da mesma forma, o LDL-C, esse sacana, foi 26.7% e 24.9% mais elevado no Inverno para os homens e mulheres respectivamente.

Temos aqui 3 estudos a dizerem-nos uma coisa, e uma nutricionista a dizer-nos outra de boca, sem citar qualquer fonte. Como não acredito que nós Portugueses sejamos anormais, gostaria de ver o estudo ou então vou acreditar que se tratou de um “lapso”. Era bom que fosse verdade não era? No Verão relaxamos a dieta, cedemos às jantaradas e mariscadas, e o colesterol dispara. O problema é que a dieta pouco tem a ver com o colesterol do sangue para a grande maioria das pessoas. Esse mito foi já desfeito há muito mas tudo é motivo para o ressuscitar como uma fénix das cinzas.

Gosto também da ideia de que “voltamos mais doentes de férias”. E se quer durar até às próximas, coma muitos esteróis vegetais e margarinas Becel, essas gorduras polinsaturadas que tão bem fazem às nossas artérias [5]. Vai ficar a saber o que penso delas muito em breve...

Mas já que falamos no assunto, podemos também tentar explicar a razão deste fenómeno sazonal ainda algo misterioso. Existem duas hipóteses válidas do meu conhecimento. A primeira é que a síntese de vitamina D no Verão aumenta o requerimento de colesterol [6]. Ele é o percursor da vitamina D no organismo, que o utilizará mais eficientemente com a radiação UV disponível no Verão. A segunda hipótese é bem menos romântica. Deve-se apenas ao aumento do volume do plasma no Verão, o que os doutores chamam de hipervolemia [3]. Este fenómeno dilui os componentes circulantes sem alterar a sua quantidade absoluta.

Portanto, ou me mostram a tal prova de que os Portugueses são anormais ou eu não acredito. E não acredito porque a relação dieta-colesterol é um gambozino da medicina moderna. Todos falam dela e a tentam provar, mas até agora nem vê-la (pelo menos de uma forma benéfica). Ah e... existem vários estudos publicados que provam o contrário. Um pormenor irrelevante quando se fala de nutrição...

E agora o vídeo...


Um agradecimento especial ao meu amigo canibal que me alerta para estas pérolas.




4 comentários:

  1. Esteroides vegetais... sim senhora!

    Uma nutricionista com excesso de peso devia ter vergonha na cara e ficar calada em vez de dizer estas bacuradas num canal de televisão.

    Eu diria que a maioria das pessoas volta mais saudável das férias; apanham mais sol, mais ar puro, uns banhos refrescantes no oceano e têm menos estresse.

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  2. Estas estórias do colesterol, que já duram há +50 anos, dão pano para mangas. As pessoas nem imaginam a dimensão da falsificação que a mesma constitui, toda ela propulsionada por uma indústria farmacêutica apostada em transformar o colesterol numa doença. A qual, naturalmente, só poderá ser corrigida através de medicamentos patenteados e caros, as famosas estatinas. Não vou aqui elencar a infindável lista de fracassos desta hipótese, porque excederia em espaço o que é razoável para um comentário. Apenas deixo uma dica, para futura exploração, a de que, para a maioria das pessoas, reduzir colesterol não altera a sua mortalidade, quando muito trocará o seu tipo de morte, de cardiovascular para cancro, e ainda por cima tendo de pagar para isso. Atenção que isto não significa que colesterol alto cause doenças cardiovasculares, porque os estudos donde extraíram essa conclusão errada são baseados em estatinas, medicamentos que influenciam inúmeros parâmetros de risco cardiovascular. Mas deles todos escolheram o colesterol, uma opção comercialmente muito conveniente.

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  3. No Verão as pessoas têm hipovolemia e não hipervolemia porque transpiram mais. Logo não bate certo esta hipótese...

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  4. Não é de facto o que foi descrito no artigo citado:http://www.ncbi.nlm.nih.gov/m/pubmed/1511137

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