9 de setembro de 2011

Nutricionismo e redução ao absurdo


As gorduras saturadas e o colesterol são cruéis assassinos, mas as gorduras insaturadas protegem a nossa saúde desses vilões. Os açúcares são maus mas os hidratos de carbono complexos são “do best” mesmo quando todos eles acabam da mesma forma. A isto se chama “nutricionismo”, uma corrente que reduz o alimento aos seus componentes moleculares básicos. Eu não tenho nada contra e estou sempre a fazê-lo, por vezes inconscientemente. Mas já pensaram no absurdo a que isto nos leva muitas vezes? Ora vejamos...

Como exemplo escolhi um belo e suculento bife de vaca grelhado, essa carne vermelha que provoca cancro, obesidade, doenças cardíacas e recentemente deu origem à maior crise financeira dos últimos 80 anos. Para comparação vou utilizar um alimento central da alimentação humana. Qual é coisa qual é ela que, por dose, fornece 8.3g de proteína, 12.5g de açúcares simples e 4g de gordura? Não... não é um pastel de nata. É o leitinho pois claro. Mais concretamente o leite UHT meio-gordo (de acordo com a tabela do INSA).

A seguinte tabela apresenta o valor macronutricional de ambos os alimentos para uma porção de 100g de bife e 100ml de leite.



Mas claro que isto não é uma comparação justa. O leite tem muito mais água e, portanto, uma menor densidade energética. Teremos de comparar porções isocalóricas. Se fixarmos o valor energético nas 250 kcal, ficamos com 150g de bife de vaca (uma porção média) e meio-litro de leite (2 copos).



Como podemos ver, a carne tem significativamente mais proteína e ligeiramente mais gordura do que o leite meio-gordo (se considerar-mos o leite gordo a relação inverte-se). Se quisermos dar férias aos neurónios, podemos também dizer que ao comer um bife a probabilidade vir a ter um enfarte é 300% superior porque o teor em colesterol é 3 vezes maior! Obviamente que isto é ridículo. Mais uma vez: o colesterol nos alimentos não influência significativamente os valores circulantes e, mesmo que o fizesse, uma colesteremia elevada não tem uma relação causa-efeito com a aterosclerose.

Mas mais interessante é ainda a gordura. Todos sabemos que as gorduras saturadas são más e as insaturadas são boas não é? (NOT!). Portanto, se considerarmos o teor lipídico apenas, podemos dizer que 42% do bife nos quer matar e 49% nos vai salvar a vida (a soma não dá 100% mas os dados estão de acordo com a tabela do Instituto Nacional de Saúde. Não coloquei os trans e outros elementos para “descomplicar”). Portanto, metade do bife provoca um enfarte e a outra metade protege-nos dele. Quanto ao leite, o cenário é ainda mais negro.

Quando se fala em carne vermelha as pessoas pensam geralmente numa grande quantidade de gordura saturada. Não é o caso. A percentagem de gordura insaturada é até superior! E dentro da monoinsaturada a grande maioria é ácido óleico. O bife está cheio de azeite! Não é uma boa notícia?

Este artigo pode parecer um bocado parvo mas o que pretendo ilustrar é a estupidez reducionista do nutricionismo, essa ciência que decompõe os alimentos nos seus elementos mais básicos e tenta dai chegar à super-dieta que nos trará uma vida longa e penosa. Nós não comemos nutrientes... comemos alimentos. Ao querer simplificar por demasia caímos em armadilhas como estas. Já é altura de olharmos para a matriz completa em vez de nos limitar-mos à batalha fútil dos nutrientes. Uma lição que eu Às vezes também esqueço... confesso :)


8 comentários:

  1. Lindo! Realmente uma pessoa olha sempre para as tabelas por peso, nem se apercebe destes "pequenos pormenores"!

    (Ah, e não acho nada parvo! Adorei o "tom" do artigo!)

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  2. concordo ... o nutricionismo não é uma dor de cabeça . . . é antes um problema psiquiátrico ... no entanto, as experiências práticas "sofridas" de cada um ...poderão oferecer perspetivas a analisar ... é perguntar-se a quem teve um enfarte cardíaco ... talvez fosse mais interessante viver ... e se houvesse tempo estudar as ideias e experiências de extensão da vida ... em boas condições

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  3. Se a sugestão te interessar um dia podias escrever um artigo sobre a carne vermelha ou sobre carnes.

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  4. Olá Tiago,

    Obrigado pela sugestão. Existem já alguns como este sobre o cancro http://www.fat-new-world.com/2011/06/carne-e-o-risco-de-cancro-colo-rectal.html

    Cumprimentos

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  5. O estado totalmente decrépito em que se encontram as ciências da nutrição em Portugal é evidenciado pelos premiados deste Nutrition Awards 2011, em que, por exemplo, uma ARS do Norte recebe o prémio na categoria de saúde pública com o seu Programa [low-fat] PASSE. Esta ideologia do nutricionismo [1-6], que fracassou sempre, principalmente no seu mais importante estudo, o WHI Study, o qual só custou 415 milhões de dólares, não tem qualquer credibilidade ou validade. Isto porque despreza todo o paradigma evolucionário, a biologia humana, os mecanismos bioquímicos, os modelos de doença, etc. Continuando a ignorar os paradigmas mais elementares, nunca mais sai da cepa torta em que se encontra atolada há décadas.

    [1] Scrinis G. On the Ideology of Nutritionism. Gastronomica, Vol.8, No.1, February, 2008, pp.39-48. http://bit.ly/bI8o6x
    [2] Pollan M. Nutritionism defined & Nutritionism comes to market. in In Defense of Food. Chapters 2 & 3. Penguin Press HC, 1st Ed. 2008.
    [3] Pollan M. Unhappy Meals. The New York Times. 2007. http://bit.ly/r0AyLL
    [4] Schwenkler J. Nutrition and Tradition. The New Atlantis, pg. 125-128. Summer 2009. http://bit.ly/qpzvXm
    [5] Mozaffarian D, Ludwig DS. Dietary guidelines in the 21st century–a time for food. JAMA. 2010 Aug 11;304(6):681-2. http://bit.ly/rfUC4e
    [6] Jen Allbritton. The Low-Carb Low-Down. Vitamin Cottage Health Hotline. July 2003. http://bit.ly/ojh1Dz

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  6. Olaré, nem mais nem menos. :)
    Muito bem sumariado, Primitivo.
    Agora uma pergunta totalmente "off-topic" ou talvez não: alguém sabe explicar-me porque é que o fantástico e excelente blog "Canibais e Reis" caiu da net? Que catástrofe aconteceu a este nosso conterrâneo?... fazia falta aquele blog para manter a frente unida nesta batalha contra a desinformação nutricional...

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  7. Como nutricionista, venho-me demarcar dos colegas que não se atualizam. Se virmos as incongruências cientificas e maus profissionais eles estão em todo lado incluindo a medicina em que a quantidade de estudos inventados e manipulados estatisticamente são gritantes (também acontece noutros ramos da ciência inclusive nutrição). O PASSE não é um programa low fat, só fala dele quem de facto não conhece o que é nem tem ideia do que é saúde pública. Eu tenho um bichinho pela saúde pública e uma grande admiração por um dos grandes defensores da educação alimentar o Jamie Oliver (não, não é nutricionista). A saúde pública requer de estratégias transversais a toda a comunidade (não apenas as crianças das escolas) e uma estratégia constante ao longo do tempo de educação e empowerment. Não metam todos os nutricionistas no mesmo saco.

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    1. Olá Cátia,

      Concordo em absoluto e o "tom" em que escrevi o artigo, há mais de um ano atrás, pode parecer algo jocoso ou de descredibilização da classe. Não é o caso. Felizmente, tenho vindo a constatar que a profissão de nutricionista é como todas as outras: tem bons e maus profissionais. O problema é que, como em muitas outras, os bons nem sempre são os mais mediáticos.

      Cumprimentos.

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