25 de setembro de 2011

Estaremos perante uma revolução na forma como olhamos para os alimentos?


“Nós somos aquilo que comemos”. É uma afirmação questionável mas em que, de uma forma ou de outra, quase todos acreditam (eu incluído). Mesmo assim, existe um último bastião que garante a nossa singularidade e independência: a herança genética. Mas e se os alimentos que ingerimos pudessem controlar os nossos genes? Pelo menos o arroz parece capaz de o fazer.


Eu tento acompanhar de perto os desenvolvimentos científicos que desenrolam a um ritmo alucinante. Já vi muitas coisas bizarras e “assustadoras”, mas poucas como esta. Uma equipa de investigadores chineses afirma ter descoberto um mecanismo através do qual o arroz modela a expressão genética em mamíferos.

Não há muito tempo foi descoberto que as células, humanas incluídas, libertam vesículas com pequenos segmentos de RNA no seu interior, os microRNA (ou miRNA). Estas sequências nucleotídicas interferem com a transcrição e tradução do material genético noutros tecidos, servindo como uma espécie de comunicador inter-celular. Na complexidade do organismo humano, um mecanismo tão rebuscado não deixa de fazer sentido se não ultrapassar a barreira do indivíduo.

Mais estranhas são as observações recentes de que miRNA de arroz sobrevivem ao processamento culinário e ambiente hostil do tracto gastrointestinal de ratos, mamíferos tal como nós e cuja fisiologia não difere assim tanto. Mais estranho ainda é que estas sequências sejam captadas intactas e libertadas em microvesículas para a circulação.

Quando os animais foram alimentados com arroz, verificou-se a presença de miRNA exógenos que interferem com a expressão de um gene no fígado, o LDLRAP1. Este gene expressa uma proteína adaptadora do receptor de LDL e a sua deficiência compromete a remoção do LDL do sangue, resultado num aumento acentuado dos seus níveis circulantes. De facto, verificou-se que o arroz causava um aumento da LDL em ratos tanto a nível agudo (até 6h após a refeição) como crónico.

Se esta observação for reprodutível, poderemos estar perante um novo nutriente. Isso mesmo. Um composto funcional que pode ter contribuído para a evolução da nossa espécie, para bem ou para mal. Isso é ainda cedo para dizer. Mas é interessante que a descoberta tenha sido feita com um cereal, alimentos recentes na história evolutiva Humana e tão controversos na actualidade. E mais ainda quando o endpoint foi as LDL, esses "assassinos silenciosos" que aterrorizam as pessoas.

Que eu saiba esta é a primeira evidência de um cruzamento à barreira entre Reinos. Mas é preciso refrear o entusiasmo porque trabalhos fraudulentos são muitos. Esperemos para ver como estes resultados serão reproduzidos por outras equipas. E quem sabe com que outros alimentos poderá haver esta interacção... Acho uma descoberta fascinante e que abre portas para uma abordagem totalmente nova da nutrição evolutiva. E um pouco assustadora devo confessar...

Lin Zhang, Dongxia Hou, et al. (2011). "Exogenous plant MIR168a specifically targets mammalian LDLRAP1: evidence of cross-kingdom regulation by microRNA". Cell Research. doi: 10.1038/cr.2011.158

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