24 de janeiro de 2013

Efeito nocivo do bisfenol-A demonstrado pela primeira vez em células humanas


Há já algum tempo que se fala do bisfenol A (BPA) como um disruptor endócrino de efeitos xenoestrogénicos (imita os estrogénios no organsmo) e anti-androgénicos (inibe as hormonas sexuais masculinas, nomeadamente a testosterona). Alguns estudos observacionais sugerem também que poderá haver uma relação entre a exposição a BPA e a obesidade, embora a maior parte dos estudos incida sobre a depressão nos níveis de testosterona, redução na qualidade do esperma, e desenvolvimento masculino anormal do feto. Fora isso, temos muitos estudos em animais que sugerem o mesmo, embora a exposição seja por vezes demasiado alta para os padrões normais do dia-a-dia. Neste sentido, surge agora um trabalho experimental in vitro com tecido testicular humano a mostrar que a exposição a pequenas quantidades de BPA é suficiente para produzir um efeito nocivo no testículo humano.


O bisfenol A é um composto utilizado para a fabricação de plásticos e resinas. Poderemos encontrá-lo em garrafas e nos revestimentos das latas, mas o mais assustador e que mais tem levantado polémica foi a sua presença nos biberões e embalagens de produtos para bebé. Sabe-se que a exposição leva a aumentos significativos de BPA no sangue, urina, placenta e fluído amniótico. É precisamente nas fases de desenvolvimento que o BPA é mais nocivo nos estudos em animais. Os bebés e fetos deverão ser particularmente susceptíveis aos efeitos nocivos de BPA. Como precaução, os plásticos e resinas fabricados com BPA estão banidos dos produtos destinados a bebés desde 2011 na Europa. A tendência é para a sua proibição se estender a todos os produtos alimentares antes de 2020.

No trabalho que vos falo, a equipa de investigadores mostra pela primeira vez evidências experimentais com tecidos humanos de que o BPA, em concentrações modestas, pode influenciar negativamente a função do testículo. A exposição reduziu a produção de testosterona desde o primeiro dia de exposição, efeito este a níveis bem inferiores do que os necessários para induzir um efeito semelhante em tecido proveniente de ratos. Parece que os humanos são mais sensíveis aos efeitos do BPA. Além disso, e o mais assustador, é que a concentração usada é idêntica à que podemos dosear normalmente do sangue, urina ou líquido amniótico de pessoas expostas (e quem não está?).

Porque este estudo é importante? Apesar de in vitro, fica demonstrado experimentalmente pela primeira vez um efeito deletério do BPA no sistema reprodutivo masculino (causal), com especial implicação no desenvolvimento fetal e fertilidade. Este efeito é atingido com concentrações que facilmente encontramos em pessoas expostas no seu quotidiano. Além disso, sabemos agora que o rato não é um bom modelo para estudar toxicidade já que parece ser bem mais resistentes os efeitos do BPA. A meu ver, e tendo em conta toda a literatura precedente, parece-me perfeitamente justificada a proibição total do BPA em produtos de uso humano. Mas enquanto isso não acontece, cabe-nos a nós reduzir a exposição ao máximo evitando as embalagens fabricadas com este composto (e outros como os ftalatos). Podemos começar utilizando garrafas para água BPA-free e dando preferência a conservas em frascos de vidro.

Garrafas BPA-free da Aladdin à venda em Portugal

Thierry N’Tumba-Byn, et al. Differential Effects of Bisphenol A and Diethylstilbestrol on Human, Rat and Mouse Fetal Leydig Cell FunctionPLoS ONE, 2012; 7 (12): e51579. Link

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