31 de janeiro de 2013

Tudo o que comemos está associado ao cancro?


A carne vermelha é cancerígena. Não... É só a processada. É o aspartame que causa cancro. É a soja estúpido! Tudo causa cancro... Ou previne o cancro. O ramo da epidemiologia nutricional cresce a olhos vistos, alimentado uns media sedentos por novos riscos de saúde todas as semanas. Deveríamos saber à partida o valor desses trabalhos e não estabelecer relações causais abusivas, o que acontece frequentemente. Há uns tempos foi publicado um artigo engraçado no American Journal of Clinical Nutrition precisamente sobre esta questão: "Is everything we eat associated with cancer? A systematic cookbook review". Isso mesmo... Uma revisão aos livros de receitas para verificar se os ingredientes mais usados tinham já alguma vez sido implicados com o cancro em trabalhos científicos. O que encontraram?


Dos 50 ingredientes analisados, 40 (80%) tinham pelo menos um estudo a associá-los ao cancro, quer na redução do risco quer no aumento. O problema é que a grande maioria encontrou efeitos pequenos ou uma significância estatística muito pequena. Mesmo a qualidade das meta-análises é fraca segundo os autores, pois comparam estudos com diferentes indicadores de exposição. E como seria de esperar, elas tendem a encontrar menores efeitos do que os estudos individuais. Para verem como os dados são caóticos, reparem no gráfico seguinte com os efeitos encontrados para os alimentos/ingredientes com pelo menos 10 estudos sobre a sua associação com o cancro:


Como podemos ver, há resultados para todos os gostos. O mesmo alimento aumenta e reduz o risco de cancro. Alguns no entanto parecem mais ou menos consistentes como é o caso do bacon, sal, açúcar e carne de porco. O problema é que, como disse, estes resultados se baseiam em evidência estatística fraca que não nos permite retirar conclusões robustas. E sejamos francos... Nem a própria metodologia do estudo se destina a encontrar relações causais. Mas confesso que até me daria um certo prazer intelectual dizer-vos que o açúcar causa cancro, o que em parte até acredito (pelo menos ajuda na sua progressão).

A verdade é que hoje em dia os estudos científicos são publicados a um ritmo alucinante. É impossível a um investigador estar a par de tudo ao pormenor. A não ser que o trabalho seja de facto muito interessante para a sua área de investigação, são poucos que vão ler todo o artigo e escrutinar a força das associações estatísticas. Muitos ficam-se pelo abstract, o que nos dá uma ideia enganadora do efeito. E se é assim com os próprios investigadores, imaginem com o público que muitas vezes apenas contacta com estes estudos através da imprensa, não têm acesso ao artigo completo, ou simplesmente não tem bases que permitam fazer uma análise correcta aos resultados. 

Não quero dizer-vos que a alimentação não tem nada a ver com o cancro. Longe disso. Quero apenas sublinhar que são necessárias evidências para fazer tal associação, seja ela protectora ou de risco. E elas raramente existem em epidemiologia nutricional. A plausibilidade biológica fica muitas vezes à parte da discussão quando a imprensa, e qualquer um de nós para afirmar um bias,  se esquece da necessidade de  rigor e  isenção próprias da boa prática científica.


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