25 de setembro de 2011

Seminário "Lacticínios e Saúde Humana": as minhas considerações


Ontem teve lugar mais um seminário/mini-curso da Nutriscience, leccionado pelo meu amigo Pedro Carrera-Bastos. O tema foi “Lacticínios e Saúde Humana”, sempre numa perspectiva evolutiva e integrada sem descurar a realidade moderna e constrangimentos clínicos. Sem surpresa, este curso foi um momento científico raro de qualidade, com grande adesão por parte dos profissionais ligados às várias áreas da saúde. E mais do que isso, foi um dia muito bem passado.


Este curso foi a consequência natural de uma palestra do Pedro em Los Angels no âmbito do Ancestral Health Symposium e do estudo profundo que ele tem feito sobre a temática nos últimos anos. Abordou-se a história dos lacticínios na dieta humana e o seu papel na evolução da espécie até aos dias de hoje. Uma lição a retirar é que a introdução do leite não foi uma casualidade mas sim uma necessidade. Num meio em mutação e em que os animais não eram tão abundantes como outrora, o leite era uma fonte proteica abundante e constante que não implicava o abate dos animais domésticos tão úteis para outras tarefas.

É hoje bem aceite que estas mudanças na transição Paleo-Neolítico implicaram um compromisso entre a saúde e a sobrevivência da espécie. Verificou-se uma deteriorização em marcadores antropométricos que nos indicam um fenótipo sub-óptimo num meio agrícola. Foi o preço a pagar pela socialização da espécie e desenvolvimento de novas competências culturais que culminaram naquilo que somos hoje. Se bom ou mau fica ao critério de cada um. A evolução não tem um valor ou objectivo. É um fim em si própria. 

Desenvolvimentos relativamente recentes sugerem que os lacticínios podem estar implicados uma série de doenças degenerativas crónicas. Estas doenças verificaram uma incidência crescente no último século, um período em que o consumo de lacticínios foi e é advogado como saudável e até essencial. Mas será mesmo?

Esta foi uma das questões a que o Pedro tentou responder à luz dos estudos mais recentes e que nem sempre são foco da atenção dos media. Não existe interesse em sair de uma zona de conforto que se tornou um paradigma entre os nutricionistas. E não me interpretem mal. Os paradigmas são a base da ciência. Mas isto não significa que sejam imutáveis. Até há bem pouco tempo toda a Física se baseava no princípio de que a velocidade da luz era o limite da matéria. Na semana passada este dogma foi abalado. A confirmar-se, a ciência nunca mais será a mesma.

Um aspecto que prezo nestes cursos é o ambiente “familiar” e divertido. Mesmo com casa cheia, a densidade da informação era aliviada pelo estilo coloquial do orador e com as intervenções dos seus colaboradores e assistência. Esta descontracção permite absorver os conteúdos com maior facilidade e enriquecê-los com as experiências das várias pessoas que participaram no evento.

E isto leva-nos à multidisciplinaridade e vasta experiência clínica que valorizou imenso o seminário. Desde profissionais do exercício a nutricionistas, todos deram o seu contributo e partilharam a sua inestimável experiência com pessoas reais, um aspecto que nós cientistas muitas vezes esquecemos. Mas a ciência existe para servir as pessoas. No final houve uma coisa que ficou clara para além de qualquer dúvida: na grande maioria dos pacientes, a exclusão do leite da dieta trouxe melhorias consideráveis. Falo de sintomas comuns de desconforto intestinal, reacções imunes cutâneas, alergias e até composição corporal. Isto é a experiência que os clínicos têm no seu dia-a-dia com pessoas de carne e osso.

Aproveito também para agradecer a menção da Teresa a este blogue, prontamente reforçada pelo Pedro. Espero conseguir manter-me ao nível das expectativas e fazer deste espaço um “oásis” para quem pensa “out of the box” numa sociedade espartilhada por crenças tão pouco fundamentadas em factos objectivos. 

É importante que cada vez mais gente adira a estas formações e que contribua para um grupo coeso de pressão. Estes eventos não valem apenas pelo conteúdo mas também pela reunião de vários profissionais que trocam experiências em diversas disciplinas na área da saúde. Quem perdeu esta terá brevemente uma nova oportunidade e 2012 promete ser um ano de sucesso para a Nuriscience. Estão previstas várias palestras com oradores de nível internacional, investigadores de topo nas suas áreas, que irão ser reveladas a seu tempo.

8 comentários:

  1. Ah, cá está um breve relatório do evento, mas menos expositivo do que esperava. Mesmo não sendo a mesma coisa, quem tiver tido a oportunidade de visionar a palestra do AHS em L.A, ficará muito desfasada desta, a nível de conclusões, data avançada e informação partilhada?

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  2. Bom... a palestra no AHS teve apenas 1h e este evento foi um dia inteiro. Claro que foi mais completo. Não seria correcto da minha parte estender-me porque o seminário foi pago e como tal há que respeitar a restrição dos conteúdos.

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  3. Minha sempre grande dúvida é se os laticínios não estarão levando a culpa injustamente... particularmente porque você diz que as doenças atribuidas ao consumo de laticínios "verificaram uma incidência crescente no último século"... Ora, o leite não foi introduzido na alimentação humana no último século!

    Não sei que estudos o Pedro apresentou, no entanto, eu perguntaria:

    - o que existe em termos de fisiologia humana que comprove esses estudos epidemiológicos?

    - recentemente, o pesquisador Carlos Monteiro noticiou a publicação de um estudo que mostra os BENEFÍCIOS do leite na sua relação com a doença cardiovascular e na prevenção da arteriosclerose: http://teoriadaacidez.blogspot.com/2011/05/estudo-confirma-leite-e-seus-derivados.html

    - e como explicar o bom estado de saúde dos franceses, que consomem laticínios em todas as suas refeições?

    Eu sou apenas uma leiga em busca de respostas, mas ainda não conseguiram me convencer que o leite é o grande vilão da nossa história recente de má saúde.

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  4. Eu também não julgo que os lacticínios sejam a causa da epidemia de doenças cronicas na modernidade. Espero não ter passado essa ideia e também não me parece que essa seja a posição do Pedro. Ele até assumiu uma posição bastante moderada durante o seminário. A verdade é que os casos clínicos que beneficiam da restrição são mais que muitos e os profissionais devem estar alerta para melhor aconselhar os seus pacientes.

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  5. Dessa vez não pude comparecer... Mas pelos seus apontamentos deve ter sido incrível.
    Abraços

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  6. Há que fazer uma muito importante distinção entre leite e lacticínios... os derivados do leite são processados por bactérias e como tal os seus efeitos no nosso metabolismo e saúde podem (e são!) bastante diferentes conforme o grau de processamento por parte dos microorganismos.
    Tanto quanto pude perceber até agora, o leite é um alimento "desenhado" (ou melhor "evoluído") para satisfazer as necessidades das crianças dos zero aos dois anos de idade, e acima dessa idade começam a construir-se os problemas crónicos de saúde que mais tarde se tornam sintomáticos. Mas o iogurte e o queijo são descobertas humanas "engenheiradas" em simbiose com esses microorganismos; a sua composição é inteiramente diferente e é de uma forma geral aceite que estes "pró-bióticos" são benéficos. O mesmo já não se pode dizer das proteínas e açúcares que se encontram em excesso relativo para adultos no leite não-digerido.
    Certo?

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  7. Harvard retira laticínios da dieta saudável!

    http://portugalmundial.com/2013/04/harvard-retira-laticinios-da-dieta-saudavel/

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    1. Tinha visto e em breve teremos um comentário de um especialista aqui no blogue. É bom que Harvard o tenha feito agora, porque eu já o fiz há muito...

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