29 de agosto de 2011

O efeito super-homem das vitaminas


Para quem não conhece, o Ben Goldacre é um escritor de popular science e colunista no jornal britânico The Guardian. É uma pessoa que admiro pela sua rectidão e exigência numa cultura impestada por ciência da carochinha. O seu livro "Bad Science" deveria fazer parte da biblioteca de qualquer céptico que não vai no "porque sim". Há poucos dias ele escreveu um artigo muito interessante sobre a tendência para comportamentos de risco em quem toma vitaminas e antioxidantes. “Como tomo antioxidantes então vou fumar mais este cigarro”. “Já tomei a vitamina C então vou comer esta bola de berlim”. De uma forma mais ou menos extremista, acho que muita gente se reconhece nestes comportamentos. “Como fui ao ginásio posso esticar-me na sobremesa”.


“Estudos revelam que as pessoas que pensam ter feito algo saudável, mesmo que não o tenham feito, fumam mais e acreditam que são invulneráveis às doenças”
“Investigadores recrutaram 74 estudantes fumadores e dividiram-nos em dois grupos aleatoriamente. Ao primeiro grupo foi dado um placebo e disseram-lhes o seguinte: “está no grupo controlo a tomar placebo”. Ao outro grupo foi dito que estavam a tomar um multivitamínico. Mas os cientistas mentiram. Todos os participantes tomaram um placebo, sem ingredientes activos. Metade pensou que estava a tomar um suplemento “saudável” porque a intenção era ver se os comportamentos mudavam com a percepção de estarem a fazer algo positivo para a sua saúde. 
Após tomarem os comprimidos, foi-lhes dado um inquérito para preencher. Os investigadores disseram: “Este inquérito vai levar cerca de uma hora a preencher. Pode fumar se quiser”.

No questionário estavam items da chamada “escala de invulnerabilidade em adolescentes” como “é improvável que eu venha a ter um acidente” ou “a doença a mim não me assiste”. Curiosamente ou não, aqueles que pensavam estar a tomar um multivitamínico marcaram mais pontos na escala. Achavam-se invulneráveis.

Mas mais interessantes (e preocupantes) foram os resultados dos comportamentos tabágicos, também monitorizados pela equipa de investigação. Alguém questiona que fumar não é saudável? Os jovens “enganados” fumaram 50% mais do que o grupo controlo.

Estes estudos foram alargados a uma amostra mais representativa mas os resultados mantiveram-se bastante consistentes. Quem pensava estar a tomar vitaminas julgava-se menos vulnerável, fazia menos exercício e tinha escolhas alimentares menos próprias.

Isto traz à memória uma revisão de Cochrane publicada o ano passado sobre o impacto dos antioxidantes e vitaminas (como suplemento) na mortalidade geral. As conclusões dos autores foram as seguintes:

“Não encontrámos evidências a favor dos suplementos antioxidantes para prevenção primária ou secundária. As vitaminas A, beta-caroteno e vitamina E podem aumentar a mortalidade. Estudos no futuro deveriam avaliar os efeitos da vitamina C e selénio. Estes ensaios deverão ser monitorizados minuciosamente para potenciais efeitos adversos. Os antioxidantes precisam de ser considerados produtos medicinais e alvo de avaliação antes de comercializados.”

Já alertei algumas vezes para os potenciais riscos do uso de antioxidantes (aqui e aqui), mesmo em doses consideradas modestas. Os estudos citados pelo Ben Goldacre acrescentam agora um componente de compensação de risco bastante importante e curioso. Se eu penso que se revela de forma generalizada? Não a este extremo mas quantas foram as vezes que ouvi a desculpa do ginásio para cometer um qualquer excesso. A consistência é o segredo do sucesso. Um comportamento positivo não anula um negativo. Uma ou outra escapadela à rotina pode até ser saudável, mas em plena consciência dos actos.

Wen-Bin Chiou1, Chin-Sheng Wan, Wen-Hsiung Wu, King-Teh Lee (2011). "A randomized experiment to examine unintended consequences of dietary supplement use among daily smokers: taking supplements reduces self-regulation of smoking". Addiction. Article first published online: 2 AUG 2011

3 comentários:

  1. Pois é... Vejo agora uma "nova utilidade" para o pedacinho de papel, que há anos encontrei e levo comigo na carteira :D ... Trata-se de um acordo que a minha filha mais velha (na altura com 6 anos e a começar a escrever), muito preocupada com assuntos relacionados à saúde, assinou com a irmã, 1 ano mais nova. Passo à transcrição:
    "joquolate de bolaga só coando pasar 10 dias e depos de comer a bolaga vou quomer a bolaga soldavel.
    Assinatora das doas
    Lua. Lore.
    Luana e Lorena todo os dias para ver a ci"

    Tradução "Se comer uma bolacha de chocolate, devo deixar que passem 10 dias antes de comer a segunda. Além disso, devo compensar este acto, com o consumo imediato de uma bolacha saudável.
    Assinam as duas e concordam em revisar o acordo diariamente (a ci = aqui)"!!!

    Devo salientar que, apesar de sempre transmitir a necessidade de termos cuidado com a nossa alimentação, tais "ensinamentos" não vieram de mim. É interessante notar a tendência que faz lembrar aquela evidenciada neste artigo (ainda que em sentido oposto), em tão tenra idade : "Não há problema em consumir uma bolacha de chocolate, desde que compense com uma bolacha saudável (seja lá o que isso for)!!!"
    ... :)

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  2. Excelente exemplo. Acho que os comportamentos compensatórios fazem parte de nós mas raramente são benéficos.

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